Setor de petróleo volta a contratar e já se prevê criação de 400 mil vagas

Diante de boom do petróleo, vazamento de óleo nas praias é alerta para que o país reforce a segurança

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

Depois de seis anos, o emprego no setor de petróleo voltou a subir em 2019, puxado principalmente pelas atividades de apoio à exploração. Com a demanda gerada pelas últimos leilões, o setor espera a criação de até 400 mil novas vagas nos próximos dois anos e já fala em gargalos de mão de obra, diante da fuga de profissionais durante a crise. 

Para os especialistas, no entanto, há um alerta nos negócios com petróleo, que interessam empresas locais e companhias globais, além de mobilizar estados e municípios que demandam os royalties. 

Plataforma de petróleo de Peregrino, no Rio de Janeiro, operada pela norueguesa Equinor
Plataforma de petróleo de Peregrino, no Rio de Janeiro, operada pela norueguesa Equinor - Ricardo Borges/Folhapress

A retomada ocorre no momento em que um vazamento de origem desconhecida contamina milhares de quilômetros da costa. O boom do pré-sal precisa ser acompanhado por medidas de prevenção e remediação, pois a atividade tende ser intensa nos próximos anos, o que e vai demandar atenção redobrada das autoridades.

Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) compilados pela LCA Consultores, o saldo do emprego nas atividades de exploração e apoio à exploração de petróleo no país é positivo em 306 vagas até setembro.

Mantido o ritmo, 2019 será o primeiro ano desde 2012 com aumento dos empregos no setor —nesse meio tempo, a crise da Petrobras e a suspensão dos leilões de novas áreas desmobilizaram a indústria, levando a enxugamento de vagas em praticamente todos os elos da cadeia.

O economista da LCA Rodrigo Nishida pondera que a indústria de exploração de petróleo não é intensiva em mão de obra o suficiente para impactar os elevados índices de desemprego no país, mas tem potencial de gerar vagas em outras indústrias fornecedoras de máquinas e equipamentos.

Além disso, segundo estatística do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o tema, paga salários sete vezes maiores do que a média nacional —em 2017, o rendimento médio no setor era de 21,3 salários mínimos.

Formado em manutenção industrial, Edmário Pio, 48, retrata a retomada do emprego na área. Ainda empregado de uma companhia de celulose, começou a se preparar em 2012 para entrar na indústria de petróleo, mas só conseguiu a vaga em maio deste ano.

“Queria muito vir para o mercado offshore (de exploração de petróleo no mar), mas infelizmente teve crise e as oportunidades foram fechadas”, conta Pio. Baiano, nascido próximo ao berço do petróleo brasileiro, ele é filho e irmão de petroleiros.

Hoje empregado em uma plataforma da norueguesa Equinor na Bacia de Campos, ele diz que teve um ganho de 50% no salário. Vive embarcado, em turnos de 14 dias longe da mulher e dos dois filhos, mas não vê problemas. “Como sempre quis isso, ainda estou meio deslumbrado.”

Segundo especialistas, a virada do emprego no setor reflete a entrada em operação de novas plataformas da Petrobras e a retomada dos leilões de áreas exploratórias nos últimos anos. 

“Quem comprou áreas exploratórias a partir de 2017 já está contratando pesquisa sísmica [espécie de ultrassonografia do subsolo] e perfuração de poços”, diz o secretário executivo do IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo), Antônio Guimarães.

Estudo feito pelo IBP em parceria com a consultoria EY vê potencial para a geração de até 400 mil empregos diretos e indiretos no setor até 2022. A projeção não considera o megaleilão da cessão onerosa, agendado para o próximo dia 6, mas com impactos no mercado só em meados da próxima década.

Trata, porém, das previsões de investimentos no estoque atual de áreas. Segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), entre 2019 e 2022, 12 novas plataformas iniciam operação no país. Cada uma demanda serviços como perfuração de poços e transporte de pessoas e insumos, por exemplo.

Uma delas é da Equinor, que começa a instalar este ano a quarta plataforma do campo de Peregrino, onde Pio trabalha. Com início de operação previsto para o fim de 2020, a unidade ampliará a capacidade de produção dos atuais 94 mil para 110 mil barris por dia.

Com operações também no pré-sal, a empresa iniciou um programa interno para formar gerentes de plataformas de produção —a companhia prevê instalar entre 2023 e 2024 a próxima unidade, desta vez no pré-sal da Bacia de Santos. 

Única mulher entre os postulantes a uma posição ainda predominantemente masculina, a engenheira Fernanda Menezes, 40, vê no processo chances de abrir novas oportunidades de carreira dentro da empresa. “É um processo de aprendizado importante”, diz.

Assim como seu colega Pio, Menezes também não vê grandes dificuldades na vida de embarcado. “Hoje, com a tecnologia, é muito mais fácil”, afirma ela, contando que duas vezes ao dia faz chamadas de vídeo para falar com o marido e o filho de cinco anos. 

A engenheira Fernanda Menezes; rotina na plataforma inclui chamada de vídeo para falar com marido e filho
A engenheira Fernanda Menezes; rotina na plataforma inclui chamada de vídeo para falar com marido e filho - Ricardo Borges/Folhapress

O setor vê riscos de gargalo na contratação de mão de obra em meados da próxima década, quando começam a entrar em operação as grandes plataformas dos últimos leilões. “Durante a crise, muita gente se afastou da indústria”, diz Guimarães, do IBP.

Em março, a ANP autorizou aportes de R$ 60 milhões com recursos repassados pelas petroleiras para custear bolsas de estudos durante cinco anos  —as empresas são obrigadas a transferir entre 0,5% e 1% da receita dos campos para desenvolvimento tecnológico.

Antes, essa verba era focada em instalações de pesquisa, mas com a necessidade de formação de mão de obra, passará a ser direcionada a qualificação. “Precisamos atrair novos profissionais”, diz o responsável pela área na agência, Alfredo Renault.

 

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