Morre o banqueiro Lázaro Brandão, ex-presidente do conselho do Bradesco

Executivo iniciou a carreira em 1942 na Casa Bancária Almeida & Cia., em Marília (SP)

São Paulo

O ex-presidente do conselho de administração do Bradesco, Lázaro de Mello Brandão, 93, morreu nesta quarta-feira (16) em São Paulo. Ele estava internado no hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo, para recuperação de uma cirurgia de diverticulite.

O banqueiro deixa mulher, Albertina, duas filhas, Sônia e Beatriz, e um neto, João Pedro —uma terceira filha já havia morrido. Brandão ocupava a função de presidente das empresas controladoras do Bradesco, empresa na qual atuou por quase toda a vida —foram 76 anos na instituição.

Deixou a presidência do conselho do banco apenas em 2017, aos 91 anos, quando foi substituído por Luiz Carlos Trabuco. Mesmo depois de deixar o cargo, continuava a ir à sede do banco, em Osasco,  diariamente.

Brandão foi cremado no cemitério Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo. A cerimônia foi acompanhada por empresários e banqueiros.

Durante o velório, no mesmo local, Luiz Carlos Trabuco, presidente do conselho de administração do Bradesco, compartilhou parte da rotina de trabalho com Brandão, do qual se aproximou nos anos 1980.

“Depois, no final dos anos 1990, fui trabalhar com ele na mesma sala. Nos últimos 10 anos, eu trabalho na mesa ao lado da dele. A distância entre nossas mesas é se dois metros”, disse Trabuco.

O atual presidente do conselho do Bradesco definiu Brandão como um “homem que é formador”, discreto, com comando de autoridade, mas extremamente sutil. 

Trabuco falou ainda sobre a relação de Amador Aguiar e de Brandão com Octavio Frias de Oliveira, que remonta os anos 1950. Foram sócios em em bancos e empreendimentos imobiliários antes de que ele se tornasse publisher da Folha. “As duas instituições [Bradesco e Folha] têm uma história comum há muito tempo”.

O banqueiro afirmou ainda que Brandão teve uma carreira única. “Pode viver e aprender tudo de bom e de mau que aconteceu na sociedade. Ele começou a trabalhar em banco quando a Segunda Guerra Mundial não havia terminado. Que esperança havia? Mas foi um cara determinado.”

Octavio de Lazari Junior, presidente do banco, destacou que seu conhecimento do mercado financeiro e da economia brasileira foram fundamentais para a construção de uma cultura de negócios.

"Não foram poucas as ocasiões em que uma decisão sua simplificava processos e solucionava as mais intrincadas dúvidas", disse, em nota.

Octavio de Lazari Junior (à dir), Luiz Carlos Trabuco (à esq.) e Lázaro de Mello Brandão ao centro - Egberto Nogueira - 5.fev.18/Folhapress

Brandão, que nasceu em 15 de junho de 1926 em Itápolis (SP), começou a carreira em 1942 na Casa Bancária Almeida & Cia., em Marília (SP), antes mesmo de Amador Aguiar, fundador do Bradesco.

Em 1943, a Casa Bancária Almeida & Cia. se tornou o Banco Brasileiro de Descontos S.A., o Bradesco.

Ele foi presidente da diretoria entre janeiro de 1981 e março de 1999 e assumiu a presidência do conselho de administração em fevereiro de 1990. 

Ele começou a carreira como escriturário e foi subindo de funções. Na década de 1980, foi escolhido por Aguiar para sucedê-lo na presidência do banco.

À frente da presidência executiva, ele cancelou o limite de 65 anos para ocupar o cargo, em benefício próprio –embora tenha reintroduzido a norma ao deixar o posto. 

Nomeou seus dois sucessores no cargo: Márcio Cypriano (de 1999 a 2009) e depois Luiz Carlos Trabuco.

Apesar de afastado da presidência do banco, Brandão continuou a receber políticos em busca de avaliações sobre o futuro do país e também apoio eleitoral.


Homenagens

 Octavio de Lazari Junior, presidente Bradesco

“Lázaro de Mello Brandão marcou não apenas a história do Bradesco, onde começou como funcionário desde o início das atividades, em março de 1943, mas também a história pessoal de todos nós. Seu profundo conhecimento sobre o mercado financeiro, e a visão sóbria e exata da economia brasileira, foram fundamentais para a construção do Bradesco e de toda uma cultura de negócios que marcou várias gerações de executivos. Não foram poucas as ocasiões em que uma decisão sua simplificava processos e solucionava as mais intrincadas dúvidas. Seu Lázaro dedicou 76 anos de sua vida ao Bradesco. Destes, mais de meio século na alta gestão da empresa. Em todas as posições –como diretor, vice-presidente, presidente do banco, presidente do conselho de administração– tinha um ritmo de trabalho intenso e vigoroso, que nos contagiava. Era dos primeiros a chegar à nossa sede administrativa, na Cidade de Deus, e fazia questão de incutir em todos nós os valores que orientam o Banco há mais de sete décadas. Entre os empresários brasileiros ele firmou posição de liderança e tornou-se referência, com seu estilo calmo, discreto, mas decidido. Ele construiu, ao lado de Amador Aguiar, uma das empresas de maior sucesso no Brasil.”

Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do conselho de administração do Bradesco

Com imenso sentimento de pesar, o Banco Bradesco S.A. (“Bradesco”) comunica aos seus acionistas, clientes e ao mercado em geral o falecimento, nesta data, do senhor Lázaro de Mello Brandão, Presidente das suas holdings. Nascido em Itápolis, SP, tinha 93 anos, era economista e deixou esposa, duas filhas e um neto. Iniciou sua atividade profissional em 1942, na cidade de Marília, como escriturário na então Casa Bancária Almeida & Cia., que se transformou, em 1943, no Bradesco. Em 1945, transferiu-se para a Capital do Estado, no centro bancário. Em 1953, fixou-se na atual sede administrativa, em Osasco, na batizada Cidade de Deus. Dedicou-se ao longo dessa jornada às mais variadas funções, tendo se empenhado nas reestruturações administrativas. Galgou a escala ascendente da hierarquia e em 1963 passou a compor a Diretoria Executiva. Em 1981, assumiu a Presidência Executiva e, em 1982, a Vice-Presidência do Conselho de Administração, passando à Presidência do Órgão em fevereiro de 1990, renunciando em 10 de outubro de 2017. Permaneceu como Presidente das empresas controladoras do Bradesco. Em ambos os cargos, sucedeu ao mítico Amador Aguiar. Homem de visão de futuro e inesgotável capacidade de trabalho, foi uma personalidade marcante, que influenciou a todos que com ele conviveram. Será sempre lembrado pelo talento, honradez e capacidade empreendedora. Perde o sistema financeiro um dos mais ilustres e tradicionais representantes, que sempre soube guiar-nos pelos elevados ideais de honestidade, coerência profissional e dedicação. As lições que deixou certamente continuarão a influenciar positivamente as atuais e futuras gerações. Nesse momento de dor, a Organização Bradesco leva aos familiares do querido Brandão o seu abraço solidário, desejando que Deus o receba no esplendor de Sua Glória. Para a Família Bradesco, foi uma honra trabalhar, conviver e ser inspirada por esse ícone e grande líder, cuja ausência será muito sentida.

Roberto de Oliveira Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil 

Foi com pesar que recebi a notícia do falecimento de Lázaro Brandão. Como homem da indústria bancária, Lázaro marcou sua trajetória pelo espírito inovador e empreendedor. Foi um verdadeiro pioneiro dos nossos tempos. Expresso minhas condolências aos familiares, amigos e a todo corpo funcional do Bradesco neste momento de dor.

Família Safra, Banco Safra

Joseph Safra, Vicky e família manifestam profundo pesar pelo falecimento de Lázaro Brandão. Lázaro foi um grande homem de caráter ímpar, cuja dedicação e profissionalismo deixam um grande legado refletido nas almas e corações da grande família Bradesco. 

Candido Botelho Bracher, presidente do Itaú Unibanco

É com muita tristeza que recebemos nesta manhã a notícia do falecimento do amigo Lázaro de Mello Brandão, o seu Brandão, como era mais conhecido. Executivo de carreira ímpar e longeva no setor financeiro, seu Brandão foi personagem-chave não apenas para a construção de um dos maiores bancos do mundo, mas também para o desenvolvimento da economia brasileira nas últimas décadas. Pessoa íntegra e dedicada ao trabalho e à família, deixa sua marca e boas lembranças para todos nós. Em nome da comunidade Itaú Unibanco, presto condolências aos amigos, familiares e colegas que tiveram o privilégio de estar ao lado do seu Brandão. 

Sergio Rial, presidente do Santander Brasil

O banqueiro Lázaro Brandão foi um dos pilares na construção de uma organização contemporânea e à frente do seu tempo. Pensava em tecnologia e clientes muito antes, e, construiu uma das culturas mais sólidas de um grupo corporativo no Brasil. A ele, em nome da família Santander, deixo nosso agradecimento por ter liderado a indústria durante muito tempo e deixado um legado de valor inestimável.

Citi Brasil

O Citi Brasil expressa seu pesar com o falecimento do sr. Lázaro Brandão, um dos mais importantes executivos do mercado financeiro. Nos solidarizamos com a dor dos familiares, amigos e funcionários que conviveram com ele nas esferas profissional e pessoal

Rubem Novaes, presidente do Banco do Brasil

Lázaro Brandão contribuiu sobremaneira para o fortalecimento do sistema financeiro nacional, ao liderar o crescimento de um dos maiores bancos do país. Sua vida foi um legado de determinação e compromisso com o Brasil. O país sentirá sua ausência.

Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal

Tinha uma paixão pelo banco e é um exemplo para todo o mercado financeiro. A Caixa Econômica Federal presta suas condolências à família e aos milhares de colaboradores das empresas Bradesco pela morte de seu ex-presidente do conselho de administração, Lázaro de Mello Brandão. Dentre as muitas iniciativas que liderou, sem dúvida, Brandão ampliou o universo da atividade bancária em todo o Brasil nas últimas décadas.

Murilo Portugal, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos)

Em nome da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), o presidente da instituição, Murilo Portugal, manifesta seu profundo pesar pelo falecimento de Lázaro de Mello Brandão, presidente das holdings do Bradesco, nesta quarta-feira (16), aos 93 anos. Brandão começou sua bem-sucedida trajetória no setor bancário brasileiro em 1942 como escriturário na então Casa Bancária Almeida & Cia., que se transformou no ano seguinte no Bradesco. Desde então, construiu uma brilhante e competente carreira na instituição, onde passou pelas mais variadas funções, confirmando a tradição do banco de valorização de seus quadros profissionais até chegar ao topo da hierarquia, como presidente executivo e também como presidente do conselho de administração do banco. Atento às transformações tecnológicas do setor, das quais foi um dos principais líderes, no comando do Bradesco, Lázaro Brandão sempre defendeu valorizar as inovações a serviço do atendimento personalizado aos clientes. Foi um dirigente ativo e consciente do papel dos bancos no apoio ao desenvolvimento da economia nacional. “É com grande tristeza que recebi a notícia do falecimento de Lázaro de Mello Brandão, a quem conheci desde 1992, quando fui secretário do Tesouro. Um dos mais importantes e significativos representantes da história do setor bancário de nosso país e da América Latina. Além de um grande banqueiro, ele foi um grande brasileiro e um gentleman”, lamentou Murilo Portugal, que está em Washington na reunião do FMI. “O ‘Seu Brandão’, como era carinhosamente chamado por todos do setor, sempre será lembrado por sua simplicidade, humildade, liderança ativa e conciliatória, visão de futuro e inesgotável dedicação ao trabalho; aqui na Febraban, participou por dois mandatos como integrante do conselho diretor da entidade, entre os anos de 1995 e 2001. No meu período tive a honra e oportunidade de receber suas orientações e conselhos sempre pertinentes. Com sua atuação permanecerá como um exemplo inspirador para todos nós.” 


Lázaro Brandão e a expansão do Bradesco

Anos de 1940
Ingressou no Bradesco em 1942, quando o banco ainda era a Casa Bancária Almeida e Cia. Entrou como escriturário, mas graças a uma extrema dedicação, que incluía 12 horas de trabalho, em um ano já era chefe e assumiu como diretor antes do final da década, atuando na área de diretoria por 20 anos
 
Anos de 1950
Já em 1951, o Bradesco se tornou o maior banco privado do país e promoveu uma acelerada expansão com aquisições e a abertura das então chamadas agências pioneiras (localizadas onde não havia nenhum banco). Em um ano, chegou a abrir quase 180 delas. Nesse período, Lázaro Brandão criou departamentos e processos no banco, atuando em particular na fiscalização das operações e de pessoal
 
Anos de 1960
A atenção com a tecnologia fez com que o Bradesco se tornasse a primeira empresa do Brasil a ter um computador. Em 1962, o IBM 1401 foi o primeiro grande computador adquirido na América Latina.
O Bradesco também foi o primeiro banco do país a receber declarações de imposto de renda de pessoa física, em 1967. No ano seguinte, 1968, foi o primeiro a oferecer cartão de crédito
 
Anos de 1970
O Brasil viveu um período de grande crescimento, acima de 10% ao ano, e o Bradesco ampliou a sua atuação, em especial expandindo a oferta de crédito. Nesse período, ingressou no setor agropecuário
 
Anos de 1980
Em 1981, Brandão recebeu de Amador Aguiar o posto de presidente-executivo, no qual permaneceu por toda a década. Neste período, sua atuação foi decisiva para o banco reunir empresas de seguros e criar o grupo Bradesco Seguros. Foi também a fase de popularização da tecnologia bancária. Houve expansão do uso do cartão magnético e a implantação das primeiras agências de autoatendimento, do sistema de Telecompras Bradesco e da criação do Fone Fácil
 
Anos de 1990
Lázaro Brandão assume a presidência do conselho de administração. Participou ativamente das negociações que levaram à compra do BCN, em 1997. De 1992 a 1995, presidiu a Febraban, entidade do setor
 
Anos 2000
Em 2003, Bradesco compra o espanhol BBV, ampliando a posição de maior banco privado do Brasil em relação ao concorrente Itaú. A posição só seria perdida quando ocorreu a fusão do Itaú com o Unibanco, logo após a crise financeira global em 2008. O próprio Lázaro Brandão tentara a fusão por antever as vantagens do movimento

Anos 2010
Em 2015, o Bradesco fechou a compra do britânico HSBC. A incorporação do banco adiou a sua saída do conselho, que só ocorreu em 2017. Ficou à frente das empresas controladoras do Bradesco até esta quarta (16), após 76 anos

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