Energia barata de Itaipu faz brasileiro dobrar aposta em bitcoins no Paraguai

Empresários do Brasil ignoram risco de bolha e ampliam mineração de criptomoeda no país vizinho

Fábio Zanini
Ciudad del Este (Paraguai)

Conhecida por megashoppings de nomes como Mona Lisa, Vendome e Paris, Ciudad del Este vem sendo tomada po r empreendimentos que passam longe da tentativa de inspirar glamour.

A cidade paraguaia, que é sinônimo de compra de eletrônicos, bebidas e perfumes, vive uma expansão de galpões e contêineres onde milhares de máquinas pouco maiores que a bateria de um carro zunem incessantemente, produzindo níveis extremos de barulho e calor. Grandes ventiladores em potência máxima baixam a temperatura de insanos 60º C para aceitáveis 40ºC.

 

Esses locais são mineradoras de bitcoin —a maioria propriedade de empresários brasileiros que migraram para o Paraguai em busca de energia barata e facilidade de importação de máquinas, quase sempre chinesas. Levam uma vida de alto padrão, em condomínios luxuosos e com uma coleção de carros.

O custo do kwh, medida de energia elétrica hora, é de cerca de US$ 0,04 (R$ 0,16) no país, enquanto no Brasil a média, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica ), é de R$ 0,56 —250% mais cara.

A explicação é que o Paraguai tem de Itaipu muito mais do que necessita.

O negócio das bitcoins também se beneficia de um ambiente regulatório permissivo e de baixa carga tributária.

Alheios ao risco de estouro da bolha das criptomoedas e às cada vez mais frequentes notícias equiparando o setor a esquemas de pirâmide, os empresários estão dobrando a aposta. Três dos principais brasileiros que operam no país vizinho planejam expandir o negócio, erguendo novos locais de operação e comprando equipamento mais potente.

“Muitas vezes se fala em moeda digital e o cara não entende a estrutura física por trás. Acha que é só um programa de computador”, diz Antônio Silva, 52, dono da MDX, que tem 12 mil máquinas espalhadas por quatro áreas de Ciudad del Este e cercanias fazendo a mineração.

 

Em um destes polos, seu equipamento ocupa um pequeno edifício de três andares e mais sete contêineres adjacentes. Um terreno comprado ao lado está sendo preparado para aumentar a capacidade. Silva quer ter mais 50 mil máquinas trabalhando nos próximos dois anos. “Eu não fazia ideia do que era criptomeda. Aprendi com os que foram caindo pelo caminho”, diz ele, que deixou Florianópolis (SC) há quatro anos, depois de quebrar com uma empresa de perfume.

Nascido em Goiás, onde diz que foi até morador de rua, recebeu apoio para tentar a sorte no Paraguai do amigo Rocelo Lopes, o primeiro brasileiro a se arriscar no país vizinho.

“No começo, quando o empreendimento é uma canoa, você consegue desvirar. Se cresce e se torna um barquinho, é mais difícil. Quando vira um transatlântico, é naufrágio. O meu barquinho virou várias vezes, mas eu sempre desvirei, até me estabilizar”, filosofa ele, que emprega 60 pessoas atualmente.

Da mesma forma que o ouro usado como reserva de valor já esteve um dia embaixo da terra, a bitcoin que abastece as corretoras em endereços de alto padrão de grandes cidades é minerada em um processo exaustivo e incerto.

A diferença é que quem realiza esse trabalho são máquinas, por meio de uma infinidade de cálculos matemáticos. As bitcoins e outras moedas virtuais menos populares, como o ethereum, são oferecidas como uma espécie de prêmio para quem obtiver sucesso em resolver problemas complexos programados numa rede chamada blockchain.

Alguns cálculos envolvem encontrar a combinação certa numa sequência de 45 algarismos, com alternância de letras, números e símbolos.

Como as bitcoins oferecidas na rede são finitas, e serão cada vez menos numerosas, leva vantagem quem tiver máquinas mais potentes de cálculo.

Mesmo num país com eletricidade quase de graça, mineradoras de moedas digitais têm gasto de energia que pode chegar a US$ 100 mil por mês (R$ 410 mil). Por isso, quando o governo paraguaio assinou, em maio, um acordo com o Brasil revendo preços, empresários levaram um susto.

Atendendo à reclamação do Brasil, o Paraguai se comprometeu a pagar mais US$ 200 milhões (R$ 820 milhões) pela energia a que têm direito de Itaipu, o que poderia elevar a conta de luz. A reação, inclusive com ameaça de impeachment do presidente Mario Abdo Benítez, obrigou-o a recuar.

A nova data-chave é 2023, quando o acordo pelo qual a energia da usina é dividida entre os países será revisto. Mas os brasileiros estão confiantes de que um aumento da tarifa será evitado. “O povo não vai deixar subir a tarifa. O grande motivo pelo qual estamos aqui é a energia, se subir eu arranco tudo daqui na hora e levo para outro lugar”, diz Silva.

Outro custo alto das empresas é com as máquinas, que podem valer até US$ 1.500 (R$ 6.150) cada. Muitas empresas abrigam equipamentos de investidores e dividem o valor das bitcoins obtidas, ou cobram um aluguel fixo.

Operando em um galpão de teto de zinco e tijolos aparentes, com máquinas empilhadas em estantes de canos de PVC , a Coin Py foi a primeira a chegar ao Paraguai, em 2013. Seu proprietário, Rocelo Lopes, 46, tem operações de bitcoin no Paraguai, África do Sul e Costa Rica, além de uma corretora no Brasil.

Em Ciudad del Este, são 2.100 máquinas trabalhando freneticamente, 24 horas por dia, produzindo em média 5 bitcoins e 150 ethereum por mês. Em breve chega mais um lote de equipamentos, com potência redobrada.

“Isso aqui é uma questão de adivinhação. Você nunca tem certeza de nada. Mesmo assim, continua valendo a pena”, afirma Eduardo Coronel, responsável por manter funcionando a parafernália elétrica do lugar. 

Queima de placas e superaquecimento são problemas constantes, e um aplicativo alerta caso alguma máquina dê problema durante madrugada, quando não há mais funcionários no local. Um deles então sai de casa para consertar o aparelho defeituoso, não importa o horário.

Coronel estima que existam cerca de 60 mineradoras de bitcoin atualmente no Paraguai, mas muitas funcionam em fundos de quintal, o que levanta a suspeita de que são esquemas de pirâmide disfarçados, oferecendo retorno de até 50% ao mês no investimento. “Por culpa desses ‘piramideiros’, ficamos todos com fama de malandros”, afirma Coronel.

O fato é que a grande volatilidade das bitcoins não contribui para sua imagem. Ao serem criadas, em 2008, por uma pessoa (ou grupo de pessoas) usando o nome Satoshi Nakamoto, cada bitcoin valia menos de US$ 1 (R$ 4,10). Quem investiu naquele experimento à época ficou milionário, pois a moeda atingiu o pico de US$ 19,7 mil (R$ 81 mil)em dezembro de 2017, para depois cair vertiginosamente.

São comuns oscilações de 25% num período de dez dias. Na semana passada, a bitcoin era cotada em torno de US$ 8.300 (R$ 34 mil).

A cada quatro anos, num processo chamado de “halving”, o número de bitcoins oferecido pela rede blockchain cai pela metade, o que contribui para sua valorização e acirra a competição pela mineração, uma das razões pelas quais investe-se tanto em máquinas mais potentes.

Nascido em Taiwan e com cidadanias brasileira e paraguaia, Antonio Li, 39, começou minerando bitcoins de forma caseira, em 2017. Hoje aluga um galpão de 800 m² e está de mudança para uma estrutura duas vezes maior perto de uma subestação de Itaipu, no município de Hernandaria, vizinho a Ciudad del Este.

Motivo: a luz no Paraguai é barata e abundante, mas a distribuição é precária, e há muitas oscilações na rede. Ficar mais perto da usina garante energia de melhor qualidade.

“O Paraguai é o melhor país do mundo para minerar bitcoin. A energia é tão barata que mesmo usar máquinas de baixa eficiência vale a pena. É como o petróleo na Venezuela”, afirma Li, que trabalhava com importação de equipamentos eletrônicos antes de se aventurar pelo mundo das moedas virtuais.

Como as empresas de bitcoin operam num limbo jurídico, recolhem imposto de variadas formas. Li, por exemplo, está registrado como serviço de assistência técnica. Em regra, pagam IVA (Imposto sobre Valor Agregado) de 10% sobre o faturamento.

O Congresso paraguaio está discutindo a regulamentação do setor, o que poderá levar à maior cobrança de impostos. Nem assim os empresários brasileiros pensam em deixar o país. “Segurança jurídica é o que falta para esse país virar definitivamente um polo mundial de bitcoins”, afirma Li, que aprova a regulamentação.

Mas a maior ameaça, a do estouro da bolha, tampouco assusta. “Ouço que vai ser uma bolha desde que eu comecei. Não vou me preocupar com o que não controlo”, afirma Silva.

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