Segurança faz brasileiro continuar na renda fixa, dizem analistas

Queda da Selic derruba o rendimento de aplicações mais conservadoras

São Paulo

A queda da taxa básica de juros (Selic) de 4,5% ao ano para 4,25% ao ano, definida nesta quarta-feira (5) pelo Banco Central (BC), não deve gerar grandes mudanças na estratégia de investimento dos brasileiros. Segundo economistas, ela pode apenas acelerar marginalmente a fuga da renda fixa. 

Em 2019, com a queda de dois pontos percentuais da Selic, investidores tomaram mais risco para conservar a rentabilidade. Enquanto o mercado de renda variável cresceu, o Tesouro Direto e fundos de investimento em renda fixa tiveram captação líquida negativa, ou seja, saiu mais dinheiro do que entrou.

A poupança, que já tem rendimento real negativo, contudo, seguiu com captação positiva, ainda que menos expressiva. 

A poupança, investimento mais popular entre os brasileiros, rende a taxa referencial (TR), hoje zerada, mais 70% da Selic. Com o corte desta quarta, o rendimento da poupança cai para 2,975% ao ano, abaixo da inflação. O rendimento mensal fica em 0,247%.

Segundo o boletim Focus do BC, o mercado prevê a inflação oficial calculada pelo IBGE, IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), de 3,4% para 2020, o que deixaria o investimento real negativo em 0,425% no ano.

Esse cenário não é novo. A poupança tem rendimento real negativo desde novembro, com perda de 0,21% no mês, e se acentuou em dezembro, com perda de 0,88%.

Por não ser vantajosa no momento, a modalidade teve a menor captação desde 2016, quando houve saída líquida de R$ 40,7 bilhões, com saldo positivo de R$ 13 bilhões em 2019.

“O custo de deixar dinheiro na poupança é baixo, porque não há incidência de Imposto de Renda. Fora que ela representa uma segurança para o brasileiro que tem medo de perder o emprego”, diz Carlos Menezes, sócio da Gauss Capital.

Segundo Menezes, Tesouro e fundos já apresentam captação negativa por serem modalidades mais utilizadas por quem tem mais conhecimento do mercado. "Esse investidor é o primeiro a sair da renda fixa, por conhecer diferentes tipos de produtos e sua rentabilidade", diz.

"Além de mudança nos juros, precisamos mudar a educação financeira no país. Por desconhecimento, comodismo e receio, o brasileiro fica preso na poupança”, diz Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da FGV.

O professor avalia que o recente corte na Selic tende a acelerar a saída da renda fixa, porque, na margem, reduz a rentabilidade desse rendimento. "A migração para a renda vaiável, no entanto, não deve ser muito maior".

As projeções de captação nos produtos de investimento do Itaú, por exemplo, são as mesmas caso a Selic fosse mantida a 4,5% ao ano.

“A queda da Selic foi muito grande no ano passado e a maior parte da queda já aconteceu. O movimento de migração para renda variável começou antes disso e deve continuar independente do corte”, diz Martin Iglesias, especialista em investimentos do Itaú Unibanco.

Iglesias afirma que o brasileiro não saiu da renda fixa por completo, apenas passou a alocou uma parte de recursos em investimentos de enda variável, como fundos multimercado e ações. "O brasileiro vai continuar a investir em fundos pós-fixados e na poupança pela necessidade de resgatar o investimento no curto prazo”, diz.

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