3,8 milhões de brasileiros trabalhavam em casa em 2018, alta de 21%

Para pesquisador, aumento reflete redução do desalento, que leva mais gente para força de trabalho

São Paulo

Modelos de trabalho além do emprego formal tiveram forte alta no ano de 2018 no Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Mais gente foi trabalhar na rua como ambulante, foi dirigir para atender a demanda dos aplicativos de transportes, passou a tirar o rendimento de atividades em casa e começou um negócio próprio, mostram dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) que analisou outra caraterísticas do mercado de trabalho.

A atividade na própria residência já tinha crescido 16,2% entre 2016 e 2017 e avançou 21,1% em 2018, após quedas entre 2012 e 2014. No ano passado, 3,8 milhões de pessoas estavam trabalhando no mesmo endereço em que moram.

Daniel Duque, pesquisador da área de Economia Aplicada do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que esses dados refletem uma recuperação econômica muito baseada no mercado informal, com o aumento no número de vendedores ambulantes e pessoas trabalhando por meio de aplicativos. Esse quadro, afirma, continua neste ano.

“Isso se explica em parte pela tecnologia, mas também por um processo de entrada de mais gente na força de trabalho. Pessoas que saem do desalento não conseguem retornar ao mercado formal, pois ficaram muito tempo fora e sem qualificação, e agora buscam esses outros meios”, afirma.

O trabalho em casa atende justamente essa demanda. “Em 2017, por exemplo, vimos que muito desse movimento veio da alimentação para entrega, como a popular quentinha. Foi um trabalho que se expandiu muito e principalmente liberado por mulheres”, diz.

 

O trabalho por conta própria também cresceu e, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), retomou tendência de crescimento, após avanço entre 2012 e 2016. Esse grupo inclui tanto quem se tornou um empregador ao abrir uma empresa quanto quem virou pessoa jurídica para prestar serviços, por exemplo.

Em 2018, esses trabalhadores chegaram a 29% do total, e a alta, em relação a 2017, foi de 2,53%. Adriana Beringuy, pesquisadora do IBGE, diz que há um predomínio feminino nessas atividades. O setor que concentrou maior distribuição de pessoas ocupadas como empregador ou conta própria foi o comércio e reparação de veículos, em 42,7%, seguido por serviços (34,7%).

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em Carta de Conjuntura divulgada na semana passada, avaliava que o avanço no trabalho por conta própria, num primeiro momento, foi creditado a uma piora no cenário de emprego no país, mas que a persistência, apesar da melhora no modelo formal, pode estar indicando uma mudança estrutural das relações de trabalho.

Para os pesquisadores do Ipea, essa mudança poder estar ligada ao aumento na terceirização e à consolidação do que chamaram de “economia de aplicativos”, gerando novas possibilidades de geração de renda.

A pesquisa do IBGE também observou uma elevação no número de ocupados que trabalhavam em veículo, seja como motorista de aplicativo, taxista ou cobrador, chegando a 2,6 milhões em 2018, uma alta de 29,2% ante 2017.

O número de vendedores ambulantes, depois de um pico em 2016, chegou a 2,1 milhões em 2018, uma alta de 12,1%. A maior alta foi na região Sudeste, onde subiu 23,9%.

Outra alta importante registrada pelo IBGE foi no número de pessoas que trabalhavam em outro local, que tenha sido designado pelo empregador. O avanço foi de 10% em 2018. No caso dos que trabalhavam em estabelecimento de outro empreendimento, a alta foi de 38,3%. Para Adriana Beringuy, isso pode indicar um crescimento na terceirização nas empresas.

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