Só estou aqui porque preciso, diz trabalhador na praça da informalidade em Salvador

Área com menos de mil metros quadrados vira polo de ambulantes no centro da cidade baiana

O designer de sobrancelhas Ismael de Jesus, que atende na praça do Relógio, ponto que reúne trabalhadores informais em Salvador Raul Spinassé/Folhapress

Salvador

Nem bem os primeiros raios de sol aparecem e a praça começa a despertar, por volta das 5h30. Os primeiros a chegar são vendedores de café, com seus típicos carrinhos cheios de garrafas térmicas.

Quando os trabalhadores começarem a chegar, a maioria deles vindos de bairros distantes da periferia de Salvador, terão os seus primeiros clientes que pagarão R$ 1 por um copo de café para aplacar o sono.

Na sequência chegarão os vendedores de camisas, cuecas, calcinhas, bolsas, ursos de pelúcia, suco de laranja, açaí, mingau, biscoitos, frutas.

E prestadores de serviços como conserto de celular, aferição de pressão e até mesmo design de sobrancelhas. Tudo em um espaço que não chega a mil metros quadrados.

Encravada em uma das áreas mais movimentadas de Salvador, a praça Barão do Rio Branco —mais conhecida como Relógio de São Pedro— tornou-se o epicentro da informalidade na capital baiana. 

Ali, no entorno do histórico relógio que está lá desde 1916, instalam-se todos os dias hordas de vendedores ambulantes em busca de seu ganha-pão.

A situação reflete o cenário econômico do Brasil. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que o país fechou 2019 com 38,4 milhões de trabalhadores na informalidade —41,4% da população ocupada, recorde na série histórica.

Na Bahia, esse número é ainda maior. Dados do 3º trimestre de 2019 (ainda não há dados estaduais fechados do ano) apontam que 54,3% da população ocupada está na informalidade, o que faz do estado o sexto com a maior proporção de informais entre as 27 unidades da Federação.

Em geral, o perfil dos trabalhadores por conta própria se repete: são pessoas que já trabalharam com carteira assinada, ficaram desempregadas e foram buscar na informalidade o sustento de suas famílias.
Também estão nos extremos geracionais: ou são jovens que nem sequer conseguiram o primeiro emprego ou são trabalhadores acima dos 45 anos, que ficaram desempregados e não conseguiram se recolocar no mercado. Alguns deles são aposentados que precisam de um complemento de renda. 

Edimário Jesus Andrade, 52, é um dos mais antigos na praça: trabalha ali desde 1998. Antes, atuava construção civil. Mas ficou desempregado e se fixou no Relógio d e São Pedro, onde comercializa cuecas.
Nos últimos três anos, viu o número de ambulantes crescer de forma exponencial. 

“Devido ao desemprego que corre no país, o pessoal também procura como sobreviver, né? Olha como está a praça, cheia de gente trabalhando. A concorrência aumentou muito”, afirma Edimário, que rechaça ser chamado de empreendedor: “Só estou aqui porque preciso”.

Um dos vendedores que se instalaram na praça mais recentemente é Francisco da Hora, 60, sempre um dos primeiros a chegar.

Francisco Hora, que já teve uma confecção em Salvador e hoje vende roupas na praça - Raul Spinassé/Folhapress

Ele foi dono de uma pequena confecção em Salvador, mas não conseguiu manter a empresa de pé com a queda nas vendas e o aumento de gastos com impostos e funcionários. Hoje, arma seu toldo na praça, onde pendura camisas em araras e em manequins de loja. E reclama da economia estagnada.

“Eu vejo falar que o comércio está crescendo, o emprego está crescendo. E aí mostram um cara fabricando coxinha dentro de casa. Isso é crescimento? Isso é piada”, afirma Francisco.

Sob a sombra de uma árvore, Rosimeire Santos, 49, veste um jaleco e é conhecida pelos outros ambulantes como “a doutora”. Com formação de técnica em enfermagem, ela presta serviços de aferição de pressão e medição de glicemia no meio da praça.

Até 2017, ela trabalhava em uma clínica particular e chegou a atuar com instrumentação cirúrgica. Foi demitida após uma série de cortes de funcionários na clínica. Sem opção, foi trabalhar na rua. 

“Eu gosto. Aqui, estou fazendo um trabalho diferente, faço acompanhamento de pacientes diabéticos”, diz Rosimeire, que já tem sua clientela fiel.

A técnica em enfermagem Rosimeire Santos checa a pressão de cliente - Raul Spinassé/Folhapress

Do outro lado da praça, sete pequenos toldos são armados praticamente lado a lado. Embaixo, são instaladas cadeiras de salão de beleza onde homens e mulheres se revezam para cuidar das unhas e sobrancelhas. 

Com a concorrência acirrada, cada qual faz seu marketing. Uma placa diz: “A mulher com sobrancelha feita não quer guerra com ninguém”. 

Ismael Rocha de Jesus, 31 anos, já trabalhou na indústria leiteira e em uma fábrica de refrigerantes. Desempregado, passou a vender água e picolé dentro dos ônibus de Salvador até descobrir o design de sobrancelhas. 

Fez curso, mas, sem condições de montar seu próprio negócio, começou a prestar o serviço no meio da praça. 

“Sou detalhista, não posso ver uma falha na sobrancelha que procuro ajeitar”, afirma Ismael, que também usa as redes sociais para mostrar seu trabalho e atrair mais clientes. 

A procura é grande e, nas primeiras horas da manhã, já havia uma pequena fila de espera. A rotina, contudo, costuma ser extenuante: chega às 6h e deixa o local ao anoitecer, trabalhando de 10 a 12 horas por dia.

Perto de meio-dia, a praça é tomada pelos vendedores de quentinhas. Mesas dobráveis e bancos são espalhados por ali, criando uma espécie de restaurante a céu a aberto. O cardápio é simples: arroz, feijão, macarrão, salada e uma carne ou frango. 

Com o baixo poder aquisitivo de quem circula e trabalha na região, a solução dos vendedores foi diminuir o tamanho das quentinhas. Em vez da tradicional embalagem redonda, a comida é vendida em embalagens de isopor do tamanho de um sanduíche. Cada uma sai por R$ 5. 

 

Em geral, todos os vendedores dividem uma apreensão: a perspectiva de serem retirados do local. A avenida Sete de Setembro, onde fica a praça, está passando por uma reforma de todo o seu calçamento. E a expectativa é que, com a conclusão da obra, os ambulantes sejam realocados nas ruas transversais. 

O secretário municipal de Ordem Pública, Felipe Lucas, diz que os ambulantes já licenciados serão transferidos para os 13 camelódromos já existentes na região. E afirma que a prefeitura vai tentar identificar novas áreas da cidade para emitir licenças para os novos ambulantes.

“É natural que, neste cenário de desemprego, as pessoas busquem o mercado informal como alternativa. Mas vamos fazer um ordenamento para desafogar a praça e as calçadas, onde hoje há uma dificuldade de mobilidade”, diz. A perspectiva de sair da praça desanima os vendedores.

“Se aqui na praça, onde passa muita gente, já está difícil vender, imagina nos becos?”, lamenta o vendedor Francisco da Hora.

Apreensivos, os ambulantes contam os minutos, mas nos próprios telefones celulares. Quebrado, o relógio que dá nome à praça simboliza a vida daqueles que estão no seu entorno: ponteiros travados, sem um norte e sem um caminho seguro a percorrer.

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