Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Companhia britânica é a primeira vítima do coronavírus entre as aéreas

A Flybe lutava para se manter à tona já antes do surto, mas os cancelamentos pioraram a situação

Ian Walker Trefor Moss
Nova York e Bruxelas | The Wall Street Journal

O coronavírus matou sua primeira grande companhia aérea, depois que a empresa britânica regional Flybe pediu falência, forçando o cancelamento de dezenas de voos em todo o Reino Unido.

A companhia, propriedade de um consórcio que inclui a britânica Virgin Atlantic, lutava financeiramente havia meses –muito antes da ampliação do surto do vírus. Seus acionistas aplicaram dinheiro nela até janeiro, e o governo britânico concordou em prorrogar o pagamento do imposto de passageiro aéreo para diminuir a pressão.

Mas um esperado pacote de resgate maior do governo não se concretizou, e uma queda recente nas reservas, relacionada ao vírus, fez os donos da Flybe se recusarem a investir mais.

Um porta-voz da Virgin disse que "o impacto do Covid-19 nos negócios da Flybe significa que o consórcio não pode mais se comprometer com um suporte financeiro continuado".

Todos os voos da Flybe –que faz principalmente rotas regionais pelo Reino Unido, incluindo muitas regiões menos servidas– e a transportadora irmã Stobart Air não decolaram no início da quinta-feira (5), abandonando os passageiros.

A Virgin, que é 49% propriedade da Delta Air Lines, disse que procurava opções para apoiar os cerca de 2.400 funcionários da companhia. No ano passado, a Flybe respondeu por cerca de 38% dos voos domésticos no Reino Unido, segundo a Associação Europeia de Companhias Aéreas Regionais.

Ela operava 139 rotas, servindo oito países, de 56 aeroportos. É um grande ator em algumas cidades médias da Grã-Bretanha, como Manchester e Birmingham, na Inglaterra, e Aberdeen, na Escócia.

Aviões da Flybe no aeroporto de Exeter, no sudoeste da Inglaterra - Geoff Caddick/AFP

Companhias aéreas do mundo todo foram atingidas pelo surto do vírus. Os viajantes estão cancelando voos e não reservam novos. Várias grandes companhias, incluindo a Nestlé, estão proibindo seus funcionários de embarcar em viagens de negócios, um dos maiores fatores de lucro da indústria.

Até recentemente, a maior parte dos problemas do setor se limitava à China, o epicentro do surto de vírus.

As companhias aéreas estacionaram os aviões e tomaram medidas drásticas de corte de custos. A Cathay Pacific Airways, principal companhia de Hong Kong, pediu que todos os funcionários tirem três semanas de licença não remunerada.

O problema agora se espalhou pela Europa e está chegando às praias dos Estados Unidos. A Deutsche Lufthansa, maior companhia da Alemanha, cortou os custos e a capacidade, incluindo um grande número de voos domésticos.

A Norwegian Air Shuttle, empresa transatlântica de baixo custo, disse na quinta-feira que estava cancelando 22 voos entre a Europa e os EUA e revendo sua previsão de lucros para o ano.

As reservas de voos para a Europa na última semana de fevereiro, quando houve o surto do vírus na Itália, caíram 79% em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a ForwardKeys, que acompanha dados de viagens. Na Itália, os cancelamentos superaram as novas reservas nesse período, segundo a empresa.

"Sofremos um grande golpe", disse Michael O'Leary, executivo-chefe da Ryanair Holdings, transportadora de preços baixos sediada em Dublim e maior companhia aérea da Europa, em uma conferência do setor em Bruxelas nesta semana. "O que eu prevejo são reservas muito reduzidas nas próximas duas a três semanas."

Além disso, as reservas vão depender de como o vírus se espalhará, disse ele.

Willie Walsh, executivo-chefe do Grupo Internacional de Companhias Aéreas Consolidadas, falando no mesmo evento, disse que os danos à indústria são diferentes da disrupção global das companhias aéreas depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

"O 11 de Setembro foi transatlântico, e a recuperação foi muito rápida", disse ele. "A situação com o coronavírus é muito mais dinâmica."

Pontuando a disseminação geográfica da pressão na indústria, a United Airlines Holdings, que já cortou os voos internacionais, disse no final de quarta-feira que também reduzirá os voos domésticos. Ela disse que diminuirá a capacidade interna em 10% e a internacional em 20% até abril, e que vai deixar estacionados alguns dos aviões maiores.

O HNA Group, dono da maior companhia chinesa, a Hainan Airlines, é outra vítima da epidemia, mas até agora conseguiu se manter no ar. Depois de passar três anos lutando para pagar dívidas enormes adquiridas durante uma série de aquisições globais mal planejadas, o grupo pediu que autoridades do governo assumissem o controle da companhia em 29 de fevereiro, culpando o coronavírus por derrubar seu programa de recuperação.

O HNA tem vendido ativos desde 2017, mas ainda tinha cerca de US$ 101 bilhões em dívidas no ano passado. O grupo esperava sobreviver enxugando as operações e mantendo ativos lucrativos como a Hainan Airlines, até que a epidemia fez a demanda por voos cair em janeiro e fevereiro, dizimando seu fluxo de caixa.

Não está claro o que as autoridades que supervisionam o HNA pretendem fazer agora, mas analistas de aviação dizem que poderão decidir dissolver o grupo endividado, vendendo a Hainan Airlines e outras unidades de aviação como a Hong Kong Airlines.

A última demitiu mais de 400 funcionários no mês passado e pediu que centenas de outros tirem licença não remunerada enquanto luta para continuar solúvel. No mês passado a Hainan Airlines foi uma de várias transportadoras chinesas que colocou pilotos estrangeiros em licença não remunerada indefinida. Nem o HNA nem a Hainan estavam disponíveis para comentar.

*Colaborou Daniel Michael, em Bruxelas.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.