Descrição de chapéu Financial Times

Que cara terá o BCE de Christine Lagarde?

Sucessora de Mario Draghi terá que estabelecer as taxas de juros da zona do euro, controlar a oferta de euros e fiscalizar os maiores bancos do bloco de 19 países

Martin Arnold
Londres | Financial Times

Quando Mario Draghi foi perguntado na semana passada se a sua sucessora no BCE (Banco Central Europeu), Christine Lagarde, teria um mandato de oito anos tão dramático quanto o seu, ele respondeu que “isso é algo que eu não desejaria a pessoa alguma”. Mas quando Lagarde assumir a presidência da mais poderosa das instituições financeiras europeias, na sexta-feira, ela saberá que, embora Draghi receba crédito por ter resgatado o euro, o BCE ainda tem desafios sérios a enfrentar.

O posto traz consigo a responsabilidade por estabelecer as taxas de juros da zona do euro, controlar a oferta de euros e fiscalizar os maiores bancos do bloco de 19 países. Todas as palavras de Lagarde serão esquadrinhadas atentamente pelos investidores, em busca de pistas sobre a direção que os mercados financeiros tomarão.

Mas ela também está assumindo em meio a uma das mais ferozes disputas internas nas duas décadas de história da instituição, um confronto que obscureceu os dias finais de Draghi no cargo.

Draghi, 72, passou os últimos oito anos estendendo os limites de seus poderes, ao defender a moeda unificada europeia contra a pior crise financeira acontecida desde sua criação, duas décadas atrás. Ele deixa o posto sabendo que seu trabalho foi apenas parcialmente concluído.

Christine Lagarde, nova presidente do BCE (Banco Central Europeu) - Boris Roessler/AFP

O crescimento mundial está se desacelerando em um momento no qual os economistas acreditam que os banco centrais estão privados de poder de fogo para estimular as economias de seus países, e no qual as críticas às suas atitudes vêm se intensificando.

O FMI (Fundo Monetário Internacional) alertou este mês que a economia mundial estava em situação “precária” e reduziu sua projeção de crescimento à marca mais baixa desde a crise de 2008, culpando a guerra comercial entre Estados Unidos e China e a incerteza quanto ao brexit pela situação.

A economia da Alemanha, dependente de exportações, foi atingida de forma especialmente pesada, e o país que serve como propulsor do crescimento europeu está agora à beira de uma recessão,

Sob o comando de Draghi, o BCE ingressou no mundo distorcido das taxas de juro negativas, e ao mesmo tempo expandiu imensamente o seu balanço, por meio da aquisição de 2,6 trilhões de euros em títulos emitidos por governos e companhias.

Draghi muitas vezes menciona os 11 milhões de empregos criados na Europa nos últimos 10 anos como prova de que essas políticas estão funcionando, enquanto o BCE estima que, sem as suas ações, a economia da zona do euro seria cerca de 1% menor, hoje.

No entanto, os bancos e as seguradoras se queixam amargamente do impacto corrosivo das taxas de juros negativas sobre seus modelos de negócios. Outros se preocupam por o fluxo de dinheiro barato proveniente do BCE estar alimentando a criação de bolhas em mercados imobiliários e sustentando companhias zumbis, que de outra maneira desabariam.

“Existe um limite quanto à dimensão e a profundidade das ações que se pode tomar em território de juros negativos”, disse Lagarde, 63, em entrevista recente à rede de TV americana CBS. Diferentemente da maioria dos presidentes de bancos centrais, ela não é economista e nunca administrou política monetária.

Para compensar sua falta de conhecimento técnico, é provável que ela confie em Philip Lane, o estudioso ex-presidente do banco central irlandês que se tornou economista chefe do BCE há algumas semanas.

“Ela em alguma medida é o anti-Draghi”, disse Frederik Ducrozet, economista sênior da administradora de patrimônio Pictet Wealth Management. “Não é especialista em economia e se preocupa menos com o lado técnico do trabalho dos bancos centrais do que Draghi. Ela representa uma virada rumo a um BCE mais político”.

Depois de estudar Direito na Universidade de Paris 10, Lagarde fez mestrado em ciência política em Aix-la-Provence. Duas vezes rejeitada pela École Nacional d’Administration —o centro de treinamento parisiense da elite política francesa—, ela começou a trabalhar para o escritório de advocacia americano Baker McKenzie em 1981.

Lagarde subiu até a presidência do comitê executivo da empresa antes de aceitar um convite para se tornar ministra no governo francês do presidente Jacques Chirac, em 2005. O sucessor de Chirac, Nicolas Sarkozy, apontou Lagarde como primeira mulher a comandar o Ministério das Finanças da França.

Ela conquistou aplausos dos líderes ocidentais pela maneira calma e competente com que enfrentou a crise financeira. Isso fez de Lagarde uma escolha óbvia para substituir Dominique Strauss-Kahn, quando este foi forçado a deixar o comando do FMI por acuações de agressão sexual, em 2011.

No comando do Fundo, ela conquistou admiração por sua habilidade diplomática e capacidade de formar consensos, como aconteceu durante as negociações sobre o resgate à Grécia em 2012, quando sua intervenção ajudou a evitar a dissolução da zona do euro.

Os investidores acreditam que Lagarde representa continuidade com relação a Draghi nas áreas cruciais da política monetária, como demonstrou o salto positivo das bolsas de valores quando o nome dela foi anunciado.

Mas em outras áreas de atuação, a expectativa é de que ela seja muito diferente. A nova presidente do BCE é uma pessoa mais calorosa e uma personalidade mais expansiva do que Draghi. Em mais de uma ocasião, ela trancou as portas de uma sala de reunião até que as pessoas presentes —quase sempre uma maioria de homens— chegassem a uma decisão. Em uma entrevista em um “talk show” americano em 2009, ela colocou uma boina francesa e começou a contar piadas.

Depois que Berlim apontou a professora de economia Isabel Schnabel para o conselho executivo do BCE, na semana passada, Lagarde será uma das apenas duas mulheres que integram o organismo de 25 membros.

Ela certa vez brincou dizendo que a crise financeira poderia ter sido evitada se o banco Lehman Brothers fosse em lugar disso o banco Lehman Sisters, e é provável que use seu posto para tratar da questão da desigualdade entre os gêneros nos bancos centrais, no setor financeiro e na economia em geral.

Em depoimento ao Parlamento Europeu como parte de sua audiência de confirmação, em setembro, Lagarde também prometeu que faria do combate à mudança no clima uma prioridade “crítica” no BCE.

Ela disse aos parlamentares europeus que o banco central poderia “direcionar” suas compras de ativos a títulos ecológicos, quando as autoridades regulatórias chegarem a um acordo sobre uma estrutura unificada para um setor financeiro ecologicamente sustentável.

Uma potencial solução para alguns dos problemas que a nova líder do BCE precisará enfrentar seria que os governos do norte da Europa que têm posições orçamentárias fortes —especialmente o da Alemanha— rompam sua tradição de prudência fiscal e recorram à política fiscal para estimular a economia, algo que Lagarde costuma defender.

Draghi disse que os cortes de impostos do presidente americano Donald Trump são o principal motivo para que o crescimento e a inflação sejam mais altos nos Estados Unidos do que na zona do euro, e apelou aos líderes europeus para que façam mais.

Mas seus apelos não foram atendidos, e economistas antecipam que Lagarde venha a usar sua experiência e contatos políticos a fim de tentar pôr fim ao impasse.

“O maior desafio que Christine Lagarde terá de enfrentar será conseguir que Berlim adote um grande estímulo fiscal”, disse Melvyn Krauss, “fellow” sênior na Hoover Institution, da Universidade Stanford. “A recusa continuada da Alemanha foi o principal motivo para que Draghi fosse incapaz de resolver o problema europeu da inflação baixa demais, e pode vir a ser o motivo para que Lagarde encare o mesmo destino”.

Ela também deve embarcar na primeira revisão estratégica em 16 anos sobre os objetivos e os instrumentos de política monetária do BCE.

Uma questão especialmente contenciosa é decidir se haverá ou não mudança na meta básica de obter inflação inferior a 2% mas próxima a essa marca —algo que a instituição vem fracassando em realizar há anos, diante da estagnação dos preços ao consumidor em todo o mundo—, com o objetivo de reduzir a pressão sobre o banco central.

Quando foi criado, em 1998, o modelo do BCE era o Bundesbank, o banco central alemão, com foco estreito em conservar a inflação sob controle e preservar sua independência com relação aos governos. Isso incluía uma proibição rigorosa a qualquer forma de “financiamento monetário”, o que significa um banco central imprimir dinheiro para bancar gastos governamentais.

Desde que assumiu o comando do BCE, em 2011, Draghi aproximou o BCE do modelo do Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos, aumentando seu acervo de ferramentas e conferindo mais flexibilidade à sua missão de preservar a “estabilidade de preços”.

Quando os países do sul da Europa começaram a enfrentar uma disparada em seus custos de captação e o colapso de seus sistemas bancários, em 2012, Draghi prometeu “fazer o que quer que seja preciso”, uma postura que muita gente vê como responsável pela salvação do euro.

Lagarde estava na sala, naquele dia. Quando os parlamentares europeus perguntaram recentemente se ela compartilhava da determinação de Draghi de fazer tudo que fosse necessário para proteger o euro, ela respondeu que seu objetivo era evitar se ver colocada nessa situação.

“Espero jamais ter de declarar algo assim, porque isso significará que outras autoridades econômicas não fizeram o que deveriam”, ela disse. Como se para enfatizar que o BCE não tem como brandir uma varinha de condão e resgatar a zona do euro em todas as crises, ela acrescentou: “Não sou fada”.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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