Desconcentração do investimento impulsiona PIB de municípios fora do eixo Rio-SP

Cidades no Norte, Nordeste e Sul se destacam, mas capitais de SP e RJ ainda concentram 15% do crescimento nacional

Rio de Janeiro

São Paulo e Rio de Janeiro vêm diminuindo sua participação no PIB (medida da produção de bens e serviços no país em um determinado período) do Brasil em nível municipal, o que tem contribuído para que localidades em outras regiões do país ganhem destaque.

Em divulgação feita nesta sexta-feira (13), o IBGE mostrou que municípios do Norte e Nordeste registraram ganhos significativos em 2017, na contramão das duas cidades com maior representatividade no PIB do país.

Tanto na comparação de 2016 a 2017 como na análise que vem sendo feita desde 2002, as capitais paulista e carioca tiveram as maiores quedas de participação entre os municípios brasileiros, o que foi destacado pelo IBGE nesta sexta. "Isso aponta para a tendência de desconcentração do PIB no nível municipal". 

Em São Paulo, a queda de participação ocorreu em função de atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados, que apresentaram redução das operações de créditos e das taxas de juros em 2017. 

Parque eólico no município de Simões, no Piauí, cujo PIB aumentou em 2017 pelos investimentos no setor
Parque eólico no município de Simões, no Piauí, cujo PIB aumentou em 2017 pelos investimentos no setor - Paulo Muzzolon/Folhapress

Desde 2012, o município paulista —que sozinho ainda representa 10,6% do PIB nacional— perdeu 2,1 pontos percentuais de participação na atividade econômica nacional.

Rio de Janeiro, por sua vez, vem diminuindo o peso na indústria do país, o que ocasionou perda de 1,2 ponto percentual. De 2016 a 2017, a queda se concentrou principalmente no setor de construção. A capital fluminense representa 5,1% do PIB de 2017.

"O Rio de Janeiro vem de fragilidade econômica, recentemente foi um dos estados mais afetados pela crise e o que menos cresceu. Tudo isso ajudou na desconcentração", apontou Juliana Trece, pesquisadora do FGV-Ibre.

"Quando a gente observa na série como um todo, vemos que é um movimento natural. De 2002 a 2017, o Sudeste perdeu 4,4% de participação, é bastante coisa. E assim outros locais vão ganhando espaço, como Centro-Oeste e Nordeste, apesar de ainda o Sudeste ser muito representativo", acrescentou a pesquisadora.

Em 2017, Parauapebas (PA) e Goiana (PE) ficaram entre as cinco com maior ganho em valores absolutos na participação do PIB nacional, com crescimento de 0,1 ponto percentual cada. 

Parauapebas teve o aumento justificado por indústrias extrativas; no caso, a extração de minério de ferro, com produção em 2017 alavancada pelo início de operações de uma nova mina. A Vale possui tem operações na cidade há mais de 30 anos e, no Pará, também produz minério em Canaã dos Carajás. 

Já Goiana viu como determinante o aumento da produção da indústria automobilística. A cidade abriga a fábrica da Jeep e Fiat, inaugurada em 2014, onde são produzidos os SUVs Jeep Renegade e Jeep Compass e a picape Fiat Toro. No ano passado, a empresa anunciou investimentos de R$ 7,5 bilhões na região, que gerariam 9.000 empregos.

"Ao analisar a hierarquia urbana, fica mais clara a tendência de desconcentração do PIB. As metrópoles perderam participação, saindo de 44,5% no PIB nacional para 43,9% de 2016 para 2017. Assim, municípios de menor hierarquia experimentaram crescimento acentuado", explicou o IBGE.

Outros três municípios do Nordeste ainda ficaram entre aqueles com maior avanço entre 2016 e 2017, segundo o IBGE. Curral Novo do Piauí (PI), Bodó (RN) e Simões (PI) tiveram ganhos de resultado atrelados ao desempenho da indústria de geração de energia eólica. As três cidades, juntas, possuem pouco mais de 20 mil habitantes.

Simões é conhecida na região como "a cidade dos ventos".

No ano passado, a Votorantim Energia inaugurou um complexo com investimentos de R$ 1,1 bilhão, com sete parques eólicos com 98 aerogeradores, na região da Serra do Inácio, a 466 km de Teresina, capital do estado. O empreendimento gerou cerca de mil empregos na região, segundo a empresa.

"Quando a cidade é muito pequena e recebe muito investimento, como é o caso das citadas, faz com que o PIB avance muito, pois traz mais pessoas, movimenta comércio, serviços e toda a economia local, toda infraestrutura para poder dar um suporte para receber esses novos investimentos", explicou Juliana Trece, pesquisadora do FGV Ibre. 

Na análise de evolução de participação do PIB ao longo da série 2002-2017, o maior ganho foi em Osasco, vizinho a São Paulo, com aumento de 0,3 ponto percentual. A cidade se destacou pelas atividades no comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas, além de atividades financeiras, seguros e serviços relacionados.

Em 2017, de acordo com o IBGE, a densidade econômica do país era de R$ 774 mil/km². E Osasco era o município com a maior densidade, gerando R$ 1 bilhão por quilômetro quadrado.

Ainda se destacaram Itajaí (SC), que registrou ganho de 0,2 ponto percentual também em função do comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas, e Alto Horizonte (GO), a 270 km de Brasília, com o maior ganho de posição no período devido a uma mineradora que extrai cobre e ouro no local desde 2007.

O município de Paulínia, interior de São Paulo, com população de 102.499 pessoas, foi o que apresentou maior PIB per capita: R$ 344.847,17. No mesmo período, o PIB per capita do país foi de R$ 31.833,50.

De acordo com a última revisão do IBGE, divulgada no último mês de novembro, o PIB do Brasil alcançou R$ 6,583 trilhões em 2017, uma expansão de 1,3%. O dado divulgado anteriormente apresentava um crescimento da economia brasileira de 1,1% naquele ano.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.