Descrição de chapéu Financial Times

Declínio da indústria automobilística gera desaceleração econômica global

Produção de carros encolheu pela primeira vez na década, respondendo por um quarto da queda do PIB

Delphine Strauss
Londres | Financial Times

Enquanto a economia global enfrenta sua desaceleração mais acentuada desde a crise financeira, um setor é ao mesmo tempo o culpado e a vítima.

A indústria automobilística afeta a saúde da economia global muito mais do que poderia sugerir sua participação na produção total: as montadoras têm longas cadeias de suprimentos para obter peças; elas também são grandes consumidoras de matérias-primas e produtos químicos, têxteis e eletrônicos; e sua sorte afeta milhões de empregos no setor de serviços em vendas, reparos e manutenção.

No ano passado, o setor encolheu pela primeira vez desde a crise global. O FMI acredita que a queda na produção foi responsável por mais de um quarto da desaceleração da economia global entre 2017 e 2018.

O setor também pode ser responsável por até um terço da desaceleração do crescimento do comércio global entre 2017 e 2018, informou o fundo no mês passado, depois de considerar os efeitos colaterais no comércio de peças de carros e outros bens intermediários.

"O setor automobilístico está pesando muito na atividade e no crescimento da manufatura", disse Gian Maria Milesi-Ferretti, vice-diretor do departamento de pesquisa do FMI, no mês passado.

A previsão do FMI de uma retomada modesta do comércio global em 2020 depende da recuperação do setor. Mas sua análise também ressaltou o potencial de mais danos caso o setor se torne a próxima vítima da crescente disputa comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia; a Casa Branca deve decidir até 13 de novembro se vai impor uma tarifa de 25% sobre as importações de carros.

 

Alguns executivos da indústria automobilística já culpam a política comercial dos EUA por grande parte dos problemas do setor, em particular por uma forte desaceleração do mercado chinês que havia impulsionado o crescimento das vendas globais.

"Esta guerra comercial está realmente influenciando o humor dos clientes e tem a chance de atrapalhar de fato a economia mundial", disse Herbert Diess, executivo-chefe da Volkswagen, no salão do automóvel de Frankfurt em setembro, acrescentando: "Por causa da guerra comercial, o mercado de automóveis [na China] está basicamente em recessão. (...) Isso é assustador para nós".

Mas se as montadoras sofrem como outras indústrias devido à incerteza geral sobre a política comercial elas ainda não se tornaram um alvo direto da política comercial dos EUA.

Em vez disso, o FMI disse que a desaceleração do setor se deve principalmente a mudanças políticas na China —incluindo a retirada de incentivos fiscais à propriedade de automóveis e a restrição de empréstimos entre pares— e à interrupção causada pela implantação de novos testes de emissões na Europa.

O FMI observou que, em muitos países, os consumidores estão adiando as compras porque os padrões estão em rápida mudança, enquanto aumentam as opções de compartilhamento de carros.

Enquanto isso, as vendas de carros na Índia caíram devido a problemas no setor bancário paralelo, que fornece cerca da metade do financiamento de carros novos. Ao mesmo tempo, a recessão na Turquia e a incerteza relacionada ao brexit no Reino Unido retiveram as vendas em outros grandes mercados.

 

No geral, as vendas de carros caíram cerca de 3% em 2018 e a produção cerca de 2,4%, depois de corrigidas as diferenças no preço médio dos carros entre os países, disse o FMI.

Uma pesquisa publicada pela Fitch Ratings no início deste ano argumentou que essa queda global nas vendas de carros poderia ter reduzido o PIB mundial em até 0,2% —significativamente mais que as estimativas do FMI—, depois de levar em consideração efeitos colaterais em outras indústrias e os efeitos de salários e lucros mais baixos nos gastos domésticos e empresariais.

"É aqui que a desaceleração global se concentra", disse Brian Coulton, economista-chefe da Fitch Ratings. "Esse foi o setor líder, e não apenas os danos colaterais mais amplos [da guerra comercial]. (...) Não há dúvida de que este é um dos principais fatores do ciclo global de fabricação."

As questões vão piorar se a indústria automobilística for vítima de tarifas retaliatórias. Com as cadeias de suprimentos cruzando fronteiras e processos de fabricação "just-in-time", o setor é especialmente vulnerável a novas barreiras comerciais.

Wilbur Ross, secretário de Comércio dos EUA, sugeriu em entrevista ao Financial Times no mês passado que Washington está inclinada a iniciar conversações com a UE, em vez de impor tarifas sobre importações de automóveis, quando terminar uma suspensão de seis meses neste mês.

No entanto, a ameaça de tarifas permanece viva. Uma análise publicada no início deste ano pelo Instituto Peterson de Economia Internacional concluiu que, se os EUA cumprirem a ameaça, impondo uma tarifa de 25% sobre as importações de automóveis de todos os países, a produção de automóveis dos EUA cairia 1,5%, com o setor reduzindo quase 2% de sua força de trabalho e 195 mil trabalhadores ficando desempregados nacionalmente em consequência do choque macroeconômico.

Se outros países retaliassem, a produção americana cairia 3%, com 624 mil empregos nos EUA perdidos e 5% da força de trabalho do setor deslocada.

"Se eles fizerem isso, sairemos todos perdendo", disse Oliver Zipse, executivo-chefe da BMW, em uma conferência no mês passado, acrescentando que as tarifas ameaçariam empregos e a produção em sua fábrica na Carolina do Sul.

Até agora, os EUA são o único grande mercado em que as vendas de carros permaneceram relativamente resilientes. Grande parte da desaceleração em outros lugares parece cíclica: o declínio ocorreu após vários anos de aumento nas vendas, e exatamente quando muitas montadoras foram obrigadas a fazer grandes investimentos para desenvolver veículos elétricos que, pelo menos em curto prazo, causarão prejuízo.

Mas a incerteza generalizada sobre o comércio —e as preocupações resultantes sobre o crescimento global— não ajudam.

Como apontou Holger Schmieding, economista da Berenberg, esse tipo de incerteza tende a assustar os consumidores com as compras caras: "Se você está indeciso (...) não precisa comprar o carro".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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