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Romances no escritório ficam mais moralistas após revolução do MeToo

À medida que os RH das empresas lidam com casos de assédio, regras de engajamento sexual são reescritas

Londres e San Francisco

Ray Kroc e Robert Noyce foram titãs dos negócios americanos na metade do século 20. Um fez do McDonald’s um império do “fast food”, e o outro fundou a fabricante de chips Intel e se tornou conhecido como “o prefeito do Vale do Silício”.

Os dois encontraram amor no trabalho, Kroc com Joan Smith, mulher do detentor de uma franquia McDonald’s no Dakota do Sul, e Noyce com Ann Bower, sua vice-presidente de pessoal na Intel. Esses relacionamentos tiveram pouca influência sobre as carreiras de ambos.

As atitudes mudaram. No ano passado, Brian Krzanich, presidente-executivo da Intel, deixou a empresa depois de um relacionamento com uma colega. Esta semana, o presidente-executivo do McDonald’s, Steve Easterbrook, foi demitido por ter “violado as normas da empresa e demonstrado deficiência de julgamento” ao se envolver em um relacionamento com uma colega.

Logo do McDonald's em restaurante da rede em Los Angeles
Presidente-executivo do McDonald’s foi demitido por ter violado as normas da empresa e demonstrado deficiência de julgamento - Lucy Nicholson - 26.set.2019/Reuters

À medida que os conselhos e departamentos de recursos humanos das empresas lidam com a revolução do MeToo, as regras de engajamento sexual estão sendo reescritas, especialmente para as pessoas que têm posições no topo das hierarquias.

No ano passado, mais presidentes de empresas perderam seus postos por deslizes éticos do que por mau desempenho da parte de suas companhias, de acordo com a PwC –pela primeira vez desde que a companhia iniciou seu levantamento sobre as 2,5 mil maiores empresas mundiais, em 2000. Hoje ligações românticas inapropriadas são consideradas justa causa para demissão em muitas empresas.

Mas não existe um padrão uniforme para os relacionamentos românticos no trabalho. Enquanto a Intel agora adota uma linha dura, sua vizinha no Vale do Silício, a Alphabet, controladora do Google, adotou uma postura mais permissiva com relação às atividades amorosas de alguns de seus dirigentes.

David Drummond, vice-presidente jurídico da companhia de internet há 15 anos e um dos primeiros aliados de Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, continua a trabalhar na Alphabet a despeito de ter admitido um relacionamento com uma ex-colega, com quem ele teve um filho. Ele foi mencionado na quinta-feira pela Equilar como o vice-presidente jurídico mais bem pago dos Estados Unidos, com remuneração de US$ 47 milhões (R$ 195,52 milhões) no ano passado.

Brin deixou a mulher depois de um caso com uma empregada do Google. E Eric Schmidt, na época o presidente do conselho da empresa, também teve um relacionamento íntimo com uma colega.

Diante de protestos de empregados por supostos incidentes de assédio, o Google fez algumas concessões quanto à maneira pela qual se conduzirá em caso de futuras acusações. John Hennessy, ex-reitor da Universidade Stanford, assumiu a presidência do conselho em substituição a Schmidt, em 2018, e alguns meses atrás –depois que a empresa se tornou alvo de processos–, o conselho estabeleceu um comitê especial para investigar acusações de assédio.

A maioria das companhias que têm normas explícitas quanto a relacionamentos proíbe namoros entre chefes e seus subordinados. Um relacionamento com um chefe abre possibilidade de tratamento injustamente favorável quando o relacionamento estiver indo bem, e de sabotagem de carreira caso as coisas terminem em uma separação hostil.

“É algo que sempre deve ser proibido”, disse Peter Cappelli, professor da escola Wharton de administração de empresas. “É terrível, não há nada de bom em uma situação como essa”.

As consequências podem afetar terceiros. Em 2012, Brian Dunn, presidente-executivo da Best Buy, que tinha 51 nos, foi demitido depois de ver exposto um relacionamento com uma subordinada de 29 anos.

Uma revisão interna determinou que a percepção de favoritismo havia prejudicado a capacidade do chefe da empregada em questão para comandá-la, e prejudicado o moral na empresa.

“Não estamos falando de uma polícia sexual, mas será possível namorar alguém e ter autoridade sobre carreira dessa pessoa?”, disse Joan Williams, professora de direito na Universidade da Califórnia. “O empregador tem de se esforçar ao máximo para garantir que a carreira da mulher não seja prejudicada”.

Quando esse tipo de relacionamento é revelado, no entanto, a pessoa de posição hierárquica inferior, em muitos casos uma mulher, costuma ser transferida a outro departamento, o que prejudica sua carreira.

Jennifer Blakely, com quem Drummond se relacionou no Google, escreveu em um blog em agosto que havia sido forçada a se transferir do departamento legal para o de vendas, uma área na qual ela não tinha qualquer experiência, e que isso a levou deixar a empresa mais tarde. Drummond respondeu na época dizendo que havia “dois lados” na história, e que ele tinha “uma visão muito diferente sobre o acontecido”.

Moira Weigel, pesquisador da Universidade Harvard, disse que a abordagem correta era tomar por foco as disparidades de poder. “Se meu estagiário faz um comentário sexual inapropriado para mim, isso não me ameaça da mesma maneira que ameaçaria caso o comentário viesse de meu chefe. Tudo está relacionado a relações de poder e ao poder econômico”, ela disse.

Mas mesmo relacionamentos entre pessoas que ocupam posições semelhantes na hierarquia do trabalho podem sair do rumo. Google e Facebook permitem que seus empregados convidem colegas para sair – mas apenas uma vez, para evitar acusações de assédio.

No entanto, ainda restam muitos resultados felizes de relacionamentos iniciados no ambiente de trabalho. O advogado Thomas Kessler conheceu seu atual marido cinco anos atrás, no escritório de advocacia Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, de Nova York., “É bom ter um parceiro que compreenda sua vida profissional em um nível muito específico. A pessoa compreende a política do escritório. Quando seu parceiro conhece seu trabalho, é mais fácil que você se sinta apoiado”, ele disse.

A antropóloga Helen Fisher, do The Kinsey Institute, disse que essas pessoas têm agendas semelhantes, usam as mesmas roupas, trabalham no mesmo horário, passam pelos mesmos estresses e pressões, têm os mesmos objetivos... o escritório é como um tubo de ensaio para o desenvolvimento de romances”.
 
Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

Archie Hall, Nikou Asgari, Emma Jacobs e Richard Waters
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