Alta da carne bovina puxa produção de frangos e porcos

Apesar de pesar no bolso do consumidor, retorno financeiro ainda não chegou ao produtor

Curitiba e Porto Alegre

A alta do preço da carne de boi nos últimos meses tem animado os produtores de outros tipos de proteína, como de suínos e aves.

De setembro a dezembro, os preços subiram 32% no caso da carne de porco e em quase 20% no frango, na região de São Paulo.

Porém, apesar de ter pesado no bolso de quem compra, os criadores pouco sentiram os ganhos na ponta. “O que a gente está sentindo agora é uma recuperação do poder de compra, ou seja, o mercado saiu da inércia, mas não que seja algo grande”, aponta Elias Zydek, diretor-executivo da Frimesa, cooperativa paranaense que atua no mercado de carne suína, leite e derivados.

Produção de frangos em São Miguel do Iguaçu (PR) - Paulo Lisboa/Folhapress

Ele ressalta que os ganhos também entraram como forma de compensar perdas anteriores, já que os preços desse tipo de produto pouco variaram nos últimos anos.

A dinâmica diferenciada de cada cadeia produtiva explica parte do fenômeno. Enquanto produtores de frangos e suínos estão, na maioria, organizados de forma integrada, o mercado independente domina a venda da carne bovina. 

“A cadeia do boi oscila muito mais porque quem faz o mercado é o próprio produtor. Ele é quem oferta”, explica Zydek.

O criador de frangos em São Miguel do Iguaçu, oeste do Paraná, Diogo Sezar de Mattia, comercializa a produção com uma cooperativa da região.

Ele suporta as variações de preços em tempos de alta, mas também tem os recebimentos garantidos em épocas de crise.

“A gente sente menos, principalmente no gasto com insumos. Quem trabalha no particular sente mais esse peso. Mas, ao mesmo tempo, quando aumenta o preço para o consumidor, demoramos mais para sentir o retorno”, diz.

A maior possibilidade de estocagem do boi em relação a aves e porcos também faz com que o resultado chegue mais tarde para estes produtores, afirma Zydek.

Ou seja, enquanto o gado pode permanecer no pasto por mais tempo, os outros animais têm prazo restrito para o abate. Assim, suinocultores e avicultores não podem esperar para colocar a carne no mercado.

De acordo com Domingos Martins, presidente da Sindiavipar (Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Paraná), outro fator comum para o aumento de preços nos dois ramos é a proximidade das festas de final de ano e a injeção do 13º salário no orçamento das famílias.

“Há uma demanda natural nessa época do ano. Uma premissa do mercado é que a primeira tendência, neste caso, é de melhorar a mesa”, diz.

O aumento das exportações em todos os ramos, puxado principalmente pela China, que sofre com os impactos da peste suína africana, e pela alta do dólar, também anima o mercado. Em contrapartida, esses fatores devem pesar mais ainda para o brasileiro.

O embarque de produtos avícolas nacionais cresceu 18% entre janeiro e outubro. Além disso, em setembro, mais quatro frigoríficos de aviários do Paraná foram habilitados para comercialização com a China, tornando o estado, sozinho, responsável por mais da metade da exportação desse tipo de carne para o país.

Já no mercado de suínos, a quantidade total vendida pelo Brasil para o mercado chinês aumentou em 42,5% e o faturamento em quase 64%, no acumulado do ano.

Santa Catarina é o destaque, respondendo por 57% de toda a exportação nacional do ramo. Apenas China e Hong Kong arcaram com 60% de todo o faturamento do embarque de porcos catarinenses.

No início de novembro, mais sete frigoríficos do estado foram habilitados para exportar subprodutos de carne suína para o país asiático. Estima-se que os produtores catarinenses aumentem o faturamento em US$ 15 milhões (cerca de R$ 60 milhões) por mês.

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