Sindicalista alemão defende regras rígidas para mineração em países subdesenvolvidos

Para Michael Vassiliadis, um mundo sem a exploração de minérios é uma ilusão

Ivan Martínez-Vargas
São Paulo

Presidente do sindicato dos trabalhadores das indústrias de mineração, química e energia da Alemanha, Michael Vassiliadis diz que um mundo sem extração de minérios é uma ilusão e critica a política de seu governo de comprar carvão de países como a Colômbia enquanto restringe a exploração em solo alemão.

O sindicalista critica a política ambiental de Bolsonaro e defende pressão para que o acordo entre União Europeia e Mercosul trate de direitos dos trabalhadores. Vassiliadis esteve no Brasil a convite da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung.

Michael Vassiliadis, presidente do sindicato dos trabalhadores das indústrias de mineração, química e energia da Alemanha, durante visita a São Paulo, em setembro de 2019
Michael Vassiliadis, presidente do sindicato dos trabalhadores das indústrias de mineração, química e energia da Alemanha, durante visita a São Paulo, em setembro de 2019 - Roberto Parizotti/Divulgação

Muito tem se falado do risco de recessão na Alemanha. Como os sindicatos têm visto isso no país? 
Nós dependemos muito das exportações e vemos uma turbulência. Há sinais de uma guerra comercial entre EUA e China, uma política errática do lado do Trump e isso repercute diretamente na Alemanha devido às nossas exportações.

No momento, temos os primeiros indícios de uma tempestade, mas ela não chegou. Eu ainda não estou nervoso, não vemos perda de empregos, mas sentimos os reflexos no mercado de ações. Já foram feitos os primeiros alertas a investidores.

Qual é o papel das centrais sindicais na Alemanha para mitigar esses riscos? 
Vamos tentar relançar um debate que já tivemos no passado, na negociação do acordo comercial com o Canadá. Queríamos elementos qualitativos para dar uma estrutura mais ordenada, mais civilizada, à globalização.

Um exemplo é o de que as convenções mais importantes da OIT fossem um padrão mínimo e fossem ratificadas por todos os estados canadenses. Um estado ratificou, teve resultado concreto. Na área social, trabalhista e de proteção ao meio ambiente.

Nós sempre vemos que o capitalismo primitivo tenta se impor. E aí a gente contrapõe e diz sim à liberalização do comércio, mas com elementos para criar um equilíbrio.

Vamos discutir elementos como esses no âmbito do acordo entre UE e Mercosul.

Temos visto uma forte reação internacional sobre o aumento do número de queimadas na Amazônia. Como as empresas alemãs presentes no Brasil podem e devem atuar em resposta ao tema?
O que está acontecendo é extremamente grave, é um problema gigantesco para o Brasil. Os incêndios são associados na Europa diretamente ao governo brasileiro e ao novo presidente.

As empresas alemãs estão atentas e têm sensibilidade para com a temática porque hoje em dia se comprometem a proteger o meio ambiente e têm de prestar contas. Elas já estão preocupadas porque o que está acontecendo no Brasil pode prejudicar a pegada de carbono delas ou a reputação social.

Pode ser que uma parte das reformas promovidas pelo governo as favoreça, mas na grande política, isso traz problemas.

Tivemos grandes acidentes recentes ligados à mineração no Brasil, como o de Mariana e Brumadinho. O setor, que o senhor representa na Alemanha, está em declínio por lá. Que lições o Brasil pode aprender com a Alemanha nesse sentido?
Acabar com a mineração no mundo todo é uma ilusão. A gente pode reduzir o consumo de recursos e deveríamos tentar consumir menos, mas no mundo todo a mineração está em expansão.

Na Alemanha, não temos mais a mineração do carvão mineral. Procuram transferir essas operações a outros países. Você não precisa acabar se usar tecnologia de ponta, mas em muitos países isso não acontece.

Nas décadas de 1950 e 1960 na Alemanha, tivemos acidentes terríveis, com muitos mortos. Depois, quando fechamos as minas, as taxas de acidentes de mineração subterrânea estava abaixo da média da indústria em geral. Conseguimos isso com investimentos.

Na Alemanha, compramos o carvão do qual ainda necessitamos da Rússia e da Colômbia. Por isso, fui para a Colômbia e confrontei os políticos alemães. A gente acabou com a mineração mais segura do mundo na Alemanha para comprar carvão de um país em que a mineração não é segura.

Isso que digo não vai contra os trabalhadores da Colômbia. O que eu espero é que o governo alemão faça pressão sobre o colombiano para que haja melhora das condições de trabalho.

É um contrassenso o que fazemos. Não queimamos um grama de carvão alemão.

No Brasil, as minas podem ser seguras, mas é preciso ter regras.

A robotização é um processo global que traz vantagens, mas também problemas sociais como o desemprego. Como devemos abordar esses riscos? 
Vemos mais uma onda de racionalização, mas, pela primeira vez, o local da racionalização pode mudar. O trabalho migra, vai para outros lugares. Pode ser que em vez de você trabalhar na empresa, você passe a trabalhar de casa. É uma pulverização do trabalho.

Temos ainda o risco da perda de empregos e da desvalorização [do trabalho]. Isso é um fenômeno mundial.

A questão é como que a gente mantém a soberania naquilo que é importante para mantermos a competitividade. Mas isso pressupõe que as partes conversem. 

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