Descrição de chapéu Financial Times

México sofre com roubo de abacate antes do Super Bowl

Quadrilhas ganham força no lucrativo mercado do chama do ouro verde

Jude Webber Emiko Terazono
Cidade do México e Londres | Financial Times

Enquanto os americanos se preparam para o guacamole que se tornou uma tradição durante as festas do Super Bowl, a decisão do campeonato de futebol americano da NFL que acontece neste final de semana, os plantadores de avocados —tipo de abacate— no México estão buscando proteção contra quadrilhas criminosas ávidas por explorar uma fruta conhecida como “ouro verde”.

Cerca de uma dúzia de caminhões parte a cada hora de Michoacán, o estado mexicano que serve de polo à produção de avocados, rumo aos EUA.

Ladrões armados estão tomando por alvo esse setor, que movimenta bilhões de dólares e vem crescendo rapidamente. 

A alta nos crimes relacionados a avocados transformou partes de Michoacán em áreas a que nem a polícia se arrisca a ir.

Policial com rosto coberto e arma vigia campos de avocado
Guarda municipal faz patrulhas em plantações de avocado na cidade de Tancítaro, no México - Brett Gundlock/NYT

“Tentamos trabalhar com o governo [para combater o crime], mas até mesmo eles têm medo, e existem algumas áreas a que não arriscam ir”, disse Juan, cuja família tem duas plantações perto de Uruapan, a cidade que serve como centro à produção de avocados no estado.

Ele não permitiu que seu nome real fosse publicado por medo de retaliação.

A demanda por avocados dispara na época que antecede o Super Bowl, o maior evento esportivo do país, e o México despacha 127 mil toneladas de avocados aos Estados Unidos no período que antecede o jogo.

A produção geral da fruta está crescendo, depois de atingir 1,09 milhão de toneladas na temporada 2018-2019, uma alta de quase 4% ante a safra de 1,05 milhão de toneladas obtida em 2017-2018. 

As exportações subiram 5,4% na temporada passada.

As vendas aos Estados Unidos, o maior importador de avocados mexicanos, geram receita anual de quase US$ 2 bilhões, e boa parte dela fica com pequenos proprietários rurais.

“Onde há dinheiro é para onde os maus sujeitos vão. Com toda a publicidade de que as coisas vão indo muito bem para nós —este será o sexto ano em que os avocados mexicanos serão promovidos por meio de um comercial no Super Bowl—, isso atrai atenção em nossa direção”, disse Juan.

A atividade criminosa em torno dos avocados exibe semelhanças notáveis com a que surge em torno dos “minérios de conflito”, a exemplo do tântalo, do tungstênio e do ouro, disse Christian Wagner, analista da consultoria de risco Verisk Maplecroft para as Américas. 

“Como o controle exercido pelas autoridades do México é tão baixo, se eles [os grupos criminosos] perceberem uma oportunidade, começarão a agir. Os avocados podem se tornar uma commodity de conflito”, disse.

Até recentemente, a principal fonte de receitas relacionada aos avocados dos grupos de crime organizado mexicanos era a extorsão —eles exigem dinheiro dos agricultores pela proteção que oferecem.

Mas a forte queda no preço da pasta de ópio no México forçou o crime organizado a se diversificar, de acordo com analistas.

Os criminosos se dedicam cada vez mais a roubar cargas da fruta que estão a caminho de exportação. 
“O que os motiva são as margens de lucro. Eles têm uma capacidade impressionante de investir e de ingressar em novas áreas de atividade”, afirmou Wagner.

A alta nos crimes relacionados a avocados fica, assim, indiretamente ligada à crise dos opiáceos nos Estados Unidos. 

O uso crescente pelos americanos do fentanil, um opiáceo sintético criado para aliviar dores, causou uma queda no preço da heroína, o que por sua vez derrubou o preço do ópio mexicano, de acordo com Nathaniel Morris, que pesquisa sobre história mexicana moderna no University College de Londres e é coautor de um relatório sobre a ascensão do fentanil nos EUA e a crise do ópio no México.

Os preços do ópio desabaram no México de 2017 a 2018, com o valor por quilo se reduzindo a 25% da cotação anterior em algumas das principais áreas de produção, de acordo com a rede de pesquisa Noria.

“[A queda do preço do ópio] está ajudando a fomentar ainda mais a expansão [das quadrilhas criminosas] no setor de avocados, e com isso os efeitos negativos que a presença delas gera”, disse Morris.

A violência crescente chega a ameaçar o fluxo de avocados para os Estados Unidos. 

O Departamento da Agricultura americano suspendeu temporariamente no ano passado as inspeções que realiza na região de Uruapan, depois de repetidas ameaças aos seus trabalhadores.

Violações de segurança ou ameaças físicas futuras podem resultar em suspensão das inspeções, o departamento afirmou em uma carta enviada em setembro à Apeam, a associação mexicana dos produtores e empacotadores de avocados.

Trabalhar com avocados se tornou tão perigoso que diversos municípios contrataram serviços privados de segurança para proteger cidades, disse Juan.

“Em Uruapan, só existem 130 policiais. Não são suficientemente treinados e seu número não é o bastante.”

Ainda assim, para os pequenos proprietários rurais de Michoacán, os avocados oferecem receita muito necessária. 

Se não fossem os 30 mil pequenos produtores de avocados, Michoacán teria problemas sérios de migração, crime e pobreza, disse um executivo de uma companhia de produção de avocados, que não permitiu que seu nome fosse publicado.

Comprar avocados ajuda as famílias e os pequenos produtores. Sem isso, eles ficam à mercê dos grupos criminosos, segundo ele.

Tradução de Paulo Migliacci
 

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