Petrobras cancela palestra de economista que criticou Bolsonaro

Americana declarou há três dias que governo "é qualquer coisa menos liberal"

São Paulo e Rio de Janeiro

A Petrobras cancelou a palestra da economista americana Deirdre McCloskey para seus funcionários, prevista para esta segunda-feira (27). A decisão foi tomada três dias após McCloskey dar uma entrevista dizendo que o governo de Jair Bolsonaro não era liberal.

A palestra, intitulada "O cerne da liberdade é a liberdade econômica", estava prevista para as 16h. No convite, enviado na semana passada, McCloskey é apresentada como "defensora da ideia de que só o liberalismo elimina a pobreza".

Segundo a acadêmica, ela não foi informada sobre o motivo do cancelamento e nem "teve coragem" de perguntar a razão.

 

O cancelamento foi anunciado aos empregados por volta das 10h desta segunda. O texto não explica as razões do cancelamento e diz que convite para o próximo evento da série será enviado em breve.

 A economista americana Deirdre McCloskey, da Escola de Chicago; há três dias, ela disse que "Bolsonaro é qualquer coisa menos liberal"
A economista americana Deirdre McCloskey, da Escola de Chicago; há três dias, ela disse que "Bolsonaro é qualquer coisa menos liberal" - Jorge Araújo/Folhapress

A economista está no Brasil para participar de um evento em São Paulo promovido pelo banco Credit Suisse. Na sexta (24), em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, disse que "os governos de Trump e de Bolsonaro são qualquer coisa, menos liberais".

"A ideia principal do liberalismo é que não haja hierarquias: homem sobre mulher, heterossexuais sobre gays ou Estado sobre indivíduos", afirmou ela, que mudou de gênero no final dos anos 1990.

À Folha a Petrobras disse que a palestra foi cancelada porque houve mudança na agenda da diretoria da empresa, que está envolvida na divulgação de oferta pública de ações da estatal que pertencem ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

McCloskey é professora na Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos. Lecionou também na Universidade de Chicago, onde o presidente da Petrobras e o ministro da Economia, Paulo Guedes, estudaram. Ao assumir a área econômica do governo Bolsonaro, o grupo ligado a Guedes se autointitulou Chicago Oldies (os velhos de Chicago).

A palestra de McCloskey seria transmitida ao vivo pela rede interna da Petrobras, assim como outros eventos da série Diálogos da transição, que foi iniciada em junho de 2019. A economista seria remunerada pela apresentação, mas a Petrobras não informou o valor ao ser questionada pela reportagem.

À Folha, McCloskey disse que deveria ter voado ao Rio na manhã desta segunda (27), mas que, quando chegou a São Paulo em um voo vindo de Chicago, descobriu que o evento fora cancelado.

"Eu não tive a coragem de perguntar o porquê. Espero que a Petrobras tenha cancelado por um motivo mais digno [que suas críticas a Bolsonaro]".

"Espero que não seja verdade que comentários na imprensa façam com que um monarca de papel e seus cortesãos façam uma retribuição mesquinha. Esse não é o estilo de um grande estadista, como Lincoln ou Churchill, mas o de uma criança como Donald Trump. Seria uma má notícia para a democracia brasileira, como certamente é para a democracia do meu próprio país", afirmou.

Ela ainda disse admirar muitas das pessoas que Bolsonaro nomeou e medidas que têm tomado, "ao menos no lado econômico do liberalismo real (não tão bom no campo social)".

Até o momento, dez palestrantes foram convidados pela empresa —alguns remunerados e outros não— ao custo de aproximadamente R$ 100 mil, disse a estatal.

Entre eles, está o secretário de Privatizações do Ministério da Economia, Salim Mattar, e o diretor da Embrapa, Evaristo Miranda.

​Do setor privado, participaram do projeto o presidente do Santander, Sérgio Rial, e os professores da FGV —onde Castello Branco estava antes de assumir a estatal —José Júlio Senna e Fernando Velloso. A última edição, em novembro de 2019, teve o cardiologista Cláudio Domênico.

 

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