Descrição de chapéu The New York Times

Ghosn procurou produtor de Hollywood para torná-lo mais simpático ao público

Executivo quis descobrir ainda como pessoas lutaram contra o sistema legal, mesmo que tivessem saído derrotadas

Ben Dooley
Tóquio | The New York Times

Carlos Ghosn, derrubado do comando da aliança automobilística Nissan-Renault, não sabia muita coisa sobre fazer filmes, mas parecia disposto a aprender.

Sentado na casa alugada em que vivia em um bairro próspero de Tóquio, em dezembro, ele conversou com John Lesher, produtor de Hollywood envolvido na realização de “Birdman" (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), filme de Michael Keaton que ganhou o Oscar em 2014; os dois falaram sobre a história pessoal de Ghosn, que descreveu o que considera como aprisionamento injusto pelas autoridades japonesas e sua luta por provar sua inocência, disseram pessoas informadas sobre a conversa.

O tema era redenção. O vilão, o sistema judiciário japonês. As conversações eram preliminares e não foram muito longe, disseram as fontes. E, de qualquer forma, Ghosn estava se preparando para criar uma reviravolta chocante na trama.

O empresário, que seria julgado em 2020, fugiu do Japão para o Líbano esta semana, escapando a acusações criminais por delitos financeiros. Todos os elementos de um filme de suspense no estilo de Hollywood estão presentes: um avião privado levando nas asas um prisioneiro fugitivo, múltiplos passaportes, rumores quanto a forças sombrias em ação, e os poderosos negando saber qualquer coisa a respeito.

As conversações de Ghosn com Lesher oferecem um vislumbre do que estava em seu pensamento nos dias anteriores à sua fuga de um país que o manteve sob pesada vigilância por meses.

Os procuradores da Justiça japonesa haviam acusado o empresário de declarar remuneração inferior à real, e de transferir temporariamente prejuízos em suas transações financeiras pessoais para a contabilidade da Nissan, e um tribunal autorizou que ele deixasse a prisão sob uma fiança total de US$ 13,8 milhões.

Enquanto o processo avançava, Ghosn estudou os casos de acusados proeminentes que lutaram contra o intratável sistema de justiça do Japão. Ele estava convicto de que jamais receberia tratamento justo da justiça japonesa, já que 99% dos acusados no país são condenados, disseram pessoas que conhecem o empresário.

Autoridades de todo o mundo estão começando a desvendar os detalhes de sua fuga.

Na Turquia, as autoridades detiveram sete pessoas supostamente envolvidas em ajudar na fuga de Ghosn, de acordo com veículos noticiosos turcos, entre os quais a agência de notícias oficial Anadolu. Ele deixou o Japão tarde na noite do domingo, voando de Osaka ao aeroporto Ataturk, de Istambul, em um jatinho executivo, e de lá para Beirute em um segundo avião, de acordo com as organizações noticiosas turcas.

A agência policial internacional Interpol divulgou um “alerta vermelho” sobre Ghosn, disse um representante do governo do Líbano. Esse tipo de alerta, que equivale a um cartaz internacional de “procura-se”, é distribuído buscando a captura de pessoas acusadas em processos ou condenadas a sentenças.

Quatro das sete pessoas detidas na Turquia eram pilotos de uma companhia de aviação executiva, duas eram empregadas de uma empresa que fornece serviços em terra a aviões e uma era o gerente de uma companhia privada de carga, de acordo com as reportagens turcas.

Ao chegar a Beirute, Ghosn se encontrou com o presidente do Líbano, Michel Aoun, e lhe falou de seus problemas legais, de acordo com uma pessoa informada sobre a reunião que pediu que seu nome não fosse mencionado porque não estava autorizada a falar do assunto. Aoun negou que o encontro tenha ocorrido.

No Japão, o silêncio oficial continua, e as autoridades continuam em busca de respostas. Na tarde da quinta-feira (2), a procuradoria japonesa realizou buscas na casa de dois andares de Ghosn em um bairro atraente do centro de Tóquio, bem perto da residência de Masayoshi Son, o bilionário fundador do SoftBank.

Os advogados de defesa japoneses de Ghosn disseram ter em seu poder os passaportes francês, brasileiro e libanês do empresário. Mas a rede japonesa de TV NHK, citando fontes anônimas, reportou que um juiz havia autorizado Ghosn a carregar uma cópia de seu passaporte francês em uma caixa trancada.

Não se sabe exatamente quando Ghosn começou a planejar sua fuga. Mas seu encontro com Lesher foi um dos diversos que ele manteve em Tóquio nos últimos meses, enquanto contemplava como terminaria a história de sua disputa com o sistema japonês de justiça. Nessas conversas, ele perguntou se um filme sobre ele poderia torná-lo mais simpático aos olhos do público.

Ghosn também queria descobrir como outras pessoas haviam lutado contra o sistema legal, mesmo que tivessem saído derrotadas. Em julho, ele conversou com o jornalista americano Jake Adelstein, que cobre atentamente o sistema de justiça criminal japonês, para discutir as perspectivas de seu julgamento.

Adelstein havia publicado pouco tempo antes um livro sobre Mark Karpelès, antigo presidente do mercado de criptomoedas Mt. Gox, que esteve envolvido por mais de cinco anos em uma pesada batalha contra o sistema legal japonês, depois de ser acusado de falsificar dados, desfalque e violação de confiança. Em março, Karpelès foi considerado culpado pela primeira dessas acusações, e sentenciado a dois anos anos e meio de prisão. A sentença foi suspensa.

Adelstein disse que Ghosn o interrogou sobre o julgamento, buscando paralelos com o seu caso e buscando compreender a abordagem da promotoria.

“Eu disse a ele que os japoneses não se preocupam com a justiça, se preocupam com vencer”, disse Adelstein, que escreveu sobre Ghosn esta semana no site Daily Beast.

Há questões sobre a condução do caso contra Ghosn desde o momento de sua primeira detenção pelas autoridades japonesas, em novembro de 2018.

Ghosn e seus advogados argumentam que a detenção era parte de um golpe corporativo para impedi-lo de orquestrar uma fusão entre a Renault –controlada pelo governo francês– e a Nissan, uma das joias da coroa na indústria automobilística japonesa.

Antes de ser libertado sob fiança, Ghosn passou semanas em detenção solitária, e foi submetido a interrogatórios pelos procuradores sem a presença de seus advogados, o que atraiu comparações severas sobre o tratamento dado a executivo acusados de crimes financeiros nos Estados Unidos e outros países.

O principal advogado de Ghosn no caso, Junichiro Hironaka, e sua equipe passaram meses acusando o sistema de justiça japonês de fazer do empresário um refém, como parte de uma estratégia de relações públicas cujo objetivo era colocar em dúvida a possibilidade de julgamento justo para ele no país.

Independentemente da veracidade das acusações contra Ghosn, ele se viu em severa desvantagem, nos preparativos para o julgamento.

Ghosn foi detido e indiciado quatro vezes, e passou mais de 130 dias preso e sob interrogatório repetido.

Como condição para a concessão de liberdade sob fiança, ele foi proibido de quase todas as interações com sua mulher e filho, que os procuradores públicos temiam pudessem ajudá-lo a interferir com testemunhas.

Como condição para a fiança, câmeras instaladas sobre sua porta vigiavam seus deslocamentos. O uso de telefones era restrito e Ghosn não podia usar a internet fora do escritório de seu advogado. E o mais incômodo para ele foi que nos últimos meses as autoridades permitiram apenas duas curtas conversas telefônicas com sua mulher, ambas na presença de seus advogados.

Ao longo de todo o processo, Ghosn manteve a determinação de provar sua inocência no tribunal. Mas sua atitude mudou dramaticamente no dia do Natal, de acordo com uma pessoa informada sobre o pensamento do empresário. Um tribunal japonês havia acabado de negar um pedido de Ghosn para passar o feriado com a mulher.

Em lugar disso, ele se viu em um tribunal de Tóquio, assistindo a uma discussão entre seus advogados e os promotores sobre os detalhes do julgamento.

Durante a sessão, Ghosn foi informado de que o caso seria julgado em fases, o que poderia levar a situação se arrastar por anos.

Isso levou Ghosn a presumir que os japoneses pretendiam forçá-lo a confessar, ou mantê-lo detido por prazo indefinido, disse a fonte.

“Se você considerar a situação em que Ghosn foi colocado, parece provável que sua decisão tenha sido causada por um sentimento de desespero”, disse Nobuo Gohara. ex-procurador público japonês que hoje trabalha como advogado de defesa.
 
The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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