David Kupfer buscou a cura para a doença industrial brasileira

Economista e pesquisador, que morreu nesta quarta-feira (19), apontou falhas na produtividade e na educação como deficiências que comprometeram o setor

São Paulo

O economista David Kupfer, 63, um dos mais respeitados pesquisadores do desenvolvimento industrial brasileiro, morreu na madrugada desta quarta-feira (19), no Rio de Janeiro.

Professor titular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autor de livros premiados sobre a indústria, se manteve ativo no trabalho e no debate público mesmo nos últimos meses, enquanto se tratava de um câncer de pâncreas, que causou sua morte.

Até dezembro, publicou a coluna que escrevia, mensalmente, no Valor Econômico. Em outubro, em seu antepenúltimo texto para o jornal, chamou a atenção para “a doença industrial brasileira”.

No texto, ressaltou como o “fracasso em aumentar sua produtividade no ritmo requerido pelo encarecimento dos preços relativos dos serviços” tem impedido ganhos de competitividade do setor manufatureiro nacional.

As dificuldades da indústria já eram causa de preocupação e tema de estudo de Kupfer muito antes das mazelas do setor se tornarem evidentes nos últimos anos.

O economista David Kupfer, que era membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp - IEA/USP

Nos anos 90, ele fez parte de um grupo formado por pesquisadores de diversas instituições que produziu um amplo diagnóstico de mais de 30 setores da indústria nacional para o governo federal.

Coordenado pelos economistas Luciano Coutinho –que viria a ser presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) de 2007 a 2016–, e João Carlos Ferraz, ex-diretor de Planejamento da instituição, o trabalho batizado de “Estudo da Competitividade da Indústria Brasileira” se tornou uma referência para estudiosos do tema.

O documento alertava para assuntos que só recentemente ganharam espaço no debate público, como a importância de investimentos em inovação e na formação da mão-de-obra.

“Todos os países que romperam a barreira do desenvolvimento atribuíram especial atenção à educação”, diz um trecho do trabalho, cujos resultados, segundo Coutinho, se deveram muito a uma pesquisa minuciosa feita por Kupfer.

“O David era um economista completo. Ele dominava tanto a teoria econômica quanto a economia política e a formulação de políticas públicas”, diz Coutinho, que é professor da Unicamp.

Em uma de suas atuações fora do meio acadêmico, Kupfer assessorou Coutinho na presidência do BNDES, entre 2011 e 2014. Ele foi também conselheiro da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Apesar de defender teses por vezes contrárias às de economistas brasileiros de vertente liberal, tinha muitos deles entre seus amigos próximos.

“Sei que isso é típico do que se fala sobre alguém que morreu, mas o David foi uma das melhores pessoas que conheci”, afirma o economista Luiz Fernando de Almeida Bello, conselheiro da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais).

A amizade entre Bello e Kupfer vinha desde os anos 1960, quando estudaram juntos no Colégio de Aplicação (Cap) da UFRJ.

“O fato de termos nos tornado depois de escolas de Economia distintas nunca atrapalhou nossa amizade. Divergimos na mais absoluta paz por décadas”, diz Bello.

Um ponto de divergência entre Kupfer e seus colegas ortodoxos se referia ao espaço para investimentos públicos, principalmente no atual contexto de crise fiscal.

Em entrevista à Folha, em 2018, o professor da UFRJ disse ver um falso dilema no Brasil “de que todo gasto público é ruim”.

Para ele, era necessária uma postura responsável, mas com espaço para investimentos em infraestrutura, por exemplo. A tese contraria o rigor fiscal defendido pela maioria dos economistas liberais e praticado pelo governo.

Segundo seus amigos, Kupfer –que era irmão do jornalista econômico José Paulo Kupfer– sempre foi elegante nas discordâncias e aberto a ouvir e debater opiniões distintas das suas. Isso fazia dele um orientador de teses disputado por estudantes da UFRJ.

Sua dedicação à universidade foi além da pesquisa e da atividade em sala de aula. Coutinho conta que, nos últimos anos, Kupfer liderou um esforço para economizar recursos para reformar o deteriorado prédio que abriga o departamento de Economia da instituição.

Em 1996 e, novamente, em 2002, ele venceu o Prêmio Jabuti de melhor livro da área de Economia e Negócios, respectivamente, por “Made in Brazil: Desafios Competitivos da Indústria Brasileira” e “Economia Industrial: Fundamentos Teóricos e Práticas no Brasil”.

Em 2019, recebeu o prêmio de Pesquisador Emérito do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Recentemente, o economista, que deixa a esposa e um filho adulto, se dedicava a estudar a disseminação de tecnologias avançadas pela indústria brasileira. Segundo Coutinho, eles se preparavam para atualizar um diagnóstico que fizeram sobre o tema para a CNI (Confederação Nacional da Indústria).

Em uma nota de pesar sobre a morte de Kupfer, Robson Braga de Andrade, presidente da CNI, afirmou que ele foi um dos idealizadores do modelo SENAI de prospecção tecnológica, adotado em mais de 20 países.

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