Retração no ano passado deixa indústria mais distante de seu pico, em 2011

Retomada no consumo das família ainda não consegue dar fôlego ao crescimento do setor

São Paulo e Rio de Janeiro

Depois de avançar por dois anos consecutivos, a produção industrial brasileira recuou em 2019, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados nesta terça-feira (4).

Enquanto o setor teve crescimento de 2,5% e 1% em 2017 e 2018, respectivamente, no ano passado houve retração de 1,1%. Economistas ouvidos pela agência Bloomberg projetavam uma queda de 0,8% no período.​

A retração deixa a indústria um pouco mais distante de seus melhores momentos, no início da década.
Segundo o diretor-geral da Fator Administração de Recursos, Paulo Gala, o resultado atual mostra que a produção industrial é 20% menor do que o seu pico atingido em 2011.

"É algo catastrófico, se você pensar que se passaram quase dez anos e não conseguimos retomar o patamar de produção industrial. Então é uma das maiores desindustrializações da história recente", disse.

Gala afirmou que hoje o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil está dependente do setor de serviços e que essa pequena recuperação que há na economia brasileira não tem nada a ver com o setor industrial.

"As famílias conseguem consumir um pouquinho mais. Os empresários, apesar de estarem mais otimistas, não estão investindo. Seja construindo novas fábricas ou adquirindo as máquinas."

A queda do ano passado é reflexo especialmente do mau desempenho da indústria extrativa, cujo recuo, no acumulado do ano, chegou a 9,7%. O rompimento da barragem de Brumadinho (MG), tragédia que resultou em 249 mortos e 21 desaparecidos, contribuiu para a queda.

A retomada desse segmento específico deve vir só a partir de abril, mas se consumada, poderá trazer um desempenho bem melhor do que o de 2019.

"Esperamos que essa recuperação venha a acontecer no segundo trimestre de 2020. Prevemos esse ano com crescimento em torno de 5% da indústria extrativa mineral", disse Ricardo Jacomassi, economista e sócio da TCP Partners.

Mesmo esse segmento extrativo tendo puxado o retrocesso de todo o setor no ano passado, os especialistas lembram que a difícil retomada não está só nessa área. Dados do IBGE mostram que, retirado o peso da indústria extrativa, o desempenho industrial se manteria quase na nulidade, em pequeno avanço de 0,2%.

"O problema não é localizado, mas generalizado. Ao longo do ano, mais da metade das atividades pesquisadas pelo IBGE tiveram perdas", afirmou ​Rafael Cagnin, especialista do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

Segundo os dados divulgados nesta terça-feira, 16 das 26 atividades analisadas pelo instituto recuaram, com destaque para metalurgia, celulose e papel e manutenção de máquinas.

Essa apatia da indústria brasileira acompanha, em parte, a lenta retomada da atividade econômica doméstica e também contratempos no mercado externo, afirmaram os especialistas.

As vendas de produtos industrializados para o exterior, por exemplo, sofreram com a crise argentina.
O Brasil, que tem uma pauta forte de vendas de manufaturas para o país vizinho, viu suas vendas a ele recuarem 35% no ano passado em relação a 2018, segundo dados do Ministério da Economia.

No caso do mercado interno, os juros cobrados do consumidor até caíram, mas não na mesma velocidade e intensidade da Selic (a taxa básica de juro).

Além disso, a retomada do mercado de trabalho segue lenta, com a maioria das vagas geradas sendo informais e com rendimentos menores.

Sob esses aspectos, a economia brasileira estaria ganhando fôlego por meio do consumo das famílias, que ainda não é suficientemente grande para reduzir ociosidade das indústrias.

Não à toa, bens de consumo são os itens que apresentam crescimento nos dados do IBGE.

A previsão para 2020 é retomada, mas de forma tímida, uma vez que há, tanto no cenário interno quanto no externo, incertezas que devem travar um melhor desempenho do setor. Essa foi a avaliação de especialistas ouvidos pela Folha.

"Ano passado foi um tropeção na trajetória. Neste ano devemos ter um retorno no crescimento, com o resultado um pouquinho melhor", disse Cagnin, do Iedi.

"Vimos ao longos dos últimos anos problemas provocados pelo próprio governo brasileiro ou provocados por disputas comerciais entre Estados Unidos e China. Agora tentamos avaliar o impacto do problema sanitário chinês, e sabemos que eles são demandantes de produtos brasileiros. Então ainda há incertezas."

Se lá fora existe tensão comercial e política, além de crise sanitária (coronavírus), aqui também não falta indefinição que possa ameaçar desempenho industrial robusto. Um desalinhamento das pautas políticas no Brasil, entre as diferentes esferas em Brasília, também é um fator importante nessa equação.

"A recuperação da indústria em 2020 será tímida. Neste ano, no início, temos uma agenda do governo que não bate com a do Congresso", afirmou Ricardo Macedo, professor de economia do Ibmec.

"Como vimos na questão da Previdência, o Congresso tem sido dominante, e as coisas estão em ritmo mais lento. Não vejo uma reforma radical que eleve a produtividade da economia."

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