Argentina busca consenso para compor novo ministério

Futuros presidente e vice tentam reunir grupo capaz de criar aliança nacional

Montevidéu

Já se aproxima o dia 10 de dezembro, quando se dará a posse do presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, mas a cúpula de seu governo continua envolta em mistério.

Uma fonte ligada ao comando da equipe de transição afirma que Fernández está armando sozinho o gabinete ministerial, mas a quantidade de reuniões que têm sido feitas, a portas fechadas, no apartamento da vice eleita, Cristina Kirchner, em Buenos Aires, são muitas. Nelas, Fernández entra mudo e sai calado, sem revelar nomes.

Uma coisa, porém, está clara. Assim como o atual presidente, Mauricio Macri, Fernández prefere trabalhar com uma equipe econômica, em vez de escolher um “superministro” —algo que gera calafrios nos argentinos, que ainda se lembram do ex-ministro da Economia Domingo Cavallo e o seu famoso “corralito”

 
O presidente eleito argentino, Alberto Fernández, que ainda monta sua equipe econômica - Pedro Pardo/AFP
O curralzinho, em português, impôs restrições a saques, em 2001, para evitar fuga de recursos, o que levou a uma rebelião popular com 33 mortos e desencadeou a queda do então presidente, Fernando de la Rúa.

Segundo fontes próximas a Fernández e sua equipe de transição, os nomes mais cotados para compor esse grupo seriam Matías Kulfas, que liderou a equipe econômica durante a campanha eleitoral e agora, na transição, Guillermo Nielsen e Miguel Pesce.

Kulfas, que foi gerente do banco central de 2012 a 2013, goza de muito respeito de Fernández e estaria entre assumir a pasta da Fazenda e a de Produção. Era próximo do ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010) e é a favor de uma intervenção moderada do Estado na economia.

É dele, por exemplo, a ideia de formar um grande acordo nacional entre empresários, produtores, distribuidores e sindicatos para que se crie um compromisso de não aumentar preços e conter a inflação por meio de congelamentos, enquanto as demais medidas, a serem definidas, não surtem efeitos.

Já Guillermo Nielsen, outro candidato a assumir a pasta da Fazenda, tem um perfil liberal e agrada mais aos integrantes do mercado financeiro. Porém, não é tão bem-visto por Cristina Kirchner 
—e aí estaria o principal desacordo com relação a seu nome. Nielsen já foi secretário de Finanças no Ministério da Economia, entre 2002 e 2005.

A indicação para o banco central é mais consensual. O principal candidato é Miguel Pesce, que foi vice-presidente da instituição de 2004 a 2015. Não é kirchnerista nem macrista, mas vinculado à UCR (União Cívica Radical), partido tradicional argentino que foi da base de apoio de Macri.

Fernández já afirmou também que o Ministério do Trabalho —que foi reduzido a uma secretaria no governo Macri e absorvido pelo Ministério da Produção— voltará a ter esse status e ganhará peso para dividir decisões com a equipe econômica.

O nome que tem mais apoio para ocupar o cargo é o advogado Claudio Moroni, que atuou em diferentes áreas nos governos kirchneristas, incluindo na Receita Pública e na Seguridade Social. A avaliação é que um dos seus principais atributos é ter um bom canal de diálogo com os sindicatos.

Numa divisão bem geral das tarefas, a equipe de transição de Fernández prevê que a pasta da Fazenda deverá centrar esforços, logo de início, na renegociação da dívida com o FMI (Fundo Monetário Internacional) —contando com palavras encorajadoras de sua nova diretora-gerente, Kristalina Georgieva. 

Apesar de seguir cobrando medidas de austeridade para o ajuste fiscal, ela já disse a Fernández que compreende a urgência de ações para conter a pobreza no país.

Já o banco central terá de reajustar a política de juros altos, que sofre críticas por ser um dos elementos que inibem a retomada do consumo.

A pasta de Produção ficará com a tarefa de reativar a economia, em especial os setores de construção e da indústria, que são geradores de empregos, mas estão estagnados. 

O jogo de xadrez para montar o ministério não parece tão grave quanto a situação argentina de um modo geral.

Fernández assume uma economia estancada, com uma inflação de mais de 55% ao ano, o desemprego em dois dígitos e 34% da população na pobreza. O risco-país está nas alturas, e os controles cambiais impedem a entrada de dólares no país (só podem ser comprados US$ 200 por mês).

Um ponto que vem incomodando os produtores agropecuários é que Fernández já disse que uma das medidas que pretende tomar é voltar a cobrar impostos das exportações de produtos do campo. 

“Eu adoraria não ter de cobrar isso, mas Macri me deixará cinco ou seis pontos de déficit. Para melhorar os ingressos, em parte tenho de fazer crescer a economia, mas, por outro lado, só posso fazer isso aumentando alguns impostos. É necessário um compromisso para o aporte de todos”, disse, em entrevista recente a um veículo local.

Essa política de compartilhar os problemas econômicos da sociedade se materializa em especial com o Conselho da Fome, já formado por Fernández e cuja proposta é reunir, em doações e compromissos de distintos setores da sociedade, mais de 40 bilhões de pesos para garantir uma ajuda imediata para as famílias mais carentes. 

Esse conselho está apadrinhado por figuras do showbiz, que ajudarão a fazer a campanhas na mídia, como o empresário e apresentador Marcelo Tinelli.

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