Podemos pedir suspensão de Argentina do Mercosul se país resistir à abertura, diz Bolsonaro

Segundo presidente, Brasil pode negociar medida com Paraguai e Uruguai se eventual volta do kirchnerismo prejudicar bloco

Gustavo Uribe
Tóquio

Em seu último dia de viagem ao Japão, o presidente Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira (23) que a eleição da chapa de esquerda Alberto Fernández e Cristina Kirchner pode colocar em risco o Mercosul.

Em conversa com a imprensa, o presidente disse que caso a Argentina atrapalhe um movimento de abertura de mercado do bloco comercial, ele pode pedir uma reunião com Uruguai e Paraguai para tomar alguma medida.

"Nós sabemos que a volta da turma do Foro de São Paulo e da Cristina Kirchner para o governo argentino pode, sim, colocar em risco todo Mercosul. E se possivelmente colocando em risco todo o Mercosul, repito, possivelmente, você tem de ter uma alternativa no bolso", disse.

O presidente sinalizou a possibilidade de um pedido de suspensão da Argentina ao lembrar que medida semelhante foi adotada, em 2012, contra o Paraguai. Na época, a decisão foi tomada por conta da deposição do então presidente paraguaio Fernando Lugo, após rápido processo de impeachment.

Jair Bolsonaro conversa com a imprensa após a cerimônia de entronização do imperador Naruhito, no Palácio Imperial, em Tóquio - José Dias/Presidência da República

"O que nós queremos é que a Argentina continue na questão comercial, caso a oposição vença, da mesma forma do [presidente Mauricio] Macri. Caso contrário, podemos nos reunir com o Uruguai e o Paraguai", disse.

Segundo ele, o propósito do governo brasileiro não é o de facilitar que grupos de esquerda formem, de acordo com ele, "uma grande pátria bolivariana, como queriam os governantes daquela época". 

"A nossa ideia é sim, de fato, abrir o mercado e fazer comércio com o mundo todo", disse Bolsonaro.

Com a onda de protestos no Chile iniciada após a possibilidade de aumento da tarifa de transporte, o presidente tem acusado partidos de esquerda de tentarem desestabilizar governos de centro-direita para retornar ao poder.

Em encontro com empresários brasileiros, o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, que acompanha Bolsonaro na viagem ao Japão, acusou a "esquerda radical" de estar desesperada com "a perda do poder" na América do Sul.

"Neste momento na América do Sul, estamos vivendo um período difícil, em que a esquerda radical, desesperada com a perda do poder, vai jogar todas as suas fichas na mesa para conturbar a vida dos países sul-americanos e tentar retornar ao poder de qualquer maneira", criticou.

O presidente disse que o Brasil tem monitorado a situação de instabilidade e que pediu ao Ministério da Defesa que fique em alerta para, se for o caso, utilizar as Forças Armadas para evitar confrontos e tumultos no país.

“Conversei com o ministro de Defesa sobre a possibilidade de ter movimentos como tivemos no passado, parecidos como que está acontecendo no Chile”, afirmou.

Ele citou o artigo 142 da Constituição, segundo o qual as Forças Armadas têm como atribuições a defesa do país, a "garantia dos poderes constitucionais" e, se convocadas por um dos três poderes, a garantia "da lei e da ordem".

É com base nesse dispositivo que os militares foram chamados a participar de atividades de natureza policial nos últimos anos, como durante a intervenção decretada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) na segurança do Rio de Janeiro.

“Logicamente, essa conversa ele [ministro da Defesa] leva a seus comandantes. E a gente se prepara para usar o artigo 142, que é pela manutenção da lei e da ordem caso eles [Forças Armadas] venham a ser convocados por um dos três poderes”, disse.

Cristina Kirchner acena para apoiadores durante evento em Santa Rosa, Argentina - AFP

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