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Apoiada no endividamento, recuperação econômica pode ter fôlego curto

Com rendimentos e produtividade do trabalho estagnados, retomada precisaria de mais investimentos das empresas industriais e comerciais para se sustentar

São Paulo

Destaque em 2019 e principal motor nas previsões de crescimento do PIB em 2020, o consumo das famílias vem ganhando impulso com o aumento do crédito.

A expansão brasileira, porém, ocorre em um cenário de mais endividamento familiar e de rendimentos e produtividade do trabalho estagnados.

O quadro sugere fôlego limitado para a recuperação. Ela precisaria contar com mais investimentos das empresas industriais e comerciais para se sustentar.

Ao contrário de saídas de crises anteriores, neste 2020 o governo deve continuar segurando o gasto público diante da crise fiscal e o país não contará com o chamado bônus demográfico –quando o crescimento da população em idade ativa (15 a 64 anos) é maior que o aumento populacional. Isso terminou em 2018. 

 
 
Linha de produção de motores em fábrica da Ford em Taubaté, interior de São Paulo - Diego Padgurschi - 25.abr.2018/Folhapress

O nível de consumo na economia —que responde por cerca de 65% do PIB— praticamente já voltou ao patamar do final de 2014, quando atingiu o seu pico.

Mas, como o desemprego cai apenas lentamente e o rendimento real do trabalho segue estagnado há um ano (em R$ 2.360, em média), o aumento do consumo é puxado pelo crédito —sobretudo para as famílias que ganham menos.

Nos últimos 12 meses, segundo o Banco Central, o crédito livre a pessoas físicas saltou 16,6% (com destaque para empréstimos pessoais, veículos e cheque especial) e atingiu R$ 1,1 trilhão.

Os financiamentos a empresas subiram bem menos, 11,4% em doze meses, chegando a R$ 872 bilhões.
Segundo o Institute of International Finance, de Washington, o Brasil só fica atrás da Turquia e da Rússia entre os países em que o aumento do crédito tem maior relação com o PIB —quanto mais financiamento ao consumo, maior o crescimento.

Embora tenha significado mais atividade comercial e ajudado a sustentar o PIB em 2019, as famílias vêm se endividando continuamente. Em dezembro, os brasileiros fecharam o ano com as maiores dívidas desde 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio.

Apesar de a taxa básica de juros (a Selic) estar em 4,25% ao ano, as famílias ainda pagam 165% ao ano, em média, no cheque especial e 317% no rotativo do cartão de crédito. Em um descuido, dívidas pequenas tornam-se impagáveis rapidamente.

Infelizmente, a alta do endividamento, a estagnação da renda com desemprego alto e o baixo investimento na expansão das empresas ocorrem em um cenário de estagnação da produtividade.

Isso significa que a produção de bens e serviços não cresce utilizando-se apenas os insumos e trabalhadores já disponíveis.

Pior, com o fim do bônus demográfico, o Brasil terá cada vez menos chance de elevar a produtividade colocando mais gente no mercado de trabalho.

Indicadores da FGV-Ibre sugerem que a lenta recuperação desde o fim da recessão, em dezembro de 2016, pode estar associada ao desempenho negativo da produtividade do trabalho –ela ficou estagnada durante todo 2018 e caiu nos três primeiros trimestres de 2019.

Os anos 2000 registraram o último grande período em que a produtividade subiu de forma importante no Brasil, levando a um período de maior crescimento do PIB e da renda.

Entre 2002 e 2010, o país foi beneficiado por um aumento nos preços das commodities que exporta, elevando em 25% nossos termos de troca (a relação entre preços de exportações e importações) —o que possibilitou importar mais produtos e tecnologia.

Naquele período, a produtividade brasileira cresceu 15% e a renda, 32%, segundo cálculos do economista Naercio Menezes, do Insper.

Para 2020 e em tempos de coronavírus, a grande dúvida é se o aumento do consumo via crédito gerará demanda suficiente no comércio e na indústria que exija mais investimentos.

E se isso acontecerá antes de as famílias se endividarem demais.

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