Descrição de chapéu Financial Times Coronavírus

BC europeu lança pacote de estímulo para combater impacto do coronavírus

Banco afrouxa ainda mais política monetária e planeja adquirir 120 bilhões de euros em títulos

Londres | Financial Times

O BCE (Banco Central Europeu) lançou um pacote de medidas para proteger a zona do euro contra as perturbações econômicas causadas pelo coronavírus, relaxando ainda mais a sua política monetária já muito frouxa, e planeja adquirir 120 bilhões de euros em títulos e oferecer mais empréstimos de baixo custo aos bancos.

No entanto, em seu primeiro pacote de estímulo monetário desde que Christine Lagarde se tornou presidente do banco, em novembro, o BCE manteve sua principal taxa de depósito inalterada em 0,5% negativo, já a marca mais baixa na história da instituição.

O BCE vai ampliar seu programa de relaxamento quantitativo, de compra de ativos, e comprar 120 bilhões de euros adicionais em títulos até o final do ano, acima e além de seu compromisso vigente de adquirir 20 bilhões de euros em títulos a cada mês.

O banco também informou que lançaria um novo programa de empréstimos de baixo custo a bancos a fim de encorajá-los a continuar fazendo empréstimos às pequenas empresas.

Economistas estimam que a escala do programa de relaxamento quantitativo do BCE deve subir a 33 bilhões de euros ao mês, até o final do ano.

Maior redução em três anos, medida busca driblar desaceleração no comércio mundial - Geoffroy Van Dwe Hasselt - 2.jul.19/AFP

Em uma entrevista coletiva depois do anúncio da decisão, na quinta-feira (12), Lagarde disse que o coronavírus representava “um grande choque” para as perspectivas de crescimento da zona do euro. Haverá perturbações significativas nas atividades econômicas, entre as quais especialmente uma desaceleração na produção e uma redução na demanda interna e internacional, ela disse, apelando por ação fiscal da parte dos governos.

“Uma resposta ambiciosa e coordenada de política fiscal é requerida a fim de apoiar as empresas e os trabalhadores em risco”, disse Lagarde, acrescentando que a difusão do vírus teria “impacto significativo” sobre a zona do euro e sobre as economias do planeta, ainda que o problema fosse “temporário por natureza”.

As novas medidas do BCE ajudariam a sustentar a oferta de crédito para a economia real, ela disse.
No entanto, Lagarde enfatizou que não acreditava que coubesse aos dirigentes de bancos centrais enfrentar por conta própria as consequências econômicas do coronavírus. “Só seremos capazes de enfrentar esse choque se agirmos juntos”, ela disse.

Perguntada se comparava o momento atual aos esforços de seu predecessor, Mario Draghi, para salvar a economia da zona do euro durante a crise das dívidas nacionais do bloco econômico, ela disse que “não quero ser a segunda pessoa a ter de declarar ‘farei tudo que for preciso’”.

Vem crescendo a pressão sobre o BCE para que aja, depois que o Banco da Inglaterra e o Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos, anunciaram cortes de taxas de juros como medidas de emergência, em resposta ao impacto econômico do coronavírus, nos últimos dias.

Carsten Brzeski, economista do banco ING, disse que “as medidas de hoje são uma tentativa de combater o tumulto nos mercados e dar apoio à economia. De maneira direcionada, e não como uma tentativa ao modo ‘tudo que for preciso’”.

A reação dos investidores ao pacote foi contraditória, com os mercados europeus de ações continuando a cair mas o euro se movendo pouco diante do dólar americano; o rendimento dos títulos alemães de dois anos subiu ligeiramente.

Andrew Kenningham, economista chefe para o mercado europeu da Capital Economics, disse que “embora essas medidas sejam bastante substanciais, não acreditamos que o BCE será capaz de mudar o sentimento dos investidores, da mesma forma que o Fed não foi, na semana passada”.

Perguntada se a reação imediata negativa dos mercados indicava que a resposta do BCE havia sido fraca, quando comparada à de outros bancos centrais. Lagarde disse que o banco central faria empréstimos aos bancos a uma taxa de 0,75% negativo, e adquiriria 120 bilhões de euros adicionais em títulos este ano, e acrescentou: “Não acredito que haja como rivalizar com isso no momento”.

Lagarde afirmou que as compras adicionais de ativos teriam por foco o mercado de títulos empresariais, porque “ele está desgastado” e vem causando “riscos para a estabilidade” —mas disse que o banco central manteria a flexibilidade em sua forma de compra de ativos.

O BCE afirmou em comunicado que “embora o conselho gestor não veja sinais materiais de desgaste nos mercados monetários ou escassez de liquidez no sistema bancário, essas operações oferecerão um sustentáculo efetivo em caso de necessidade”.

Em resposta a apelos dos bancos para que as autoridades relaxem as reservas de capital requeridas, a fim de absorver o impacto que se espera do vírus., o BCE disse que permitiria que as instituições de empréstimos “usassem integralmente suas reservas de capital e liquidez”, concebidas de maneira que permite erosão em períodos de desgaste.

O BCE, que fiscaliza os 117 maiores bancos da zona do euro, anunciou que “consideraria flexibilidade operacional na implementação de medidas específicas de fiscalização de bancos”.

O banco central anunciou que lançaria um novo programa de empréstimos de baixo custo a bancos, “a fim de oferecer apoio imediato à liquidez do sistema financeiro da zona do euro”, e para “oferecer um sustentáculo efetivo em caso de necessidade”.

As novas operações de refinanciamento de longo prazo (LTRO, na sigla em inglês) serão uma medida temporária até junho, quando o banco central planeja oferecer mais empréstimos a bancos sob seu programa existente de refinanciamento, mas com termos mais brandos.

As operações existentes de refinanciamento de longo prazo direcionado (TLTRO) serão tornadas “consideravelmente mais favoráveis”, com a oferta de empréstimos a bancos abaixo da taxa de juros já negativa do BCE, e podendo chegar a 0,75% negativo.

A decisão faz do BCE o primeiro dos grandes bancos centrais a operar com um sistema de “dupla taxa” como esse, que na prática significa subsidiar os bancos ao lhes emprestar dinheiro a uma taxa de juros inferior à que eles pagam para depositar dinheiro no banco central.

O BCE também elevará o valor que os bancos podem tomar em empréstimo e pretende adotar uma definição mais frouxa para as cauções que os bancos podem oferecer a fim de garantir empréstimos.

Holger Schmieding, economista chefe do banco de investimento Berenberg, disse que a decisão de manter inalterada a taxa de depósito fazia sentido, mas acrescentou que “isso eleva o risco de que o euro se valorize em um momento em que o Fed dos Estados Unidos parece pronto a cortar de novo sua taxa de fundos federais, por 0,5%, na próxima quarta-feira”.

Tradução de Paulo Migliacci

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