Descrição de chapéu The New York Times

Como uma empresa de lojas de conveniência contra-atacou um franqueado que decidiu tirar folga

Companhia que controla a 7-Eleven cancelou franquia depois que dono decidiu fechar loja durante o Ano-Novo

Higashi-Osaka (Japão) | The New York Times

As bolas de arroz se foram. O mesmo vale para as garrafas de suco, cujo preço Mitoshi Matsumoto fixou de forma a vendê-las logo. A maior parte das prateleiras de sua loja está vazia, mas ele manteve alguns pacotes de cigarros e garrafas de álcool, na esperança de que sua longa batalha com a cadeia de lojas de conveniência 7-Eleven seja resolvida em seu favor.

A companhia que controla as lojas 7-Eleven, Seven & I Holdings, cancelou a franquia de Matsumoto na semana passada, depois que ele decidiu fechar sua loja no dia do Ano-Novo, e interrompeu o fornecimento de produtos a ele.

Foi a mais recente batalha entre Matsumoto e uma das mais conhecidas companhias do Japão, sobre as condições duras de trabalho no setor japonês de lojas de conveniência, que exige que as lojas fiquem abertas sete dias por semana, 24 horas por dia, durante todos os 365 dias do ano.

Matsumoto continua trabalhando, mas com dificuldade. A tela de seu caixa eletrônico traz a mensagem “fora de operação”. Os dois empregados de tempo integral que ele tem estão prontos a mudar de emprego quando ele enfim fechar, e os sete empregados de tempo parcial da loja não aparecem mais.

Retrato de Mitoshi Matsumoto em sua loja de conveniência; atrás, as prateleiras estão vazias
Mitoshi Matsumoto em sua loja de conveniência perto de Osaka, Japão - Noriko Hayashi/The New York Times

Mas ele ainda assim planeja manter a loja aberta pelo maior tempo que puder.

“Quero ficar em operação, por mim e pelos outros donos de lojas no país”, disse Matsumoto, 57, que disse que planeja continuar sua luta em um tribunal local.

Um porta-voz da Seven & I, Katsuhiko Shimizu, disse que a companhia cancelou seu contrato com Matsumoto em 31 de dezembro. Ele negou que o cancelamento estivesse relacionado ao plano de Matsumoto de fechar a loja por um dia, e em lugar disso mencionou diversas queixas de consumidores sobre a loja e os comentários negativos do proprietário sobre a companhia na mídia social.

A disputa entre Matsumoto e a 7-Eleven o tornou famoso no Japão, um país que há muito enfrenta problemas relacionados a uma cultura de trabalho extenuante e ocasionalmente fatal.

Dados do governo demonstram que o excesso de trabalho foi responsável por 246 casos que conduziram a hospitalizações ou morte, em 2018. O setor de varejo é uma das maiores fontes de problemas, dizem as autoridades. Outros 568 trabalhadores se suicidaram por exaustão causada pelos seus empregos. O fenômeno é tão conhecido que o Japão criou um termo para designá-lo: “karoshi”.

O excesso de trabalho vem se tornando um problema mais grave, à medida que a população japonesa envelhece e diminui. Embora o crescimento econômico do país venha sendo fraco há anos, o mercado de trabalho se apertou consideravelmente, com a aposentadoria de cada vez mais trabalhadores e uma escassez de jovens que possam substitui-los.

Embora o Japão esteja repensando suas duras leis de controle da imigração, as regras ainda impedem que pessoas se mudem para o país a fim de cobrir essa lacuna.

É um desgaste especialmente evidente no segmento de lojas de conveniência. As cadeias japonesas dessas lojas se expandiram muito nos últimos anos, em um esforço por capturar mercado de concorrentes.

Embora as despesas operacionais das lojas sejam mínimas, a expansão causou problemas aos franqueados, que operam a vasta maioria das mais de 55 mil lojas de conveniência do Japão. Incapazes de obter empregados confiáveis, muitos deles tiveram de trabalhar cada vez mais.

“Na atual situação, a companhia tem tudo a seu favor”, disse Naoki Tsuchiya, professor da Universidade Musahi, de Tóquio, e especialista em questões trabalhistas no setor, que definiu Matsumoto como “uma figura significativa” na discussão nacional sobre as lojas de conveniência. “As companhias não precisam assumir riscos mas os proprietários das lojas os assumem".

Matsumoto atraiu atenção pela primeira vez no ano passado. Pressionado pela falta de trabalhadores e incapaz de tirar um dia de folga, ele decidiu fechar sua loja antes da meia-noite. Quando a 7-Eleven ameaçou seu negócio, ele contatou jornalistas locais.

“Nos últimos sete anos, só consegui viajar com minha mulher três vezes”, ele disse, no final de semana passado. “Mesmo nessas viagens, eu estava preocupado com as operações da loja, preocupado com a possibilidade de que os empregados de tempo parcial faltassem sem avisar. Não podia largar o celular mesmo na sauna do spa”.

O confronto atraiu atenção renovada na semana passada, quando Matsumoto declarou sua intenção de fechar a loja no dia do Ano-Novo, o mais importante feriado japonês. Dias mais tarde, a 7-Eleven ameaçou fechar sua loja.

Quando Matsumoto reabriu, dia 2 de janeiro, a ameaça parecia ter sido cumprida. O imenso e supereficiente sistema logístico da companhia parou de enviar mercadorias de reposição. Os caixas nos quais os empregados registram as vendas continuam online, mas pouca coisa mais parece continuar conectada ao aparato da 7-Eleven, que opera quase 40% das lojas de conveniência do Japão.

Matsumoto disse que continua a vender. Clientes simpáticos à sua causa apareceram para comprar os produtos que restam em seu estoque, entre os quais salgadinhos, macarrão instantâneo, itens de papelaria, produtos de limpeza e cosméticos.

Um desses fregueses, Hiroshi Nakayama, 45, que trabalha no comércio atacadista de produtos elétricos, acompanha a disputa entre Matsumoto e a 7-Eleven há muito tempo, e foi à loja depois do jogo de futebol de seu filho para ver como as coisas estavam. A briga toda poderia ter sido evitada, ele disse.

”Deve haver outras soluções para resolver o mau relacionamento com a companhia”, disse Nakayama, que apareceu na loja sábado, depois que Matsumoto, que está operando com os poucos trabalhadores restantes, havia fechado. “Eles poderiam ter conversado mais. É culpa dos dois lados”.

Matsumoto disse que outro dono de loja, da cidade de Kyoto, visitou sua loja em Higashi-Osaka para expressar apoio, mas não forneceu o nome da pessoa.

A despeito de seus problemas com a companhia, Matsumoto disse que esperava que uma disputa judicial restaurasse sua franquia. Ele disse que a 7-Eleven havia oferecido comprar de volta seu estoque restante –os proprietários são responsáveis por comprar da empresa os produtos que revendem, a preços de atacado–, mas que ele recusou. O que ele quer é que o setor de lojas de conveniência japonês mude.

E é por isso que planeja lutar até o amargo fim, disse Matsumoto.

“Não importa que eu ganhe ou perca”, disse Matsumoto. “Só quero revelar tudo que aconteceu no meu caso. Acredito que justiça será feita”.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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