Itaú Unibanco vê juro baixo por mais tempo, 1º tri fraco e volta do dólar a R$ 4,15

Risco externo mais importante para o crescimento neste ano são os efeitos do coronavírus

São Paulo

O economista-chefe do Itaú-Unibanco, Mário Mesquita, estima que a taxa básica de juros só deve voltar a subir no final de 2021, quando passaria dos atuais 4,25% para 4,5% ao ano. A estimativa é bem inferior à mediana do mercado, que projeta juros subindo ao longo de 2021 e terminando o próximo ano em 6%.

Pelos cálculos da instituição, a economia brasileira ainda está cerca de 4% abaixo do seu potencial e deve crescer 2,2% neste ano, projeção que não mudou, o que deixaria espaço para uma recuperação ainda sem pressões inflacionárias até praticamente o final de 2021. Para o próximo ano, é estimado crescimento de 3%.

Mesquita não descarta também que o Banco Central possa voltar a cortar os juros no caso de um crescimento inferior a esse patamar, que poderia colocar a inflação abaixo dos 3,3% e 3,5% projetados para 2020 e 2021, respectivamente.

Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do Banco Centra - Eduardo Anizelli - 11.jan.2018/Folhapress

Em relação ao câmbio, a equipe do Itaú projeta taxa de R$ 4,15 no final deste e do próximo ano, com um fluxo maior de dólares para o Brasil na medida em que haja uma aceleração do crescimento.

“A gente vê ainda uma economia que está em recuperação gradual, que está com ociosidade relevante, e continua vendo uma aceleração do crescimento da faixa de 1% [em 2019] para cerca de 2% em 2020. Houve um período de grande otimismo com o PIB. As pessoas questionavam se não ia ser 3%. Depois começaram a falar em 1%. A gente continua onde estava”, afirmou o economista durante evento de apresentação do seu cenário econômico.

Ele afirmou que o risco externo mais importante para o crescimento neste ano são os efeitos da epidemia do coronavírus e das medidas adotadas na China para contê-lo. Do lado doméstico, citou a importância de manter a agenda de reformas e o ritmo de expansão do crédito para o consumo e o investimento.

“O BC sinalizou estabilização da taxa de juros em 4,25%. Deve ficar aí por um bom tempo. Caso a economia siga em compasso mais lento, a inflação siga para baixo, poderia abrir espaço para queda de juros. O coronavírus, se de fato resultar em uma desaceleração mais intensa da economia global, vai ter feito, em última instância, desinflacionário.”

 

A economista do Itaú Laura Pitta, que acompanha os dados econômicos do país asiático, afirma que o registro no número de casos do vírus tem diminuído, mas que há um reflexo maior na economia, devido à paralisação de uma série de atividades. “Os números de novos casos estão em uma tendência positiva nas últimas duas semanas, mas há dificuldade para normalizar a atividade pós-choque”, disse.

O Itaú estima crescimento do PIB de 0,3% no primeiro trimestre de 2020. Mesquita afirmou que não é possível descartar um resultado negativo, embora os dados divulgados até o momento não apontem para esse cenário. Para chegar a 2,2% de crescimento, a expansão média nos trimestres seguintes teria de ficar em 0,7%.

Questionado sobre as declarações polêmicas do ministro Paulo Guedes (Economia), que levaram inclusive o presidente Jair Bolsonaro a afirmar que ele não pediu para sair do governo, Mesquita afirmou que o ministro tem grande responsabilidade no desenho da agenda de reformas e que qualquer coisa que ameace o progresso dessa agenda vai gerar reação negativa nos mercados e terá impacto na confiança.

Mesquita afirmou não ter visto dados que reflitam uma piora na visão dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil. Ao falar sobre critérios ambientais, sociais de governança para alocação de capitais, no entanto, disse que o mundo tem uma opinião dominante em relação à questão do meio ambiente. Para ele, um país que escolher ter uma opinião diferente poderá verificar uma reação negativa ao seu posicionamento.

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