Descrição de chapéu Financial Times

De operação comercial a monitoramento de fronteira, mercado de drones vira um grande negócio

Inicialmente usado para fins militares, drones dinamizaram seus modelos para diversos setores

Patrick McGee
San Francisco | Financial Times

Empresas dos Estados Unidos estão empregando aeronaves de pilotagem remota (drones) em números sem precedentes, à medida que seus usos avançam para além da fotografia aérea rumo ao mapeamento, coleta de dados e até rastreamento de suspeitos de crimes.

Com milhares de desenvolvedores agora criando apps para drones, em uma plataforma comum, a Administração Federal da Aviação (FAA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos admitiu que subestimou severamente o número de drones comerciais em serviço. A organização antecipa agora que haja mais de 450 mil deles nos céus este ano, um total originalmente previsto para 2022.

Enquanto isso, analistas do banco Barclays estimam que o mercado mundial de drones comerciais crescerá em 1.000% ante os US$ 4 bilhões (R$ 16,7 bilhões) do ano passado, para US$ 40 bilhões (R$ 167,1 bilhões) dentro de cinco anos. Eles acreditam que o uso de drones resultará em uma economia de custos da ordem de US$ 100 bilhões (R$ 417,7 bilhões).

A ascensão do setor de drones comerciais surge no momento em que o mercado ao consumidor começa a parecer saturado. Tendo ganhado proeminência na década de 1980, inicialmente como tecnologia militar, os drones passaram por uma miniaturização na década de 2000, o que resultou em um mercado vibrante nos segmentos recreativo e de fotografia.

Drone sobrevoa a região de Gravesend, no Reino Unido - Peter Nicholls - 26.set.18/Reuters

Agora, graças ao software e às grandes melhoras nas câmeras, sensores e tecnologia de processamento, a FAA diz que os drones comerciais parecem estar em “um ponto de inflexão, e à beira de demonstrar um forte estágio de crescimento”, que continuará “a se acelerar nos próximos anos”.

No setor de telecomunicações, onde trabalhadores precisam galgar postes traiçoeiros para conduzir inspeções, os drones estão sendo usados como recurso para realizar as observações necessárias do ar.

Em companhias petroleiras e de gás natural, as aeronaves sem piloto estão sendo usadas para conduzir as inspeções mensais de oleodutos, em substituição ao uso de helicópteros, cujas tripulações custam US$ 2,5 mil (R$ 10,4 mil) por hora de voo.

Em outros mercados, drones estão gerando dados sobre o clima, monitorando fronteiras, ajudando corpos de bombeiros a avaliar danos e auxiliando equipes táticas da polícia a rastrear suspeitos.

Para a principal fabricante mundial de drones comerciais, a DJI, sediada em Shenzhen, com uma participação estimada em 70% do mercado mundial, o mercado comercial está na mira dede 2017.

Primordialmente uma fabricante de drones recreativos, suas tecnologias foram aproveitadas inesperadamente por soldados americanos, no final da década de 2000, antes que o uso de seus produtos fosse proibido devido a preocupações quanto à segurança cibernética, o que forçou a empresa a mudar o foco de sua estratégia.

Mas o rápido crescimento do mercado e a multidão de novas aplicações apanharam de surpresa até mesmo a líder do mercado. As compras comerciais trouxeram expansão de 80% aos negócios da DJI no ano passado, mas a companhia nem sempre tinha em vigor os padrões e estruturas necessários a servir aos propósitos delicados de agências governamentais como o Departamento do Interior americano, que opera a maior frota de drones do país e usa produtos da DJI.

“Estamos encontrando um problema: o produto não foi projetado para atender às necessidades deles”, disse Mario Rebello, gerente regional da DJI na América do Norte, em um evento chamado DJI Airworks, em setembro. “Estamos sendo julgados pelas autoridades decisórias, pelos profissionais e pelos legisladores e outros, que desejam um produto que satisfaça aos seus padrões. Mas somos uma companhia que fabrica produtos de consumo”.

Outras empresas, porém, chegaram ao mercado de drones comerciais quase que por acidente, enquanto isso, e estão se adaptando a novas aplicações empresariais que os fabricantes nem consideraram, nem previram.

“É muito difícil prever as variedades de uso de um produto novo e revolucionário”, disse Spencer Gore, presidente-executivo da Impossible Aerospace, uma fabricante de drones nos Estados Unidos.

Ele diz que quando os drones recreativos começaram a conquistar o mercado, por volta de 2011, a suposição geral era a de que companhias como a Amazon os usariam para entregar produtos nas casas dos compradores. O potencial de que isso se concretizasse foi absurdamente superestimado —enquanto outras aplicações comerciais das aeronaves surgiram do nada.

Para Adam Kaplan, o surgimento de um mercado para os drones na segurança pública mudou a forma de todo o seu negócio. Em 2017, ele criou uma companhia de jogos chamada EdgyBees, que usava realidade aumentada para que pilotos de drones pudessem, no mundo real, conduzi-los por universo como o de Star Wars, visto em um iPad.

Depois que os serviços de emergência o consultaram, Kaplan empregou a mesma tecnologia para criar recursos de mapeamento aéreo que já são comparáveis ao Waze, o app de tráfego controlado pelo Google, o que oferece às autoridades todo um novo campo de informações.

“Ninguém acreditava que aquilo realmente fosse um mercado —mas um bando de policiais e bombeiros foram à Best Buy e compraram drones”, disse Kaplan. “Condados como o de Los Angeles [perceberam] que em lugar de adquirir um helicóptero de US$ 1 milhão (R$ 4,1 milhões), podiam comprar um drone de US$ 1 mil (R$ 4,1 mil), ou de US$ 25 mil (R$ 104,4 mil). E isso está evoluindo.

Da mesma forma, os três fundadores sul-africanos da DroneDeploy dizem que seus planos de negócios tiveram de ser adaptados às mudanças do mercado. Em 2011, o objetivo deles era usar fotos aéreas para apanhar caçadores clandestinos no Kruger Park, um parque nacional sul-africano com área de 21 mil quilômetros quadrados.

“O que percebemos foi que aquele era um problema incrivelmente difícil, por toda espécie de razão”, disse Mike Winn, o presidente-executivo da companhia. “Identificar que há uma pessoa lá não resolve o problema –antes de qualquer intervenção é preciso atravessar a mata e chegar ao local”.

Em lugar disso, eles transferiram seu foco para o desenvolvimento de software para criar mapas bidimensionais e tridimensionais de terrenos simples, áreas em construção, turbinas e linhas de energia.

Entre seus clientes está a construtora Brasfield & Gorrie, que vem usando drones desde 2015 em seus esforços de levantamento aéreo de locais de construção.

“É um processo que requer muita mão de obra, e em que os agrimensores precisam desembarcar dos veículos em intervalos de algumas centenas de metros para registrar uma posição com seus instrumentos”, disse Hunter Cole, engenheiro da Brasfield. “O processo podia durar dias ou até semanas... Agora requer 20 minutos de voo e um pequeno prazo para processamento mais tarde. Em lugar de dias ou semanas, o processo agora requer horas”.

Um catalisador para o amadurecimento do mercado é que mais de oito mil desenvolvedores convergiram em uma única plataforma de fonte aberta —o equivalente a um “Android para drones”—, para o desenvolvimento de software. Quando a Auterion, uma empresa iniciante suíço-americana, lançou a plataforma, dois anos atrás, isso permitiu que companhias como Amazon, General Electric e Lilum, uma startup que trabalha com táxis aéreos, confiassem em padrões comuns. Isso se refletiu em todo o setor, acelerando o desenvolvimento e facilitando para os usuários controlar múltiplos drones com um só controlador.

“Formamos uma parceria com a Auterion porque eles resolvem muitas partes de nosso problema de software”, disse Gore, da Impossible Aerospace. “Eles são os especialistas. Não faz sentido reinventar a roda”.

Nem todo mundo está satisfeito com o rápido crescimento. A PwC aponta que há inúmeras preocupações da parte do público, entre as quais privacidade, uso indevido, crime e acidentes. Outros consideram que a fiscalização talvez seja excessiva: quando a FAA multou um fotógrafo em US$ 10 mil (R$ 41,7 mil) por um voo “irresponsável”, em, 2012, isso gerou uma batalha judicial que se arrasta há anos.

Além disso, a DJI passou a ser alvo do interesse de Washington por suas supostas conexões com o governo chinês, o que levou algumas companhias americanas a tentar ocupar o vazio. Entre elas está a Skydio, uma fabricante de drones sediada na Califórnia cujo foco é o desenvolvimento de aparelhos autônomos para vigilância.

Ainda assim, Romeo Durscher, diretor de integração com a segurança pública na DJI, vê muito potencial de crescimento. Ele aponta que existem 40 mil departamentos de polícia nos Estados Unidos – e que apenas 500 deles contam com helicópteros ou aviões de asas fixas. “Os outros 39,5 mil não têm coisa alguma”, ele diz. “Existe um mercado imenso à espera”.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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