Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Mercado já vê crescimento de 2% em 2020 mais como alvo do que como piso

Dados fracos do fim de 2019 levam a revisão de expectativas; indústria e reformas preocupam

São Paulo

Resultados de atividade abaixo dos esperados em dezembro e indicadores antecedentes um pouco contraditórios de janeiro tornam os próximos dois meses cruciais para determinar se o governo Jair Bolsonaro conseguirá entregar um crescimento do PIB superior a 2% neste ano.

Com rebaixamentos pontuais em algumas previsões, um crescimento ao redor de 2% em 2020 já é encarado por parte do mercado mais como alvo do que como piso.

Os dois maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco e Bradesco, no entanto, mantêm por enquanto suas estimativas: 2,2% e 2,5%, respectivamente. Mas o viés é de leve baixa no caso do Itaú Unibanco.

O mercado ainda vê pontos favoráveis na construção civil, na safra agrícola recorde, no consumo das famílias, no mercado de trabalho e, principalmente, no aumento do crédito.

Embora a taxa geral de desemprego tenda a permanecer elevada, ao redor de 11%, a expectativa é de formalização mais acelerada das vagas hoje precárias, com impactos positivos na renda e na confiança dos consumidores.

Na contramão, persiste a incerteza em relação à indústria e, consequência disso, a falta de uma retomada mais firme nos investimentos produtivos —adiados diante da elevada capacidade ociosa.

Sobre esse panorama pairam dúvidas a respeito do equilíbrio das contas públicas e da agenda de reformas neste ano eleitoral, mais curto para o Congresso.

A falta de definição até agora do que será prioritário na pauta (PEC da Emergência Fiscal, reforma administrativa ou tributária) já é vista em alguma medida como a repetição da desordem política do ano passado, que acabou afetando o crescimento.

Mais otimista entre bancos e consultorias ouvidos pela Folha, o Bradesco manteve a previsão de 2,5% para o PIB apoiado em dois pilares: recuperação do emprego formal e aumento do crédito.

Segundo Fernando Honorato, economista-chefe do banco, a melhora do mercado de trabalho neste momento, levando em conta séries históricas, é compatível com um PIB até mais forte.

“É cedo para qualquer revisão, e encaramos os dados um pouco mais fracos no fim do ano como ruídos. O emprego formal vem superando bem nossas expectativas”, diz.

Sobre uma eventual desaceleração externa causada pelos impactos do coronavírus, Honorato diz que haveria algum espaço adicional para o Banco Central cortar mais o juro básico, hoje em 4,25% ao ano.

Para Luka Barbosa, economista sênior do Itaú Unibanco, os dados mais fracos do fim de 2019 vieram dentro das expectativas do banco. 

O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) caiu 0,27% em dezembro na comparação dessazonalizada com o mês anterior. Foi influenciado pelas quedas de 0,7% na produção industrial, de 0,1% no varejo (-0,8% no varejo ampliado, que inclui veículos, motos, peças e material de construção) e de 0,4% nos serviços. 

No ano, o crescimento verificado pelo BC foi de 0,89%, abaixo do 1,34% de 2018.

“Esperávamos isso [a queda de dezembro] em razão da diminuição dos efeitos da liberação do FGTS. São dados voláteis, assim como o próprio PIB em sua sequência trimestral. Não acho que a história da recuperação esteja mudando.”

O economista ressalta que não há estímulos fiscais (gastos públicos) ou um boom de preços de commodities ajudando o crescimento neste momento, o que torna a recuperação “mais moderada; porém, mais saudável”.

Mesmo em relação à indústria, sua expectativa é de paulatina recuperação após o tombo de 6% nas exportações de manufaturados em 2019 por causa das tensões entre Estados Unidos e China e da crise na Argentina.

Para o economista Fabio Klein, da Tendências, é cedo para determinar se os dados menos favoráveis de dezembro vão se repetir. Indicadores de janeiro relativos à produção de papelão ondulado (para caixas e embalagens) e o tráfego de veículos pesados apontam para “um certo otimismo”.

A Tendências manteve a sua previsão de 2,1% de alta do PIB, apoiada no aumento do volume do crédito. Haveria, assim, impactos positivos no consumo e na construção civil, com reflexos favoráveis no emprego.

Klein não vislumbra influência acentuada do coronavírus na economia brasileira. “O efeito pode ser temporário na receita de setores como soja, minério de ferro e petróleo.”

Em janeiro, segundo dados da FGV/Ibre, a confiança avançou em todos os setores, exceto serviços (-0,1 ponto). O destaque foi a construção, com trajetória ascendente desde o segundo semestre de 2019. 

Por esses indicadores, a indústria passou a melhorar no quarto trimestre de 2019 e inicia o ano em uma zona de neutralidade.

Já a confiança do comércio se mantém na faixa entre 95 e 100 pontos desde julho de 2019, sugerindo que uma recuperação mais consistente dependerá do mercado de trabalho e da confiança dos consumidores.

Para Tony Volpon, economista-chefe do banco UBS, houve um “excesso de otimismo” no final de 2019 que não se confirmou. Na primeira semana de fevereiro, a instituição financeira já havia cortado de 2,5% para 2,1% sua previsão para o PIB deste ano.

“Foi mais em razão do coronavírus e da China. Mas 0,4 ponto percentual a menos não quer dizer muita coisa. Esperamos para ver, pois parece mais uma acomodação, não uma reversão de tendência.”

O UBS aponta para uma dicotomia no momento: crédito, consumo e emprego melhores e indústria retardando a retomada. Sobretudo pela queda das importações da Argentina e da atividade da Vale —cuja produção de minério de ferro encolheu 21,5% em 2019 após o acidente em Brumadinho (MG).

A MB Associados mantém sua previsão de crescimento em 2% para este ano e aposta em uma evolução relativamente lenta ao longo do tempo, com um 2021 melhor e assim por diante. “Os estragos do passado foram muito grandes”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria.

Inflação e juros baixos são apontados como fatores positivos, assim como o crédito em alta, a melhora no emprego formal e o aumento da massa de rendimentos —todos elementos que tendem a estimular o consumo. 

O obstáculo continua localizado na indústria e na falta de investimentos para ampliar sua capacidade.

“No geral, nunca compramos muito o otimismo de alguns do mercado. Agora, há quem coloque o coronavírus como ‘bode na sala’ para justificar um corte nas expectativas”, diz Vale. Mesmo que a epidemia afete o comércio Brasil-China, diz, o estrago tende a ser passageiro.

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Fator, afirma que o banco já considera rebaixar de 2,2% para “um teto” de 2% a previsão de crescimento do PIB neste ano.

Sua equipe detectou, em janeiro, queda tanto nas vendas de maquinário para o setor agrícola quanto para o elétrico.

A avaliação de Gonçalves é a de que um clima de “insegurança política” na relação (e na pauta) do governo com o Congresso vem ganhando peso como fator de incerteza na área fiscal. Assim como a “insegurança jurídica” contamina expectativas em relação às concessões de obras que ajudariam a deslanchar alguns investimentos.

Nessa área, o Ministério da Infraestrutura vem mantendo a previsão de ofertar 44 obras neste ano e de concluir outras 52 —o que alguns consideram metas ambiciosas demais.

“Não há dúvida conceitual ou empírica de que precisamos de mais investimentos para sairmos do ciclo de baixo crescimento”, diz.

No time dos mais otimistas, o economista-chefe da Genial Investimentos e professor da PUC-Rio, José Márcio Camargo, segue apostando em um crescimento ao redor de 2,5% neste ano.

Sobre a “rateada” de dezembro, Camargo avalia como um movimento normal de uma economia que se recupera lentamente —e que dados do mercado de trabalho melhoraram consideravelmente no final do ano.

“Isso já deve ter se refletido positivamente na atividade de janeiro e fevereiro”, afirma.

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