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Rana Foroohar

Coronavírus afetará crescimento global

O lugar da China na economia mundial cresceu drasticamente desde que os EUA desencadearam as recessões anteriores

Rana Foroohar
Londres | Financial Times

Na semana passada, estive alguns dias em Istambul com minha filha adolescente. Foi ainda melhor porque fomos agraciadas com um quarto de US$ 1.000 (R$ 4.200) por apenas US$ 250 (R$ 1.000)— em grande parte porque nosso hotel, que deveria estar lotado de chineses desfrutando o feriado de Ano Novo, estava quase vazio.

Em todo lugar pela cidade, comerciantes exibiam placas de "Feliz Ano Novo Chinês" e estavam ainda mais agressivos que de costume anunciando seus produtos aos turistas que passavam. Não éramos muitos. "É o coronavírus", disse o recepcionista do hotel. "No ano passado nesta época estávamos lotados. Este ano, nada."

Talvez estejamos prestes a ver algo novo: uma desaceleração global liderada pela China, e não pelos EUA. As últimas quatro recessões globais foram desencadeadas pelos consumidores americanos. Mas o lugar da China na economia global cresceu drasticamente nesse tempo. Hoje a China representa aproximadamente um terço do crescimento global, parcela maior que EUA, Europa e Japão juntos.

Não há dúvida de que o crescimento desacelerou nos últimos anos, mas a base a partir da qual a China cresce aumentou exponencialmente. Como observa Andy Rothman, estrategista de investimentos da Matthews Asia, enquanto o PIB (Produto Interno Bruto) crescia 9,4% há uma década, a base para o crescimento de 6,1% do ano passado foi 188% maior que dez anos atrás.

Equipe médica do Xi'an International Medical Center Hospital, de Shaanxi, a caminho da província de Hubei - Zhang Bowen/Xinhua

Isso significa que o que os consumidores e trabalhadores chineses fazem hoje importa muito mais que antes. "Os consumidores chineses impulsionaram o crescimento econômico global em 2019", diz Rothman, exatamente como fazem há vários anos.

Não é de admirar que as pessoas nas indústrias de hotelaria, turismo, viagens e varejo estejam seriamente preocupadas com o impacto do coronavírus. Os viajantes chineses são especialmente valiosos porque tendem a ficar mais tempo e a gastar mais que os de outros países —nos EUA, por exemplo, eles ficaram em média 18 dias e gastaram US$ 7.000 (R$ 29 mil) por visita no ano passado, de acordo com um estudo da 13D Global Strategy and Research.

Enquanto os gastos chineses nos EUA já estavam diminuindo devido à guerra comercial, a Ásia e a Europa agora também sentirão sua perda. Isso terá efeitos indiretos em áreas dependentes do turismo: comércio, restaurantes, bens e serviços de luxo de todos os tipos.

O Goldman Sachs estima um golpe de 0,4 ponto percentual no crescimento da China em 2020 e um impacto semelhante no crescimento dos EUA no primeiro trimestre. Os otimistas observam que durante o surto de Sars, em 2003, o crescimento chinês caiu apenas por um curto período, antes de se recuperar em robustos 10%.

Mas naquela época a China representava apenas 4% do crescimento global, em comparação com os 16% atuais. Os gastos do consumidor não eram tão desenvolvidos, e o turismo chinês ainda era principalmente de entrada de visitantes. "Consequentemente (...) o impacto negativo no crescimento global poderá ser maior que em 2003", observou um relatório do ING sobre o assunto.

Não são apenas os consumidores chineses que poderão puxar uma desaceleração. A região de Hubei é uma área enorme para cadeias de suprimentos. A proibição de viagens dificultou para a população trabalhar e manter as fábricas em funcionamento. É possível que, com uma disrupção suficiente da cadeia de suprimentos, a China não consiga cumprir seus compromissos de compra nos acordos comerciais com os EUA.

É claro que isso teria um impacto geopolítico, principalmente em setores que incluem tecnologia, que ainda estão entre os mais estreitamente ligados a empresas chinesas, apesar da dissociação que já está ocorrendo entre os EUA e o Reino do Meio (uma tendência que a "primeira fase" do acordo comercial não mudará). Se o setor tecnológico começar a parecer instável, poderá afetar os insumos de energia e materiais e, por sua vez, ser o catalisador da correção de mercado mais ampla que muitos esperamos há algum tempo.

Tudo isso torna o surto do vírus exatamente o tipo de gatilho inesperado que muitos participantes do mercado temiam —eles já estão preocupados com a queda das margens de lucro das empresas americanas, a dívida recorde, problemas de liquidez e rendimentos negativos.

Obviamente, é possível que os mercados suportem tudo isso por mais algum tempo. Talvez Donald Trump consiga reivindicar, a tempo para as eleições em novembro, que ele foi o presidente dos EUA que levou o Dow a 30.000. Mas essa potencial alta do mercado teria sido impulsionada pela política monetária e pelos deficits, e não por alguma estratégia mais produtiva da Casa Branca.

Isso ressalta um ponto mais geral: o que quer que aconteça com o coronavírus, os EUA perderam uma oportunidade, não apenas sob Trump, mas desde a crise financeira de 2008, de redefinir sua estratégia de crescimento, idealmente para uma mais baseada no crescimento da renda do que na inflação dos preços dos ativos. Essa é a única maneira de garantir a segurança econômica em longo prazo.

A China também dependeu excessivamente da dívida no período pós-crise financeira. Ela produziu suas próprias bolhas em tudo, de imóveis a títulos provinciais. Os mercados de consumo e trabalho já estavam enfraquecendo antes do coronavírus. A confiança no governo, que já diminuía sob o presidente Xi Jinping, sofreu um novo golpe com a minimização inicial da crise pelo partido.

No entanto, qualquer que seja o preço imposto pelo vírus ao crescimento global, o fato de os temores de recessão, que não pareciam um problema há apenas uma semana, estarem de volta diz algo muito importante.

Os EUA ainda importam muito na economia global, mas muito menos que antes. A China, por outro lado, importa muito mais. O quanto será medido conforme a história do coronavírus se desenrolar nas próximas semanas e meses.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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