Fracasso da WeWork abre especulação sobre criação de bolha dos unicórnios

Mercado teme que startups de hoje vão gerar perdas como as das empresas de tecnologia há 20 anos

Paula Soprana
São Paulo

A rápida derrocada da WeWork, empresa de compartilhamento de escritórios, que em dez meses teve valor de mercado de US$ 47 bilhões e agora pode ter sua avaliação reduzida para US$ 8 bilhões, acirrou a especulação sobre uma possível bolha de unicórnios nos Estados Unidos.

Unicórnios são startups que crescem em ritmo acelerado e passam a ser avaliadas por investidores em mais de US$ 1 bilhão. 

Em 2019, uma série de empresas do Vale do Silício, que na prática não eram startups há muito tempo, ingressaram na bolsa de valores americana. Foi o ano de IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) para Uber, Lyft, Slack e Pinterest.

Um dos espaços do We Work, em Washington
Um dos espaços do We Work, em Washington - Mandel Ngan - 13.mar.2014/AFP

Ao abrirem capital e terem as finanças regulamentadas pela SEC (Securities and Exchange Comission, agência federal americana que regulamenta os mercados de valores mobiliários), elas perderam valor. 

As ações da Uber chegaram a operar 30% abaixo do preço da IPO, que ocorreu em maio, e seu resultado do segundo semestre foi o pior da história. 

A WeWork, controlada pela We Company, desistiu antes de vender a primeira ação. Retirou o pedido de IPO, seu fundador renunciou por pressão de investidores e a empresa agora deve receber socorro financeiro. Mesmo assim, mantém a expansão ao lançar em três meses quase o mesmo número de escritórios do primeiro semestre.

Com empresas supervalorizadas, a porcentagem de IPOs não lucrativos chegou ao mesmo nível da bolha de tecnologia dos anos 2000, segundo a Standard & Poor’s, que em relatório da semana passada cita uma mudança de foco dos investidores, que agora devem buscar lucratividade. 

Há fatores que aproximam a bolha de 1999-2000, a "bolha ponto com" (da qual o Google sobreviveu), para a  especulação da bolha de 2019. 

O mais visível é o otimismo exagerado que ronda algumas empresas de tecnologia, seja na injeção de dinheiro, na narrativa de que vão mudar o mundo ou na apropriação excessiva da palavra comunidade, como se fossem hippies, não corporações.

Outro mais prático é que elas não dão retorno financeiro e rapidamente precisam encolher e fazer demissões.

Consolida-se, no entanto, a percepção de que há mais disparidade do que semelhança entre as empresas de tecnologia do fim dos anos 1990 e as de hoje. Uma delas é que as startups de 2019 são mais maduras (não irão à falência depois de um IPO frustrante), têm modelos de negócio sustentáveis no longo prazo e são uma pequena amostra do mercado, não o todo.

“É exagero dizer que é a mesma bolha dos anos 2000, porque naquela época todas as empresas estavam sobrevalorizadas, qualquer apresentação de PowerPoint já rendia milhões. Hoje há sobrevalorização apenas sobre algumas”, diz Guilherme Horn, conselheiro da ABFintechs.

A euforia com startups na última década se deve ao excesso de liquidez na indústria de venture capital (investimento de risco). Com juros baixos em alguns países, investidores começam a buscar rentabilidade menos convencionais e encontraram nas startups uma alternativa. 

Depois da rápida ascensão financeira de Google e Facebook, qualquer marca de tecnologia minimamente promissora parece vir carregada de esperança inflada de lucro.

Além disso, houve um aumento de fundos de risco, a exemplo do conglomerado japonês SoftBank, de US$ 100 bilhões, apoiado pela Arábia Saudita, que ajudou a fomentar esse mercado —inclusive unicórnios brasileiros como 99 e QuintoAndar.

“Existe o senso de que é um momento de exuberância, de pico, tanto de dinheiro quanto de atitude. A mistura desses elementos leva a casos como o do WeWork. Temos visto a indústria se preparar para algum tipo de correção”, diz Edson Rigonatti, fundador do Astella Investimentos.

O WeWork é citado como o sinal amarelo da atual fase de startups que, quando investigadas de perto, não convencem analistas com bons números além de expectativas. “Ao menos teriam que mostrar margem de contribuição individual”, diz Horn. 

Especialistas chamam a atenção para não incluí-la no mesmo balaio. Primeiro: apesar de seu funcionamento incluir um aplicativo, há controvérsia sobre ela ser categorizada como uma empresa de tecnologia, a exemplo de Uber e Airbnb, cuja operação é centrada na plataforma.

Segundo: ela teve problemas de governança, o que não é a regra. O agora ex-bilionário Adam Neuman, fundador e ex-presidente, não agradou os investidores. Decisões como não reembolsar funcionários por refeições que incluíssem carne vermelha também repercutiram como arbitrárias dentro dos escritórios.

Caso parecido ocorreu com o Uber, quando manchetes sobre o comportamento privado e denúncias de sexismo dentro da corporação levaram o antigo presidente Travis Kalanick à destituição do cargo.

O Uber é o maior exemplo de sequentes prejuízos e de uma promessa de lucro que só fica no futuro. A diferença, segundo especialistas, é a aposta de que o aplicativo de transporte terá um papel importante no cenário de carros autônomos. A empresa já existe há dez anos.

O Airbnb também gera preocupação em investidores. Com previsão para entrar na bolsa em 2020, a perda operacional mais que dobrou no primeiro trimestre deste ano, segundo dados revelados pelo site The Information.

Apesar do momento de “retração contida”, segundo um analista, quem vai perder são os fundos soberanos de Arábia Saudita, China e Singapura, que apostam nesse mercado, não a bolsa, como foi nos anos 2000.

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