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Livro conta história do crescimento da XP e bastidores da venda ao Itaú

Lançamento ocorre às vésperas de a corretora lançar ações nos Estados Unidos em uma operação que pode avaliá-la em R$ 60 bilhões

São Paulo

O timing de publicação do livro "Na Raça "“ Como Guilherme Benchimol Criou a XP e Iniciou a Maior Revolução do Mercado Financeiro Brasileiro" não poderia ter sido mais preciso: a maior corretora independente do país está perto de sua estreia na Bolsa de Valores e com a expectativa de que possa ser avaliada em até US$ 15 bilhões (ou R$ 63 bilhões).

Confirmado, será o maior IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) de uma companhia brasileira no exterior, o que justifica o interesse de leitores e potenciais investidores nos 18 anos de história da companhia e na figura de Benchimol.

A XP será listada na Bolsa de tecnologia americana Nasdaq na segunda semana de dezembro --dessa vez parece que já não há mais espaço para um plano B.

Quando Guilherme Benchimol decidiu, em 2017, vender ao Itaú 49,9% da corretora que havia fundado em Porto Alegre 16 anos antes, trabalhava ao mesmo tempo no IPO. 

Era a primeira vez que o plano de lançar ações era tocado a sério, após pelo menos um balão de ensaio anterior que acabou sendo noticiado nos jornais. Mesmo assim, não ocorreu.

Guilherme Benchimol, na sede da XP, em São Paulo - Joel Silva-7.ago.2018/Folhapress

Os detalhes de como essa negociação se deu são o que de mais forte há no livro da jornalista Maria Luíza Filgueiras.

Roberto Setubal, que à época deixava a presidência do Itaú para assumir como copresidente do conselho, convence Benchimol de que não pretende comprar a XP apenas para se livrar de um concorrente que incomoda, a exemplo do que acabou ocorrendo quando o Bradesco comprou a independente Ágora. 

Setubal se propôs a ser um parceiro e que Itaú e XP fizessem "algo juntos". 

O relato dessa negociação é feito com base em entrevistas com Setubal e Candido Bracher, que assumiu a presidência do Itaú à época.

O livro tem ainda entrevistas com Benchimol, sua família, sócios e ex-sócios e advogados que ajudam a recontar de forma linear a vida do executivo e a história da XP.

Está lá a infância de pobre menino rico de Guilherme Benchimol, um filho de pais separados com uma vida relativamente espartana durante a semana para encontrar uma abundância financeira que incluía frequentar clubes e jogar tênis nos finais de semana em que estava com o pai. 

Se não podia esbanjar, Guilherme sempre teve acesso a figuras importantes do mercado e em um momento em que o coração financeiro do país ainda estava na zona sul do Rio de Janeiro. E isso ajudou a moldar a sua carreira.

Mas uma combinação de frustrações com a demissão de uma empresa de investimentos pela internet durante a bolha dos anos 2000, restrições financeiras e o que entendia como excesso de cobrança do pai levou Benchimol a sair do Rio.

É em Porto Alegre que começa o relato de como o negócio surgiu, atravessou crises, passou por uma série de transformações, incluindo a cópia do modelo da americana Charles Schwab, para fazer a revolução no mercado financeiro brasileiro que a XP inegavelmente fez.

Entre os episódios polêmicos narrados no livro, está a diluição da participação acionária de sua mulher, Ana Clara, que foi a terceira sócia da corretora. Após a licença-maternidade, ela não bateu as metas do ano e, portanto, teria a fatia no negócio revista, como ocorria todos os anos com todos os acionistas. Pouco depois, ela deixou a sociedade em definitivo.

A briga societária que levou à saída de Maisonnave da corretora, em 2014, também poderia ter mais detalhes. Sabe-se que ela foi conturbada, como amplamente noticiado à época, mas ao fim do capítulo prevalece a versão de que a diluição do executivo na sociedade era mesmo inevitável –Maisonnave não concedeu entrevista para o livro e há pouco espaço para o contraditório.

O executivo interferia diretamente ainda nas áreas que avaliava estar com desempenho aquém do desejado e censurava decisões privadas dos demais sócios, como compras e publicações em redes sociais que considerava ostentação.

Há espaço, porém, para boas histórias de bastidores. 

O ensaio da XP em se tornar um banco, para o qual agora tem licença do BC, começou anos atrás e chegou a virar notícia de que a corretora poderia comprar a operação de varejo do Citi. A intenção de compra, pelo que o livro demonstra, nunca foi realmente concreta, e o americano acabou indo para as mãos do Itaú.

Já um quadro do uruguaio Fernando Velázquez faz parte da narrativa do livro. Foi alvo de uma aposta entre Benchimol e o sócio Julio Capua com o investidor Martin Escobari, do fundo General Atlantic. Trocaria de mãos quando a XP desse um lucro bilionário. 

Em 2017, foi carregado pelos donos da XP rumo à sede da empresa após a venda de fatia da corretora ao Itaú que avaliou a empresa em R$ 12,5 bilhões. Já parece uma fração, se o IPO sair como planejado.

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