Descrição de chapéu The New York Times

O bitcoin perdeu força, mas os criminosos ainda o amam

Quantidade de criptomoedas em mercado paralelo subiu em 60%, atingindo um novo recorde no trimestre final de 2019

The New York Times

Os últimos meses não foram bons para o bitcoin. O valor da moeda digital vem caindo firmemente. As transações com bitcoins em bolsas de criptomoedas se desaceleraram. E o uso do bitcoin para comprar itens legais também caiu.

Mas um quadrante da economia do bitcoin continua a funcionar bem: a venda de drogas ilegais, bem como outras atividades que violam as leis.

As quantias gastas em criptomoedas nos mercados da chamada darknet, nos quais informações roubadas sobre cartões de crédito e uma ampla variedade de drogas ilegais são compradas com bitcoins, subiu em 60%, atingindo um novo recorde de US$ 601 milhões (R$ 2,5 bilhões) no trimestre final de 2019, de acordo com dados divulgados pela Chainanalysis, uma empresa que rastreia todas as transações com bitcoins e serve como consultora para diversas autoridades governamentais.

O crescimento continuado das transações ilegais sublinha as dificuldades que o bitcoin teve em deixar para trás sua reputação como refúgio para trapaceiros, mesmo que instituições de Wall Street tenham começado a comprar e vender a moeda digital.

Representação de moedas de bitcoin - Dado Ruvic/Reuters

O sucesso duradouro das atividades ilegais alimentadas pelo bitcoin também aponta para as dificuldades que as autoridades vêm enfrentando em seus esforços para conter novas formas de mau comportamento que as criptomoedas ajudaram a estimular.

O bitcoin desempenhou papel fundamental no recente crescimento dos chamados ataques de “ransomware”, nos quais hackers roubam ou codificam arquivos de computador e se recusam a permitir acesso a eles caso não recebam um pagamento em bitcoins.

O bitcoin continua popular entre aqueles que especulam com câmbio, e as atividades ilícitas respondem por apenas 1% das transações totais com a moeda. Mas o volume desse tipo de atividade praticamente dobrou do ano passado para cá. Atividades ilegais parecem ser uma das poucas áreas na economia do bitcoin que se provaram imunes às flutuações da cotação da moeda, de acordo com a nova edição do “Crypto Crime Report”, da Chainanalysis.

Os dados da Chainanalysis provavelmente subestimam o número de transações com bitcoin que se dirigem a propósitos ilegais, porque a companhia não é capaz de identificar algumas das atividades ligadas a “ransomware”, sonegação de impostos e lavagem de dinheiro. A suposição geral é a de que algumas das pessoas que adquirem bitcoins em mercados legítimos o estejam fazendo a fim de contornar as leis de seus países.

A ascensão das vendas no mercado negro foi especialmente notável em 2019, porque as autoridades mundiais forçaram o fechamento de dois dos maiores mercados online ilegais. Novos mercados surgiram rapidamente para ocupar o vazio.

As atividades ilícitas são “onipresentes” na “darknet”, disse Calvin Shivers, diretor assistente da divisão de investigação criminal do FBI (Serviço Federal de Investigações) americano, mas ele acrescentou que a agência continuava “determinada” e que estava “ampliando muito seus recursos” para enfrentar o problema.

Além das medidas contra os mercados ilegais online, as autoridades vêm agindo agressivamente contra esquemas de criptomoedas. Mas ainda assim a proporção de criptomoedas dirigidas a atividades fraudulentas bateu novo recorde. Os fraudadores mais que triplicaram seu faturamento, ante os resultados de 2018, roubando US$ 3,5 bilhões (R$ 14,8 bilhões) de milhões de vítimas, em 2019, demonstram os dados da Chainanalysis.

Transações ilegais vêm ocupando posição central na história do bitcoin desde que o primeiro mercado ilegal online, o Silk Road, ajudou a dar às pessoas um motivo para começar a usar o bitcoin, em 2011. A moeda virtual era útil para o Silk Road porque a estrutura do bitcoin, sem qualquer autoridade central, torna possível que um usuário crie uma carteira de bitcoins e use a moeda sem registrar sua identidade com autoridade alguma.

Havia esperança entre alguns participantes na comunidade do bitcoin de que a criptomoeda viesse a encontrar uso mais amplo como uma forma de dinheiro eletrônico, o que era o propósito original do inventor do bitcoin.

Com a alta no valor do bitcoin, grandes empresas como a Expedia e a Stripe anunciaram que começariam a aceitar pagamentos em bitcoins. Mas quando os usuários perceberam que o bitcoin tinha muitas inconveniências como meio de pagamento —já que é mais lento e mais caro do que os pagamentos tradicionais—, esse segmento não se desenvolveu muito.

Os aficionados do bitcoin agora acreditam que a criptomoeda é mais útil como uma espécie de ativo alternativo, a exemplo do ouro. Muita gente em Wall Street aderiu a essa ideia, e a Bolsa Mercantil de Chicago e a empresa controladora da Bolsa de Valores de Nova York permitem que operadores compram e vendam derivativos baseados no bitcoin. As transações com esses instrumentos vêm sendo tépidas, no entanto.

Algumas pessoas acreditam que a moeda digital possa se provar popular em países como a Venezuela e a Argentina, onde moedas locais são ainda menos estáveis do que o bitcoin. Mas mesmo nesses lugares o interesse recente pelo bitcoin caiu, de acordo com dados do grupo de pesquisa Block.

Os preços do bitcoin e as transações com a moeda subiram na metade do ano passado, pouco depois que o Facebook anunciou sua intenção de criar uma criptomoeda chamada libra. O preço do bitcoin subiu de cerca de US$ 4 mil (R$ 17 mil) para mais de US$ 12 mil (R$ 51 mil). Mas ficou claro que a libra pode enfrentar tantas dificuldades legais quanto o bitcoin. O preço do bitcoin vem flutuando recentemente em torno da marca de US$ 9 mil (R$ 38,2 mil).

Mesmo com as quedas recentes, as transações com o bitcoin e sua cotação continuam muito adiante da posição que ocupavam no começo de 2017, antes que uma corrida de preços levasse a cotação da moeda virtual a quase US$ 20 mil (R$ 85 mil).

Os proponentes do bitcoin em geral não demonstram preocupação com o volume de atividades ilegais conduzidas por meio da moeda, porque veem muito mais atividades ilegais realizadas com moedas tradicionais, e porque o bitcoin tem desvantagens significativas para os criminosos.

“O bitcoin continua a ser uma péssima moeda para uso em crimes cibernéticos”, disse Ryan Selkis, fundador da Messari, uma consultoria sobre criptomoedas. “Talvez seja bom para pequenos crimes, mas se você estiver dirigindo um cartel, a história será bem diferente”.

O registro de todas as transações com o bitcoin, conhecido como blockchain, preserva todas as transações publicamente. Não existem nomes associados aos endereços de bitcoin, mas empresas como a Chainanalysis já rastrearam criminosos ao acompanhar transações por meio do blockchain até lugares nos quais as identidades dos usuários são conhecidas, como por exemplo as bolsas de bitcoin.

Alguns novos mercados da darknet pressionam os usuários a usar criptomoedas alternativas, que deixam menos rastros. Mas os criminosos parecem não se incomodar muito com as desvantagens do bitcoin. A difusão do fentanil, droga à qual é atribuída a culpa pela crise dos opiáceos nos Estados Unidos, se tornou possível, de acordo com as autoridades, porque laboratórios chineses começaram a vender a droga online e aceitavam pagamentos em bitcoins.

Um dos novos mercados clandestinos que se tornaram populares no ano passado, o Empire Market, tem diversas páginas de ofertas de fentanil, em múltiplos formatos, de 12 gramas por US$ 1,6 mil em bitcoins a uma dose por US$ 41. Quase todos os novos sites oferecem amplas explicações sobre os motivos para que, apesar das limitações do bitcoin, eles continuem a ser o melhor lugar para a compra de drogas online.

“Recebemos bem a todos os comerciantes honestos, e não existe razão para que você não venda no Monopoly”, afirma o mercado online chamado Monopoly em sua página de assistência, depois de explicar as medidas que tomou para evitar o destino de mercados anteriores.

Tradução de Paulo Migliacci

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