Prisão de Ghosn frustrou fusão entre Renault e Fiat-Chrysler

Ex-diretor-presidente da companhia francesa confirmou que liderava conversas com a gigante ítalo-americana

Andrei Netto
Beirute

A prisão do ex-diretor-presidente da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, Carlos Ghosn, em 19 de novembro de 2018, mudou a história recente da indústria automobilística na Europa. Isso porque no comando do conglomerado, o executivo liderava negociações para a fusão entre a Renault e o grupo ítalo-americano Fiat-Chrysler.

A operação acabou frustrada e foi levada a cabo com outro gigante, a concorrente francesa PSA, proprietária das marcas Peugeot, Citroën, DS e Opel.

Em coletiva transmitida para todo o mundo pela TV americana CNN nesta quarta (8), Ghosn demonstrou indignação com o fracasso da negociação que liderava, apontando-a como um exemplo de como a gestão da aliança não estaria nas melhores mãos depois de sua prisão e demissão. 

A entrevista trouxe a público a imagem de um executivo na ofensiva contra o sistema judiciário do Japão e determinado a dar a volta por cima –inclusive do ponto de vista empresarial.

Abrigado em Beirute, Ghosn não corre risco imediato de prisão, mesmo com o pedido de prisão difundido pela Interpol a pedido do governo japonês.

Demonstrando estar confortável no centro das atenções e diante dos jornalistas, adotou um tom de acerto de contas contra o Ministério Público do país, contra ex-subordinados na Nissan e chegou a levantar suspeitas de colusão entre a empresa, a Justiça e o governo japoneses

Pressionado pelo impacto das declarações de Ghosn em Beirute, o ministro da Justiça do Japão, Masako Mori, emitiu um comunicado em tom defensivo no qual justificou o rigor do sistema de Justiça de seu país por razões históricas e culturais, afirmando que continuará a trabalhar para aprimorá-lo.

“Nós não vamos economizar esforços para rever como podemos aprimorar o sistema judicial do Japão”, afirmou o ministro.

Em uma demonstração de impotência diante da fuga de Ghosn, Mori se limitou a convidar o executivo a buscar a Justiça em solo japonês. "Se o acusado Ghosn tem algo a dizer, eu tenho a profunda esperança de que ele se engaje em todos os esforços possíveis para buscar Justiça em uma corte japonesa."

Ao longo da coletiva, Ghosn descartou os rumores de que possa assumir um cargo político no Líbano –seu nome foi evocado como possível ministro em um governo de perfil técnico, em meio à crise econômica e política que o Líbano enfrenta, com manifestações de rua.

"Se receber um pedido para colocar minha experiência a serviço do Líbano, vou fazer. Mas não sou um político”, descartou, sugerindo que poderia atuar como uma espécie de conselheiro.

Se descartou por ora um papel público, ao longo da entrevista Ghosn deu mostras de que continua interessado no jogo das empresas privadas. Demonstrou total domínio da performance do setor automotivo mundial, em especial do desempenho de Renault, Nissan e Mitsubishi.

Questionado pela Folha sobre sua fuga representava também a busca de uma "volta por cima”, o ex-diretor-presidente deu a entender que sim.

"É muito cedo para falar em come back [retorno, na tradução do inglês]. Preciso ganhar força, passar tempo com minha família”, disse. "Isso Não significa que não vou ter planos.”

Claudine Bichara, irmã do executivo, confirmou que Ghosn mantém a mesma fibra que o levou a dirigir um dos maiores conglomerados industriais do mundo, mas reiterou que por ora ele ainda não manifestou seus planos para o futuro.

O mais imediato, disse, é que seu irmão pretende trabalhar para limpar seu nome e reforçar as críticas ao sistema de Justiça japonês.

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