Coronavírus pressiona dólar, que vai a R$ 4,26 pela primeira vez

Cotação da moeda americana teve alta de 1% nesta quinta (30)

São Paulo

Com o temor de investidores ao coronavírus, o dólar subiu 1% e atingiu um novo recorde nominal nesta quinta-feira (30), a R$ 4,26, superando o recorde de novembro de 2019, de R$ 4,258.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou na tarde desta quinta que a disseminação do coronavírus é uma emergência de saúde internacional e reconheceu que o vírus representa um risco não só na China, onde ele surgiu no fim de 2019.

No Brasil, durante o pegão desta quinta, o dólar chegou a R$ 4,273, perto do pico intradiário de R$ 4,2785 de 26 de novembro. O turismo foi a R$ 4,43, alta de 0,68%.

 

Em termos reais (corrigidos pela inflação), a moeda americana ainda está longe de sua máxima de 2002. Se for considerado apenas o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, o pico de R$ 4 naquele ano, equivale a cerca de R$ 10,80 hoje. Caso também seja levada em conta a inflação americana, o valor corrigido seria cerca de R$ 7,50.

Dentre as principais moedas do mundo, o real é a terceira que mais se desvalorizou na sessão, atrás do rand sul-africano e do dólar de Taiwan. No ano, o real é a segunda moeda que mais perde valor em relação ao dólar, atrás apenas da divisa da África do Sul.

Para especialistas, a alta do dólar é fruto da retirada de recursos estrangeiros do Brasil, o que aumenta a procura e a saída da moeda do país, elevando sua cotação.

“Não tem como ser diferente, há um risco global e a nossa moeda reflete isso. A China desacelerando afeta o Brasil, assim como demais países exportadores de matéria-prima. Com o risco, o investidor sai de mercado emergente, o que provoca pressão no câmbio”, diz Cristiane Quartaroli economista Ourinvest.

“Com o susto do coronavírus, o mercado vende o que é mais arriscado e vai para o que é mais seguro. Nisso, o estrangeiro tira recurso do Brasil e o coloca em títulos americanos”, afirma Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos.

Da última vez que a moeda americana tocou os R$ 4,27, em novembro, o Banco Central promoveu a venda de dólares à vista para conter a alta. No momento, analistas descartam intervenção da instituição já que o movimento é uma aversão de risco global. 

“Uma intervenção agora talvez nem surta efeito. Estamos vivendo o susto inicial do coronavírus”, diz  Cristiane.

A Bolsa brasileira chegou a cair 2,2% na sessão, mas se recuperou com a decisão da OMS de decretar emergência global por volta das 17h. Analistas ficaram aliviados com a libação de viagens e exportações e o Ibovespa fechou em leve alta de 0,12%, a 115.528 pontos.

“[A queda do Ibovespa] está longe de ser um pânico. É um movimento preventivo e bastante razoável. Taxas de juros muito baixas por muito tempo produzem valores muito esticados que levam a recorde atrás de recorde nas Bolsas. Com esses choques, há reavaliação de preços”, diz Silveira.

Investidores temem os efeitos do coronavírus sobre a economia global. Segundo oficiais chineses, a paralisação do país com o surto da doença deve o reduzir crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 2020.

"O crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2020 pode ser de cerca de 5% e não podemos descartar a possibilidade de cair abaixo de 5%", disse o economista do governo chinês Zhang Ming, na quarta-feira (29).

Economista da Academia Chinesa de Ciências Sociais, Zhang afirmou que suas projeções são baseadas no pressuposto de que o surto atingirá seu pico em meados de fevereiro e terminará no final de março.

Em 2019, o país asiático cresceu 6,1%, o pior índice em 29 anos. ​Em 20 de janeiro, o FMI previu que a China cresceria 6% em 2020

Para a agência de classificação de risco S&P, o crescimento do PIB chinês pode cair cerca de 1,2 ponto percentual em 2020 caso os gastos de consumo, especialmente em transporte e diversão, caiam 10%. Assim, considerando a previsão do FMI, o PIB chinês pode avançar só 4,8% em 2020.

O mercado acredita que o impacto financeiro deva ser semelhante ao surto de Sars (síndrome respiratória aguda grave) entre 2002 e 2003. Também causada por um coronavírus, a doença matou 774 pessoas, entre 8.098 infectadas.

Segundo o JP Morgan, na época, o maior impacto foi no setor aéreo, turismo e consumo doméstico asiático. 

De acordo com relatório do banco americano, Hong Kong teve um dos mais severos impactos econômicos, com queda de 0,5 ponto percentual no PIB do segundo trimestre de 2003 em comparação com o mesmo período de 2002. Na região, as vendas no varejo recuaram 7,7% no mesmo período. ​

Nesta quinta, o número de infectados pelo coronavírus subiu para mais de 8.100 pessoas em todo o mundo, superando o total da epidemia da Sars. Nos Estados Unidos, houve o primeiro caso de transmissão do coronavírus em solo americano.

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