Feirantes buscam alternativas para abastecimento após alagamentos em SP

Ceagesp trabalha na limpeza dos boxes e ainda não tem prazo de reabertura

São Paulo

Após fortes chuvas na cidade de São Paulo na segunda-feira (10), feirantes sofrem com falta de alimentos devido ao alagamento que atingiu o Ceagesp.

O feirante Osmar Fernandes, 70, estava nesta terça na praça Charles Miller em frente ao estádio do Pacaembu, na zona este da capital. Para ter produtos à venda, precisou se abastecer na região do Mercado Municipal de São Paulo.

As segundas-feiras são importantes para os feirantes porque são os dias em que se abastecem para a semana.

A previsão de Fernandes, que trabalha há 55 anos na venda de frutas, sempre de terça a sábado, é que a situação se normalize só dentro de 10 ou 15 dias.

Feira na praça Charles Miller, na região do Pacaembu, estava vazia pela manhã; Osmar Fernandes, que vende frutas, comprou sua mercadoria no Mercadão, onde pagou valores mais altos que o comum e montou a barraca com bem menos opções que o normal - Bruno Santos/Folhapress

Assim como a barraca dele, a feira estava bem esvaziada, e os clientes eram escassos. “Comprei pouquinho sabendo que isso ia acontecer. Tenho que trabalhar para pagar o dinheiro dos meus funcionários”, conta o feirante, que emprega cinco pessoas.

Lilian Kim, proprietária do bar e restaurante Kraut, na Vila Buarque, conta que precisou abastecer o restaurante para o almoço desta terça comprando nos sacolões da região. A entrega da Ceagesp desta terça não ocorreu.

"Com certeza o gasto será muito maior, mas não temos valores ainda", diz. Segundo a proprietária, o valor não será repassado aos clientes. "Haverá aumento, mas o preço não será só por causa disso, tem outros fatores que vão influenciar a subida de preço", diz.​

Outro problema foi a falta de coleta de lixo do restaurante, que é particular. "Cheguei e estava tudo aqui", acrescenta.

Roberto Ostolin, diretor comercial da Maxis Alimentos, responsável por abastecer o Kraut e outros estabelecimentos em São Paulo, foi até o Ceasa de Campinas para suprir a falta da Ceagesp."Conversamos com muitos produtores que já são nossos parceiros para nos trazer o que conseguissem e completamos com o Ceasa de Campinas, conseguimos 95% do precisávamos", diz.

A diferença de preço entre os produtos chegou a 20% em relação ao que é comprado em São Paulo, sem contar os custos com transporte como diesel e pedágio. "Como é uma situação anormal, vimos por bem não repassar esse custo para o nosso cliente e assim fideliza-lo ainda mais', acrescenta.

Para Ostolin, os preços nas próximas semanas irão depender de quanto a chuva afetou o produtor. "A oferta inicialmente será muito menor que a demanda que ficou reprimida nesses três dias de Ceagesp fechado [domingo, segunda e terça] e a falta desse equilíbrio vai gerar um aumento de preço e uma queda na qualidade que será visível para o consumidor". 

Segundo Guilherme Diniz, diretor-executivo Associação dos Feirantes, 70% das feiras de hoje estavam desfalcadas. 

Com esse hiato no fornecimento de mercadorias, bares e restaurantes terão de usar a criatividade para compensar a falta de alguns alimentos. Essa é a avaliação do presidente da Abrasel, Percival Maricato. "Não dá para ficar fechado. As pessoas precisam trabalhar", diz.

A proprietária do empório Vegamo, Joana d'Avila, 46, afirma que a não entrega de produtos hortifruti nesta terça vai afetar o cardápio de quarta-feira.

"Estamos tentando conseguir [os alimentos] por outros fornecedores ou por meio de um amigo que produz orgânico. Se não conseguirmos, amanhã não teremos a salada de entrada, que é cortesia. E talvez não poderemos servir a feijoada porque não temos couve", diz.

Se não comprar os produtos por grandes fornecedores, d'Avila afirma acreditar que vai cortar os itens da lista por enquanto, já que os preços em supermercados são elevados, o que torna o serviço inviável.

 "Como pedimos [os produtos] em grande quantidade e compramos com frequência, o preço costuma sair bem mais em conta. Para comprar no mercado, com certeza vai sair mais caro. Não vale a pena."

Ela diz que nesta terça-feira não faltaram alimentos porque o restaurante não abriu na segunda, então ainda havia produtos suficientes na despensa para o cardápio do dia.

Maricato, da Abrasel, afirma que o impacto nos estabelecimentos foi forte na segunda-feira. O movimento à noite, segundo ele, chegou a recuar mais de 50%.

"Segunda já é o dia de descanso para muitos bares e restaurantes, que costumam fechar. Os que abriram sentiram uma queda [no movimento]. Porque a chuva acaba espantando. Imagina sair de casa com a cidade toda alagada."

A maioria dos feirantes não conseguiram comprar os alimentos e os que compraram acabaram perdendo no Ceagesp. A previsão do sindicato é que a situação normalize até sexta-feira (14), pois os produtores não estão tendo capacidade de escoar o alimento para capital.​ 

A Ceagesp, maior central de abastecimento de alimentos da América Latina e terceira maior do mundo, e que fica próximo à confluência dos rios Tietê e Pinheiros, foi alagada na segunda, causando perda de alimentos que poderá se reverter em falta de produtos nos próximos dias. Há risco de que o desabastecimento tenha impacto sobre os preços dos alimentos.

Na manhã desta terça (11), feirantes registraram a sujeira do local. Em nota, a Ceagesp informou que ainda não é possível estimar o prejuízo causado com a perda de mercadoria, nem dizer se haverá aumento de preços em decorrência do que aconteceu.

Todos os alimentos foram descartados por risco de contaminação.

A Ceagesp informou ainda que o nível de água no local baixou e que na manhã desta terça a maior parte do entreposto já estava em níveis aceitáveis, o que permitiu que equipes de manutenção pudessem iniciar o processo de limpeza dos boxes.

Na noite de segunda, a Ceagesp informou que as feiras de pescados e flores não iriam funcionar na madrugada desta terça.

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