BC americano sai em socorro do mercado após semana de perdas históricas

Autoridade monetária dos EUA sinaliza que pode baixar juros para conter retração econômica com coronavírus

São Paulo

Na pior semana para as Bolsas americanas desde a crise de 2008, o Fed (Banco Central americano) saiu em socorro do mercado financeiro ao sinalizar que pode cortar juros para conter a retração da atividade econômica com o coronavírus.

"Os fundamentos da economia americana permanecem fortes. No entanto, o coronavírus apresenta riscos crescentes para a atividade econômica. O Fed está monitorando de perto os desenvolvimentos e suas implicações para as perspectivas econômicas. Usaremos nossas ferramentas e agiremos conforme apropriado para apoiar a economia", afirmou Jerome Powell, presidente do Fed, em comunicado emitido na tarde desta sexta-feira (28), enquanto as Bolsas americanas caíam mais de 3%.

Desde segunda, uma cesta de quase 7 mil ações, incluindo mercados desenvolvidos e emergentes, perdeu quase US$ 6 trilhões, ou mais de 10% de seu valor de mercado, segundo o Refinitiv DataStream. 

De acordo com a Bloomberg, os 500 investidores mais ricos do mundo perderam US$ 444 bilhões (R$ 1,9 trilhão). Os três mais ricos —Jeff Bezos, fundador da Amazon, Bill Gates, fundador da Micorsoft e o presidente da Louis Vuitton,  Bernard Arnault— perderam, juntos, cerca de US$ 30 bilhões (R$ 134,52 bilhões).

A declaração de Powell, contudo, ocasionou uma reviravolta no mercado. A Bolsa brasileira fechou em alta e o dólar reduziu a valorização. Dow Jones fechou em queda de 1,4% e S&P 500, de 0,8%. Nasdaq encerrou estável. Na semana, os índices americanos acumulam desvalorizações de 12,3%, de 11,5% e de 10,5%, respectivamente, as maiores desde outubro de 2008. 

Operador da Bolsa de Valores de Nova York
Bolsas americanas têm a pior semana desde 2008 - Xinhua/Wang Ying

Apesar da alta de 1,15% nesta sexta, a Bolsa brasileira teve queda de 8,36% na semana, o pior recuo semanal desde maio de 2017, na semana do chamado Joesley Day —forte queda do Ibovespa após divulgação de uma gravação comprometedora entre o então presidente Michel Temer (MDB) e o empresário Joesley Batista. Naquela semana, a Bolsa caiu 8,2%.

Na semana, a Petrobras, maior empresa do Ibovespa, caiu 13% e perdeu R$ 48,82 bilhões em valor de mercado. A Vale recuou 11,6% e perdeu R$ 30,75 bilhões.

Nos três dias de grande oscilação do mercado, o Ibovespa teve um giro financeiro muito acima da média. Nesta sexta, foram transacionados R$ 39,75 bilhões, R$ 15 bilhões acima da média diária para o ano.

No mês, a queda de 8,5% em fevereiro é a pior desde a paralisação dos caminhoneiros, que fez a Bolsa despencar 10,87% em maio de 2018. No ano, o Ibovespa cai 10%, o pior desempenho desde 2015, quando a Bolsa caiu 13,3%.

 

Apesar dos riscos do coronavírus e de dados fracos da economia brasileira, a XP Investimentos mantém a projeção de 140 mil pontos para o Ibovespa neste ano e afirma que a estimativa só deve mudar se os lucros das empresas listadas for afetado por um crescimento menor da economia.

Segundo Fernando Ferreira, estrategista-chefe da corretora, mesmo com um crescimento menor da economia, as empresas listadas na Bolsa podem, como em outros momento de crise, continuar crescendo e tendo lucro.

Segundo ele, o ajuste no mercado de ações brasileiro é similar ao que ocorreu em outros grandes mercados e que a Bolsa brasileira continua mais barata em relação a outros países.

“Nesse cenário de juro baixo por um tempo longo ainda existe um fluxo para vir para ativos de risco. As pessoas vão ter de sair da zona de conforto e ter uma carteira de mais risco. Tem muito dinheiro que pode eventualmente migrar para Bolsa”, afirma Ferreira.

A recuperação do Ibovespa nesta sexta, após dois dias de fortes quedas, -7% na quarta e -2,6% na quinta, foi impulsionada pela declaração do Fed. No pior momento da sessão, a Bolsa chegou a perder o patamar histórico de 100 mil pontos, com queda de 3%.

Nesta sexta, a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o alerta de risco de disseminação e impacto global do coronavírus para "muito alto". Nos últimos dias, multiplicaram-se as revisões em projeções econômicas e para resultados de empresas devido a paralisação das economias para evitar a propagação da doença.

A possibilidade de juros mais baixos nos Estados Unidos também aliviou a cotação do dólar, que chegou a R$ 4,515 na máxima do dia, mas fechou a R$ 4,484, alta de 0,15%. O patamar é o terceiro recorde seguido na semana, em que a divisa acumulou alta de 2%.

No ano, o dólar sobe 11,6% ante o real. No período, a divisa brasileira é a segunda moeda emergente que mais se desvaloriza ante o dólar, atrás apenas do rand sul-africano. Em 2019, o dólar teve alta de 4%.

Nesta sexta, o ​Banco Central voltou a atuar para conter a alta da moeda, realizando oferta líquida de 20 mil contratos de swap cambial tradicional, equivalente a US$ 1 bilhão.

Além disso, a autarquia fez a rolagem integral de todos os US$ 3 bilhões ofertados em linhas de dólares com compromisso de recompra e de 13 mil contratos de swap cambial para rolagem do vencimento abril.

Além do coronavírus, a Selic na mínima histórica também contribui para o dólar elevado por meio do carry trade, prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, no caso, os EUA, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior, o Brasil. Com a Selic a 4,25% ao ano, essa operação deixa de ser vantajosa e estrangeiros retiram seus recursos, em dólar, do país, o que eleva a cotação. 

De acordo com cálculos do economista sênior da XP Marcos Ross, a taxa de câmbio para o Brasil neste momento, considerando apenas questões econômicas, como diferencial de juros e de crescimento, seria de R$ 4,12 (estimativa de taxa de câmbio estrutural).

Essa diferença de R$ 4,5 para R$ 4,12 parece ser muito por conta de um cenário de preocupação com uma economia que não retoma, com aversão a risco [por conta do coronavírus], desaceleração da agenda de reformas”, afirma Ross.

Ele cita ainda a possibilidade de um novo corte de juros no Brasil, embutida no preço dos títulos públicos, o que gera expectativa de um aumento no diferencial de juros com os EUA.

“No longo prazo, deveria ter uma volta [do câmbio], mas a gente ainda está em um cenário extremamente incerto.”A XP mantém a previsão de crescimento do PIB brasileiro em 2,3% para 2020, mas avalia que aumentaram as chances de um crescimento menor.

“Temos um histórico de três anos crescendo na casa de 1%. A gente começa o ano com uma expectativa, e ela vai se deteriorando. Esse ano não parece muito diferente.”

Além do Fed, o Banco Central Europeu (BCE) também disse monitorar o efeito do cornavírus na economia. Segundo o presidente do banco central da Lituânia, Vitas Vasiliauskas, a autoridade não espera tomar qualquer ação em relação ao coronavírus em sua próxima reunião do Conselho, marcada para 12 de março, mas poderá convocar uma reunião de emergência.

Neste momento, o BCE tem uma "abordagem de esperar para ver", disse Vasiliauskas em uma conferência de imprensa em Bruxelas na quinta (27).

(Com Reuters)

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