Empresas reforçam delivery; entregadores temem riscos do coronavírus

Informais ficam vulneráveis mesmo com recentes anúncios de ajuda de aplicativos

São Paulo

As maiores empresas de delivery estão engajadas em oferecer auxílio aos entregadores cadastrados em suas plataformas e em intensificar campanhas de conscientização durante a pandemia do coronavírus.

A Uber, que entrega alimentos pelo Uber Eats, anunciou que qualquer trabalhador ou motorista diagnosticado com o Covid-19 receberá assistência financeira por até 14 dias. Não diz, entretanto, qual será o valor.

Para diminuir o contato físico entre cliente e entregador, a empresa também lançou a opção de “deixar o pedido na porta”. A orientação está na área de instruções de entrega do aplicativo.

O iFood destinará R$ 1 milhão a um fundo de solidariedade para entregadores que tiverem que fazer quarentena ou que contraiam o vírus. A Didi Chuxing, chinesa dona do aplicativo de corridas 99, lançou um fundo global de US$ 10 milhões com o mesmo intuito.

A Rappi também disponibilizará uma opção de entrega em domicílio sem contato físico e passou a incentivar o pagamento via app para diminuir a aproximação entre o entregador parceiro e o cliente final.

Apesar das medidas, entregadores tendem a ficar mais vulneráveis do que outros trabalhadores, a exemplo do que ocorreu em países que já passaram pelo surto da crise.

Mesmo com auxílio, eles não têm ajuda imediata se precisarem entrar em quarentena —atrasarão pagamentos e não receberão dinheiro para suas atividades diárias.

Entregadores de comida em São Paulo; trabalhadores informais estão mais expostos ao coronavírus
Entregadores de comida em São Paulo; trabalhadores informais estão mais expostos ao coronavírus - Folhapress

A legislação que regulamenta o transporte privado, de 2018, exige que contribuam para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), mas são poucos os que efetivamente contribuem. Para os que pagam a previdência, o problema pode ser na demora para a liberação do beneficio em caso de afastamento.

A perícia médica do INSS pode demorar e, caso o diagnóstico não se confirme, ele não receberá pelos dias em que não dirigiu. No Brasil, as decisões judiciais mais recentes de tribunais superiores, envolvendo iFood e Uber determinam que não há vínculo empregatício entre empresa e motoristas.

“Como existe o SUS, se o trabalhador tiver indícios de que está com coronavírus, o atendimento independe da relação de emprego. O problema é se ele foi identificado com o vírus e tiver que ficar de quarentena”, diz Renan Bernardi Kalil, procurador do trabalho e pesquisador do impacto de novas morfologias de trabalho na USP.

Evitar as ruas, neste momento, não parece ser uma opção. Grandes redes de restaurantes se preparam para aumentar o delivery diante da baixa no movimento em seus estabelecimentos.

"A demanda já aumentou. Agora dá para fazer 20 corridas à noite, antes eu fazia 15. É um risco que tem que correr. As contas não esperam", diz Leonardo Araújo, 27, entregador do iFood.

Parte dos motoboys e ciclistas —embora a entrega de comida também seja feita de carro e de patinetes— está mais interessada em dar conta da demanda do que em cobrar ações afirmativas de empresas, de acordo com Gilberto dos Santos, presidente do SindimotoSP.

“Se a contaminação de coronavírus subir para um número muito elevado, aí vamos pensar em puxar o freio de mão. Mas cabe ao governo tomar mecanismos diretos com empresas, mesmo que a gente não tenha vínculos com elas”, afirma Santos.

Há 250 mil entregadores de bicicletas e motocicletas em São Paulo, conforme estimativa do sindicato.

Mesmo que as relações trabalhistas da chamada “gig economy” —modelo que não prevê contratos tradicionais e cujas empresas de tecnologia operam como intermediárias, ligando oferta e demanda por meio de aplicativos—, ainda sejam questionadas em diversos países, especialistas sugerem maneiras solidárias de contornar a situação.

“A questão é monetária e social", diz Diogo Junqueira, advogado trabalhista e sócio do escritório Feijó Lopes. "Os motoristas são autônomos. Alguns deles, microempresários. Por outro lado, existe a intermediação. Ideal é fazer um trabalho conjunto."

Parcerias de apps com redes de saúde para eventuais descontos em exames ou mesmo a revisão das taxas pagas aos motoristas estão entre as recomendações.

Preços mais justos são um pleito dos entregadores mesmo em condições não estressantes como a de uma pandemia. Na atual situação, o valor recebido ganha peso porque torna-se quase inviável recuperar as perdas financeiras em um caso de quarentena.

“As empresas têm que ajudar a conscientizar o cliente. Porque vai dar nota baixa por um espirro, vai se sentir ofendido se o motorista chegar de máscara. Às vezes, podemos até ser bloqueados do aplicativo e aí paramos de trabalhar”, diz Denis Moura, presidente da Ampa-RJ (Associações de Motoristas por Aplicativo do Rio).

Nos EUA, onde a população já convive com os dilemas éticos de como pedir comida sabendo da vulnerabilidade de entregadores, a recomendação de especialistas é dar uma gorjeta, opção disponível no aplicativo.

"Não só ético, acho desejável pedir comida por aplicativo. São pessoas que, em sua maioria, não são do grupo de risco, e evitam que idosos saiam de casa para ir a um restaurante. A sociedade é mais bem servida com a existência desse serviço", diz Ivar Hatmann, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-Rio.

Quatro dicas ao pedir comida

  1. Opte pelo recebimento sem contato. No Uber Eats, vá em instruções de entrega e sugira que a mercadoria fique na portaria ou no local desejado. No Rappi, faça isso pelo chat

  2. Após receber o pacote, higienize as mãos imediatamente

  3. Configure para que os pagamentos sejam feitos pelo aplicativo, evitando contato com maquininha de cartão ou dinheiro

  4. Se puder, adicione um valor extra a ser pago ao motorista; faça via aplicativo

Delivery no Brasil em 2019

• 1,3 bilhão de visitas
• R$ 18,6 bilhões movimentados
• 23% de crescimento no tráfego

• Entregas por aplicativos: 27%
• Pela internet: 16%
• Pelo telefone: 56%

Fonte: Instituto Food Service Brasil

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