Descrição de chapéu Maioria Invisível

Falta o negro mostrar às empresas o valor do seu dinheiro, diz Taís Araújo

Segundo a atriz, negras passaram anos comprando xampu de brancas porque não foram educadas para serem representadas e isso está mudando

Priscila Camazano
São Paulo

Negra, mulher e exemplo de representatividade, sim, isso inspira, diz Taís Araújo. A atriz reconhece que o desejo de a sociedade brasileira se enxergar na televisão, por meio de figuras como ela, ajudou no seu crescimento profissional.
 
Na conversa que teve com a Folha sobre a representatividade e os dilemas de ser mulher e negra no Brasil, Taís diz que não há como comparar a sua história de vida com a de outras negras, porque já partiu na corrida muito à frente da maioria, principalmente por ter tido acesso à educação de qualidade.

Também pondera que a cor da pele, mais clara, ainda permitiu que ela tivesse mais possibilidades de trabalho ao longo da carreira.
 
Para ela, só quando os negros entenderem o valor do seu dinheiro e que devem consumir produtos de quem os respeitam, que os representam, as coisas vão mudar. 

São poucas as mulheres negras que alcançam cargos de destaque nas empresas. De acordo com uma pesquisa de 2015 do Instituto Ethos há apenas 0,4% de negras em cargos de liderança. Foi difícil conquistar protagonismo na sua carreira? 

Quando eu escuto você falar isso, me vem claro na mente a desigualdade social. A maioria da população negra vive em situação econômica muito frágil. Eu sou uma mulher negra privilegiada. O fato de eu ocupar o cargo que tenho hoje se deve a muitas questões além de talento, empenho ou investimento da empresa em que trabalho. 

Eu já parti na corrida na frente de muitas mulheres parecidas comigo. Não há como comparar. Estudei a vida inteira em colégio particular e já morei fora do Brasil. Se eu não fosse atriz, qualquer cargo que ocupasse dentro de uma empresa seria alto, porque tive oportunidade de educação.

Taís Araújo é a personalidade da capa da revista Claudia
Taís Araújo é a personalidade da capa da revista Claudia - Luiz Crispino/Divulgação

A minha irmã, por exemplo, que recebeu a mesma educação que a minha, é médica ginecologista obstetra e dona do próprio consultório em um bairro nobre de Brasília. 

Na dramaturgia, a corrida é um pouco diferente, porque é um campo que depende do que a sociedade demanda. 

E isso tem a ver com o fato de o Brasil estar passando por uma tomada de consciência, de o país se entender como uma nação de população negra. Isso explica o meu crescimento no que faço: reflete o desejo da sociedade brasileira de se enxergar na televisão. 

A internet também demanda essa presença o tempo inteiro. Todos ganharam voz, e os desejos estão sendo jogados e acolhidos, porque isso também é um negócio e vivemos em um país capitalista.

Quando era modelo você teve dificuldades de encontrar trabalho por ser negra? 

Sim, tinha muita dificuldade. Fiquei no mercado de trabalho durante muito tempo e escutei de tudo. Uma vez estava fazendo um casting para uma campanha de sorvete e a resposta foi: não queremos negros, como se negro não tomasse sorvete. 
 
E, também, é óbvio para mim, mesmo enquanto atriz, de que eu tenho mais possibilidades de trabalho por ter a cor da pele mais clara. As atrizes negras retintas têm menos. Vemos na televisão. 

Nos bastidores, há queixas de colegas atores e atrizes negras sobre oportunidade de trabalho?

A comunidade de artistas negros tem se acolhido muito. Eu, por exemplo, enquanto atriz, entendo qual é a hora de me retirar quando o papel não é para mim, mas para uma profissional de pele mais retinta.

Esse caminho, do acolhimento, de entender quando o lugar não é seu, mas de outra pessoa, me interessa muito.

E nós, comunidade negra artística, já entendemos que se um chegar lá em cima –e for apenas o único a chegar– isso não é mudança.

A verdadeira mudança só vai acontecer quando, na dramaturgia, tivermos uma quantidade de negros que represente a sociedade brasileira. Por isso, nós potencializamos um ao outro.

É fundamental para mim que a Sheron Menezes, a Cris Vianna, a Olivia Araújo e a Juliana Alves trabalhem para caramba. Tem que ter trabalho e ambiente próspero para todas nós, caso contrário, vamos continuar trabalhando na exceção e, assim, não teremos mudança.


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Nós entrevistamos para a série o Helder Dias, dono de uma agência especializada em modelos negros, e ele falou que as negras de pele retinta trabalham menos que as de pele clara. Chegou a mencionar que alguns clientes pedem modelos estilo Taís Araújo, quando querem uma negra, estilo Camila Pitanga, quando querem uma modelo de pele mais clara. O que você tem a dizer sobre isso?

Reforça o que eu falei: querem a negra, mas não a retinta.

Quando uma empresa vende um produto, embute um valor nele. O mercado já está entendendo que nos interessa sermos representados. Mas é um começo.

Infelizmente, vamos passar por um processo, forçar a barra, até que as empresas se toquem que o negro não é um só. O negro não pode ser só representado pela Taís ou pela Camila. A gente tem muita mistura. O Brasil tem muitos tipos de mestiçagem, e também tem negros que não são mestiços. Essas pessoas também precisam ser representadas. 

Existe essa tendência de [o mercado] se aproximar do que for semelhante à beleza europeia –a pele mais clara e o nariz fino. Essa pessoa não deixa de ser negra, mas essas características atendem a uma parte da sociedade, não a uma outra, que é gigantesca.

Na minha opinião, o que vai fazer a mudança é a demanda da população, que fará com que as empresas se posicionem de uma maneira que atenda às nossas necessidades.

Uma pesquisa, em 2015, identificou que mulheres negras representavam 4% das protagonistas nos comerciais. Em meados de 2018, o levantamento mostrou que a parcela havia crescido para 25%. Em 2019, cai para 17%. Na sua opinião, o que pode ter levado a esse movimento?

É um reflexo do momento em que o país está vivendo. O país está esquisito, e nós sabemos. Para ser sincera, nem me surpreende, sabia? Mas mostra que não podemos parar de trabalhar, de reforçar a importância de se sentir representada.

Acho que falta algo muito importante: a população negra entender o valor do seu dinheiro e mostrar para as empresas. A diversidade depende de nós. Quando a população negra entender que deve consumir [produtos de] quem a respeita, muita coisa vai mudar.

Eu, por exemplo, hoje em dia, prefiro comprar das empresas que comungam com os meus valores como cidadã. Não naquelas que não estão nem aí para a diversidade, para o meio ambiente, para nada.

Quando a gente entender o valor do dinheiro, a coisa vai mudar de figura. Os americanos já entenderam isso faz tempo, não é?
 
A mulher negra tem um grande potencial de consumo, mas essa representatividade ainda não é refletida proporcionalmente nos produtos e nas propagandas. Qual a sua opinião sobre isso?

Nós fomos muito mal educados nesse sentido. Vou dar um exemplo. Durante anos, compramos xampu para qualquer tipo de cabelo, porque só havia uma opção, ele ainda era anunciado por uma pessoa com características físicas completamente diferentes das nossas. Mas nós comprávamos.

Nós temos um potencial gigantesco de consumo -e nós sabemos. O que falta é a consciência desse poder. Parar para entender por que continuamos consumindo produtos que não nos contemplam, que não nos representam.

A única maneira que explica esse tipo de comportamento é porque fomos mal educados nesse sentido.

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