Com crescimento de 9,5%, vendas de Natal são as melhores desde 2014

Roupas, brinquedos e cosméticos lideraram as compras em shoppings

São Paulo

As vendas de Natal tiveram alta acima da esperada pelo varejo neste ano, segundo estimativas e balanços de entidades do setor. Impulsionadas pela liberação do FGTS e queda no desemprego, as vendas de presentes, especialmente os pagos à vista, foram muito melhores que as de 2018.

Como o comércio acumulou muitos anos ruins, a base de comparação ainda é baixa e o segmento ainda está cauteloso em suas previsões para o período.

Os shoppings, que já consolidaram boa parte dos dados, sinalizam uma alta mais expressiva, com aumento de 9,5% no faturamento nominal neste ano, segundo levantamento da Alshop (Associação dos Lojistas de Shopping). A entidade consolida resultados de 400 empresas que representam 30 mil pontos de venda. É o melhor resultado desde 2014.

As categorias de roupas, brinquedos e cosméticos lideraram as compras durante o período natalino, de acordo com a associação. O resultado superou as expectativas da entidade, que projetava 6,5% de alta.

“Esperamos ter de 26 de dezembro a 31 de dezembro um movimento bom também, é histórico. As pessoas que receberam presentes farão troca. Na parte de vestuário, muita roupa branca sai devido ao Réveillon”, disse Nabil Sahyoun, presidente da associação.

Para ele, o pagamento do 13º salário, a liberação do PIS-Pasep e do FGTS e a queda na taxa básica de juros (hoje em 4,5% ao ano) e do desemprego (atualmente em 11,6%) contribuíram para a alta do setor.

“O pagamento do 13º teve uma injeção de R$ 214,6 bilhões na economia, segundo o Dieese, a taxa Selic é a menor desde 1999 e a inflação está controlada. São fatores essenciais”, disse.

 

O faturamento das lojas na região da tradicional rua 25 de Março, no centro de São Paulo, também ficou acima do projetado. Foi registrada uma alta de 4% nas vendas entre outubro e dezembro na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a Univinco (União dos Lojistas). 

A projeção era de um total de 3% de aumento.

Como as lojas da região abastecem comércios em todo país, o resultado é um indicativo para o desempenho do pequeno varejo em todo o Sudeste e em parte da região Sul. 

Brinquedos e enfeites de Natal foram as categorias de produtos mais buscadas pelos consumidores, segundo Claudia Hurias, assessora executiva da entidade.

"Como esperávamos 3% de crescimento, estamos satisfeitos com o resultado. O ano passado foi bem ruim e muitos enfeites deste ano eram estoques acumulados em 2018. De maneira geral, 2019 foi melhor", afirma ela.

No estado de São Paulo, a FecomercioSP (federação do comércio) ainda não tem os dados de receita das vendas de fim de ano, mas afirma que a alta deverá ser ao menos 7% em dezembro, na comparação com o mesmo mês de 2018.

Confirmado esse resultado, São Paulo teria o melhor Natal desde 2008, quando a entidade começou a consolidar resultados do comércio estadual.

"Tivemos uma injeção de dinheiro com o 13º salário, o FGTS, o PIS e aposentadorias antecipadas neste ano, além do aumento da massa de rendimentos no geral. Historicamente, 20% do 13º é usado para consumo", diz Altamiro Carvalho, assessor econômico da entidade.

"Tivemos uma alta mais fraca, de 4%, no faturamento do varejo paulista no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado. Nos trimestres seguintes, o crescimento foi de 7%, 6% e, de outubro a dezembro, deverá ficar entre os mesmos 6% e 7%", afirma ele.

Para Carvalho, a redução da taxa de desemprego e a queda da Selic já têm impactos na oferta de crédito, que cresceu 13% em 12 meses até outubro deste ano.

"Vemos o resultado disso no desempenho das vendas de bens duráveis, como eletrodomésticos, que será de cerca de 8% neste ano, contra 6% no comércio em geral", afirma. O resultado, segundo ele, é influenciado pelo bom desempenho das vendas da Black Friday.

As projeções da ACSP (associação comercial) vão na mesma direção. Na média, indicam um crescimento de 6,6% no número de consultas feitas por lojistas à base de dados do birô de crédito Boa Vista.

A alta, contudo, foi concentrada nas compras à vista, com subida de 13,1%. As vendas a prazo foram estáveis. Os dados ainda são preliminares.

"Houve uma alta surpreendente do uso de cheques, por exemplo. Os segmentos de vestuário, cosméticos, brinquedos e calçados lideraram o movimento do mês", diz Emílio Alfieri, economista da entidade.

Para ele, a liberação dos saques de contas do FGTS e o pagamento do 13º do Bolsa Família, associados à redução no número de desocupados, estimulou a compra de presentes.

"Vimos muita compra de presentes e menos compras de bens duráveis neste Natal. Se o desemprego continuar em queda, a oferta de crédito deverá aumentar em 2020 e aí teremos mais compras a prazo", afirma.

A expectativa é que o faturamento do varejo paulistano suba 4% no ano que vem se o PIB crescer 2%, segundo Alfieri.

"O crescimento, porém, ocorre sobre uma base baixa, e 2020 não deve ser muito surpreendente. Precisamos de geração de emprego formal para viabilizar a venda com base no crédito", afirma.

No total do ano, os shoppings também saíram na frente e já consolidaram dados de vendas.

O faturamento do setor do varejo em shopping registrou alta de 7,5%, com receita de R$ 168,2 bilhões. A pesquisa, feita pela associação e pelo Ibope, levou em conta dados dos 762 centros comerciais do país. A projeção de crescimento da Alshop para 2019 era de 5%. 

“Sem dúvida tínhamos uma demanda reprimida, mas por outro lado, crescer 7,5% no ano é algo bom. Um dado fundamental para 2020 é que, a maioria dos empresários com os quais conversamos diz que vai investir na expansão de suas lojas”, afirmou  Nabil Sahyoun, da Alshop.

A pesquisa também verificou o resultado das vendas via comércio eletrônico, que cresceram 15% em 2019 até 20 de dezembro.

O faturamento do ecommerce de grandes redes, que têm lojas em shoppings, segundo a associação, já chegou a R$ 61,2 bilhões no acumulado desde janeiro. Disso, cerca de R$ 11 bilhões foram movimentados nas vendas de Natal. 

Os empregos temporários no segmento somaram neste ano 103 mil postos de trabalho, 40% a mais que em 2018. Hoje, o setor emprega 1,3 milhão de trabalhdores.

“Historicamente, 20% desses postos de trabalho se transformam em permanentes, para expansão de novas lojas ou substituição de mão de obra”, afirmou Sahyoun. 

Segundo o levantamento encomendado pela Alshop ao Ibope, 12 centros comerciais foram inaugurados em 2019. Desses, nove estão em cidades do interior e cinco deles na região Sudeste.

“A tendência é de interiorização, dado que as principais capitais estão saturadas. Hoje, 55% dos shoppings estão em cidades do interior”, afirmou Luís Augusto da Silva, diretor da Alshop. 

A expectativa da entidade é que, com a projeção de crescimento do PIB acima de 2%, entre 13 e 20 centros comerciais sejam abertos em 2020.

“Hoje, há 31 shoppings em construção ou previsão abertura nos próximos anos, dos quais 20 serão no interior. Com o crescimento da economia, a tendência é de aceleração dos investimentos”, disse Sahyoun. 

A entidade afirma que a aprovação da reforma tributária pode destravar investimentos e potencializar o crescimento do varejo.

“A reforma ideal teria redução de imposto, mas isso dificilmente vai acontecer. Para nós, empresários, a desburocratização e a união de vários impostos em um único já seria um fator muito importante”, afirmou Nabil Sahyoun.

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