Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Economia menos dependente do Estado ajudou a derrubar juros, diz economista do Itaú

País passa por mudança estrutural com peso maior do setor privado

Érica Fraga Alexa Salomão
São Paulo

O crescimento de 2,3% esperado para o investimento no Brasil em 2019 virá exclusivamente do setor privado doméstico, cuja contribuição para a variação desse importante componente do PIB já é superior ao registrado antes da recessão mais recente.

Trata-se, no entanto, de ritmo lento de expansão da chamada formação bruta de capital fixo pois os outros dois motores –governo e mundo– estão parados. No caso do setor público, a contribuição tem sido, na verdade, negativa.

Mas isso não é ruim, diz Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, instituição responsável por essa análise. Pelo contrário: "É uma mudança bastante intensa na forma de funcionar da economia, que está se tornando menos dependente do Estado".

Segundo ele, a transformação estrutural em curso –com a contração dos gastos do governo– abriu caminho para a queda sem precedentes de juros e poderá levar o país a crescer mais rápido, se as reformas continuarem avançando.

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita - Zanone Fraissat/Folhapress

Vocês revisaram a projeção de crescimento para 2019 e 2020. Por quê? Os indicadores do terceiro trimestre estão mais positivos. A criação de emprego formal subiu e está coerente com um crescimento anualizado perto de 2%, ante um patamar anterior próximo de 1%.

O interessante é que é uma recuperação bem heterogênea em termos de setores e de regiões. Setores mais sensíveis a crédito com desempenho melhor do que setores mais sensíveis a renda. O crédito, especialmente para consumo, vem crescendo, e a renda vem crescendo mais lentamente, dado que o mercado de trabalho ainda está frágil.

Além disso, a atividade econômica em São Paulo e no Sul, que são regiões mais sensíveis à política monetária, respondendo bem. Já regiões onde a sensibilidade à política monetária é menor e a dependência do Estado é maior crescem mais lentamente.

Há uma mudança estrutural por trás disso? Sim. Um Estado em que os gastos não crescem mais como vinham crescendo e sem aquela política de crédito subsidiado do BNDES trouxe para baixo a taxa de juros neutra, que não acelera nem desacelera a inflação.

Então, é uma mudança bastante intensa na forma de funcionar da economia brasileira, que está se tornando menos dependente do Estado e mais sensível à política monetária.

O governo divulgou um gráfico separando o PIB privado do público. Ressaltar essa diferença faz sentido no momento? Sim. Temos uma análise que indica que o investimento não está crescendo mais fortemente porque o investimento do setor público tem se contraído, dada à crise fiscal, e por causa do mundo, com o preço de commodities andando de lado ou caindo. Mas o componente do setor privado doméstico do investimento privado vem bastante bem.

O investimento privado, em algum momento, poderá ser suficiente para acelerar o crescimento sem o público? Sim. O público é complicado porque há uma dívida muito elevada. As pessoas falam que é o teto [regra que limita o crescimento do gasto público] que atrapalha. Mas não é, é a dívida. A dívida bruta do governo em torno de 90% do PIB, pelo critério do FMI, é excessivamente elevada. É isso que segura o investimento público. Então, o impulso terá de vir do mundo ou mais do privado.

O Brasil tinha uma economia disfuncional, na qual o gasto público primário [que exclui pagamento de juros] do governo federal crescia 6% ao ano, além da inflação.

Antes do Real, ajustávamos com inflação. Entre o plano e 2007, a gente ajustava com dívida e imposto. A gente acabou com esses mecanismos. Depois, na época da nova matriz [alusão a políticas adotadas por Dilma Rousseff], a gente não ajustava. Não deu certo.

Após uma recessão profunda e um início lento de retomada, em que fase do ciclo econômico estamos? A gente está no fim do começo da recuperação. A recuperação inicial foram os primeiros anos, quando a gente estava crescendo algo como 1%, e a gente agora parece que vai crescer, no ano que vem, entre 2% e 2,5%. 

Um fator que pode ajudar o crescimento de 2020 --e não está plenamente incorporado na nossa projeção de alta do PIB de 2,2%– é o impacto do aumento da produção de petróleo. Em 2021, com o petróleo, e mais progresso no setor de infraestrutura, a gente pode vislumbrar um crescimento próximo a 3% ao ano.

Como há problemas institucionais que precisam ser resolvidos no caso da infraestrutura, o impacto maior do aumento do investimento nesse setor virá em 2021 e 2022.

Os últimos anos de crise deixarão prejuízos duradouros? O Brasil tem, há muito tempo, um desempenho econômico sofrível e perdido relevância no mundo. Embora essa [última] recessão tenha sido um dos piores momentos, a ruptura vem dos anos 1980.

Mas os momentos no tempo vão tendo impactos positivos também. Dizem que o Brasil não aproveitou o boom de commodities. Bom, acumulou as reservas que a gente tem.

Ninguém queria uma recessão tão longa e profunda, mas parece que, finalmente, o país vai caminhar para juros mais baixos de forma persistente.

O que era disfuncional no Brasil, antes de 2016, era a gente querer, como sociedade, juros baixos sem prestar atenção ao que a política fiscal estava fazendo na economia.

A crise na Argentina pode atrapalhar esse processo? Esse impacto já aconteceu em 2018. A gente acha que a recessão na Argentina em 2020 será mais amena.

E o xadrez político na relação do governo brasileiro com o futuro governo argentino? Acho que uma coisa é retórica de campanha, outra coisa é prática de governo. Acho que a tendência é que os dois governos se acomodem e o Mercosul prossiga.

Agora, o governo tem uma decisão, aparentemente firme, de abrir a economia. Talvez você possa negociar com os parceiros do Mercosul exceções ou uma trajetória mais gradual. Mas, caso os parceiros do Mercosul se recusem a reduzir a tarifa, talvez o Brasil tenha que repensar a relação.

Uma abertura rápida seria boa ou ruim? Esse é um dilema de todo governo reformista. A rápida tem a vantagem de que você fez e pronto, há menos tempo para pressões contrárias. A gradual dá mais tempo de os setores se adaptarem, mas dá mais tempo também de montarem resistência.

A impressão que tenho é que o governo espera que a economia ganhe força na segunda metade do mandato e, aí, sim, você consiga fazer a abertura de forma mais rápida.

O ritmo de avanço da agenda econômica tem sido satisfatório? Foi importantíssimo aprovar a reforma da Previdência. Se o governo conseguir aprovar a administrativa ou reformas que deem ao governo federal e aos estaduais e municipais maior flexibilidade gerencial até meados 2020, vai ser um avanço grande na direção de reduzir o risco fiscal.

Isso colocaria o Brasil no caminho de, daqui a alguns anos, recuperar o grau de investimento, que reduz o custo de capital para todo o mundo.

A turbulência política quase constante atrapalha a economia? Acho que vai atrapalhar se contaminar o funcionamento do Congresso. Temos uma vida política extremamente ruidosa. Mas a agenda legislativa vai avançando.

E o exterior? O risco de recessão caiu na medida em que EUA e China parecem caminhar para uma acomodação.

O mercado todo foi surpreendido com a velocidade de queda da inflação, dos juros, com esse ambiente novo? Quando o BC levou os juros a 6,5%, a mínima histórica, a gente acreditava que a economia ia retomar e que isso eventualmente levaria a inflação a voltar. Houve um equívoco coletivo. É evidente que caminhoneiros e a Argentina atrapalharam. Mas subestimamos o qualitativo da história.

O Itaú estava mais otimista do que o mercado com o PIB do segundo trimestre e acertou. Vocês recalibraram modelos de projeção? A gente passou a fazer uma projeção muito mais detalhada da produção industrial. Além disso, observamos de 20% a 30% de tudo o que acontece na economia dada a nossa fatia de mercado. Estamos conseguindo utilizar melhor esses dados usando técnicas mais modernas de análise de dados.

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