Tempo em que matriz ajudava subsidiária no Brasil acabou, diz chefe da Mercedes

Para executivo, cenário do setor automotivo está em transição no mundo todo

São Paulo

Após anos, durante a crise e o baixo crescimento, recebendo ajuda das matrizes, subsidiárias de multinacionais no Brasil agora terão que ter fôlego para se manter por si mesmas.

Essa é avaliação do presidente da Mercedes-Benz no Brasil, Philipp Schiemer, sobre o horizonte para as companhias do setor automotivo no país.

“As indústrias conseguiram sobreviver nos últimos anos por conta da ajuda das matrizes lá de fora. Esse tempo acabou. O mundo lá fora não está fácil", disse Schiemer durante evento à imprensa realizado nesta sexta-feira (31) em São Bernardo do Campo.

Logo da Mercedes-Benz na conferência anual da Daimler em Stuttgart, Alemanha - Michaela Rehle/Reuters

A explicação do chefe da companhia alemã é que o cenário do setor automotivo está em transição no mundo todo, com a atenção cada vez mais voltada a carros elétricos e autônomos. Daí os investimentos serem estratégicos.

”O desenvolvimento de carros autônomos e elétricos exige muito investimento. Com isso, o dinheiro fica mais escasso. E eu vou investir onde? Na eletrificação ou em um país que não dá lucro?“

Para o período 2018-2022, a companhia deve totalizar R$ 2,4 bilhões em investimentos. Até agora R$ 1,5 bilhões já foram despendidos com o novo modelo Actros, com as linhas de cabine 4.0 e com o centro de testes em parceria com a Bosch.

Mesmo chamando atenção para o fortalecimento do papel das subsidiárias, Schiemer se diz otimista quanto à economia o Brasil, com especial expectativa para a construção civil.

”Nossa grande esperança é a construção civil. A partir do segundo semestre já devemos ter um crescimento forte. Mas o pico deve ser em 2021 e 2022“, afirmou.

Nas vendas de caminhões, Schiemer prevê para esse ano uma maior participação dos leves e semipesados.

"Boa parte dos caminhões leves e semipesados foram comprados em 2010 e 2011, agora eles têm dez anos, então chega a hora de renovar. Junto disso vêm os juros baixos. Com a Selic a 4,5%, o cliente autônomo ou aquele supermercado que tem um caminhão vê que a hora é boa para um financiamento."

Em 2019, os caminhões pesados dominaram as vendas, com participação de 53%, enquanto os semipesados e leves tiveram uma presença de 22% e 25%, respectivamente.

Sobre os ônibus, Schiemer disse que mudanças na regulamentação do transporte rodoviário podem impactar o mercado.

Um decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro no fim de 2019 permite que empresas de fretamento concorram com as que atuam hoje nas linhas rodoviárias regulares. Ainda falta regulamentação.

O decreto estabelece, entre outros, liberdade de preços, itinerário e de frequência, além de livre concorrência. Não há data para essa regulamentação, que prevê também a especificação de requisitos mínimos para a prestação dos serviços de transporte, segundo texto da Agência Brasil publicado à época.

"Sabemos que empresas digitais estão olhando o mercado brasileiro", afirmou Schiemer. 

O vice-presidente de Marketing da empresa alemã, Roberto Leoncini, disse que ainda é muito cedo para fazer projeções, até porque a medida é recente. "Por enquanto não há nada de efeito, mas há muito ruído", afirmou. ​

No ano passado, a marca vendeu 30 mil caminhões e 11 mil ônibus, em uma alta de 42% e 50%, respectivamente, em relação a 2018.

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