Descrição de chapéu The Wall Street Journal

EUA dizem que Huawei acessa redes de telecomunicações secretamente

Companhia chinesa negou alegações

Berlim | The Wall Street Journal

Autoridades dos Estados Unidos dizem que a chinesa Huawei pode acessar secretamente redes de telefonia celular em todo o mundo por meio de "portas traseiras" criadas para uso de órgãos judiciais, enquanto Washington tenta convencer os aliados a excluir a empresa chinesa de suas redes.

Informações sigilosas mostram que a Huawei possui essa capacidade secreta há mais de uma década, disseram autoridades dos EUA. A Huawei rejeitou as alegações.

Os EUA mantiveram a informação classificada como altamente secreta até o final do ano passado, quando autoridades forneceram detalhes a aliados, incluindo o Reino Unido e a Alemanha, de acordo com autoridades dos três países. Essa foi uma reviravolta tática dos EUA, que no passado argumentaram que não precisavam produzir evidências concretas da ameaça que a Huawei representa para a segurança das nações.

 

Quando os fabricantes de equipamentos de telecomunicações produzem e vendem hardware, como equipamentos de comutação, estações base e antenas para as operadoras –que montam as redes que permitem a comunicação e a computação móveis–, são obrigados por lei a incorporar em seu hardware modos de as autoridades acessarem as redes para fins legais.

Eles também são obrigados a construir os equipamentos de tal forma que o fabricante não consiga acessá-los sem o consentimento do operador da rede.

Somente autoridades policiais ou autorizadas em cada operador têm permissão para entrar nessas "interfaces de interceptação legais", geralmente com a permissão do operador. Esse acesso é regido por leis e protocolos específicos de cada país.

As autoridades americanas dizem que a Huawei construiu equipamentos que preservam secretamente a capacidade do fabricante de acessar as redes por meio dessas interfaces sem o conhecimento das operadoras. As autoridades não deram detalhes sobre onde eles acreditam que a Huawei possa acessar as redes. Outros fabricantes não têm a mesma capacidade, segundo elas.

"Temos evidências de que a Huawei tem capacidade secreta de acessar informações confidenciais e pessoais nos sistemas que mantém e vende em todo o mundo", disse o consultor de segurança nacional Robert O'Brien.

"A Huawei não divulga esse acesso encoberto a seus clientes locais ou às agências de segurança nacional do país anfitrião", disse outra autoridade graduada dos EUA.

As autoridades americanas se recusaram a dizer se os EUA observaram a Huawei usando esse acesso.

Também não forneceram detalhes sobre o suposto acesso pela porta traseira, exceto para dizer que o conhecem desde que o observaram em 2009 nos primeiros equipamentos 4G.

No mês passado, apesar do intenso lobby do governo Trump, o Reino Unido concordou em continuar permitindo equipamentos da Huawei nas partes não essenciais de sua mais recente versão da rede 5G.

As autoridades britânicas disseram na terça-feira (11) que as informações sobre a Huawei apresentadas pelas autoridades americanas no mês passado não eram novas e já haviam sido incluídas na análise da possível ameaça dos equipamentos de telecomunicações chineses.

Os EUA disseram há muito tempo que a Huawei poderia ser coagida por Pequim a usar seu equipamento para espionar ou perturbar redes estrangeiras. A Huawei disse que nunca espionou em nome de nenhum país e recusaria qualquer pedido de espionagem de Pequim.

A Huawei "nunca fez e nunca fará nada que comprometa ou ponha em risco a segurança das redes e dados de seus clientes", afirmou a empresa. "Rejeitamos enfaticamente essas últimas alegações. Novamente, acusações infundadas estão sendo repetidas sem nenhum tipo de evidência concreta."

Um alto funcionário da Huawei rejeitou a sugestão de que a companhia possa acessar a interface da maneira descrita pelas autoridades americanas. "O uso da interface de interceptação legal é estritamente regulamentado e só pode ser acessado por pessoal certificado das operadoras de rede. Nenhum funcionário da Huawei tem permissão para acessar a rede sem a aprovação explícita da operadora", disse o funcionário.

O acesso à rede sem a permissão da operadora "é extremamente implausível e seria descoberto imediatamente", disse o funcionário.

Washington compartilha a inteligência com os aliados há meses e desclassificou parte dela na semana passada para permitir uma distribuição mais ampla, de acordo com autoridades dos EUA. Isso ainda não foi divulgado ou relatado publicamente.

Matthew Pottinger, vice-assessor de segurança nacional dos EUA, viajou para Berlim no final de dezembro para compartilhar a informação com autoridades do governo da chanceler Angela Merkel, segundo autoridades americanas e alemãs.

As capitais estrangeiras tiveram que pesar a suposta ameaça de segurança nacional da Huawei contra o que, segundo muitos executivos de operadoras, são equipamentos de alta qualidade e preços competitivos.

A legislatura alemã deve votar nas próximas semanas um projeto de lei que, se adotado, permitiria à Huawei acesso total ao seu mercado 5G, desde que forneça garantias de segurança. A Alemanha e muitos outros países estão começando a construir as redes móveis da próxima geração. As três maiores operadoras de redes da Alemanha usam equipamentos Huawei.

A Deutsche Telekom, maior operadora da Alemanha, disse que não está preocupada com sua própria rede na Alemanha. A empresa disse que seu sistema de gerenciamento de interceptação legal foi construído por uma empresa alemã, o que impediria a Huawei de obter acesso, afirmou.

Algumas autoridades alemãs saíram da reunião com Pottinger convencidas pela inteligência dos EUA, de acordo com um alto funcionário familiarizado com a reunião. Um memorando confidencial escrito pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e visto pelo The Wall Street Journal afirma que Pottinger forneceu evidências claras de que os equipamentos da Huawei apresentam risco de espionagem. Pottinger não respondeu a pedidos de comentário.

Um porta-voz do Vodafone Group, com sede em Londres, um dos maiores provedores de telecomunicações do mundo por assinantes, disse que não há indício de que algum de seus fornecedores de equipamentos tenha acesso não autorizado a suas redes globais. Somente funcionários da empresa com permissão de segurança poderiam se conectar ao sistema de interceptação legal, disse o porta-voz.

Curtis W. Dukes, ex-funcionário sênior da Agência de Segurança Nacional que hoje é consultor de segurança cibernética, disse que é possível um fornecedor obter acesso por meio da interface de interceptação legal, mas que não tinha conhecimento de nenhum caso disso.

Na maioria dos países ocidentais, a interface –a versão moderna da antiga escuta telefônica– permite que as agências policiais acessem comunicações eletrônicas privadas entre indivíduos, sujeitas a certas restrições, como um mandado ou ordem judicial.

Todos os fornecedores de infraestrutura na Europa devem oferecer capacidade de interceptação legal em seus sistemas. Estes são uma mistura de componentes físicos que são adicionados às torres de celulares, software e criptografia para garantir que as informações possam ser acessadas apenas por pessoal autorizado.

As agências policiais normalmente usam essas interfaces, embora na maioria dos casos e jurisdições devam notificar as operadoras de rede ou solicitar acesso a elas --e seria ilegal os fornecedores de equipamentos usarem a interface sem autorização.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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