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Home office imposto pelo coronavírus rouba alegria e criatividade do cafezinho

Pandemia empolga entusiastas do trabalho remoto, mas o próprio Steve Jobs dizia que as ideias surgiam dos encontros nos corredores

Kevin Roose
Nova York | The New York Times

Escrevo no bunker de quarentena que improvisamos na sala de jantar de minha casa —estou de calças de moletom, há uma embalagem de desinfetante para mãos ao meu alcance e estou consumindo os salgadinhos da minha ração de emergência.

Consigo trabalhar bastante, mas a falta de estímulos começa a me enervar. Faz horas (dias?) que não interajo face a face com um ser humano que não seja parte de minha família e estou começando a me sentir irrequieto.

Entre os muitos efeitos do coronavírus, há um boom de pessoas cuja situação se parece com a minha: trabalhadores que foram expulsos de escritórios e precisam se aclimatar ao estilo de vida de quem trabalha em casa.

Embora a pandemia já tenha criado inconveniências (e muito mais) para milhões, em forma de restrições de viagem, temores sobre a saúde e confusão nos mercados, ele vem sendo um período empolgante, para alguns entusiastas do trabalho remoto. Eles argumentam que os trabalhadores em quarentena estão vislumbrando o nosso glorioso futuro livre de escritórios.

Ilustração de Cifras & Letras de 14.mar.2020 sobre home office para Cifras & Letras
Com pandemia, empresas impõem home office - Carolina Daffara

"Não foi assim que imaginei que a revolução do trabalho distribuído viesse a acontecer", escreveu Matt Mullenweg, presidente-executivo da Auttomatic, companhia de software que controla a plataforma para blogs WordPress.

Mullenweg, cuja companhia tem uma força de trabalho completamente distribuída, vê algo de positivo no coronavírus. Em texto publicado em seu blog, ele escreveu que "isso também pode oferecer a muitas companhias a oportunidade de, enfim, construir uma cultura que incorpore mais flexibilidade no trabalho, algo que já deveria existir".

Compreendo o ponto que ele está defendendo. Trabalhei remotamente por dois anos, algum tempo atrás.

Na maioria do tempo, eu era um defensor ferrenho do trabalho em casa e relatava a qualquer pessoa que quisesse ouvir os benefícios de evitar o escritório. Nada de trânsito! Nada de colegas de trabalho que prejudicam a concentração! Almoço em casa! Tudo isso é excelente.

Mas tenho pesquisados os lados positivos e negativos de trabalhar em casa para um novo livro sobre a sobrevivência humana na era da inteligência artificial e automação. E terminei por chegar a uma conclusão completamente diferente. A maioria das pessoas deveria trabalhar em escritórios, ou perto de outras pessoas, e evitar arranjos que as levem a trabalhar sozinhas em casa, sempre que possível.

Primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau trabalha de casa enquanto é monitorado para coronavírus. Sua esposa testou positivo - via REUTERS

Não me entenda mal. Trabalhar de casa é uma boa opção para pais com filhos pequenos, pessoas que sofrem de deficiências e para trabalhadores que não se acomodam bem ao esquema tradicional de um escritório. Não creio que deveríamos ignorar as diretrizes de saúde e forçar as pessoas a trabalhar em escritórios em meio a uma pandemia. E simpatizo com os milhões de professores, trabalhadores de restaurantes e outros profissionais para quem trabalhar de casa jamais foi uma opção viável.

Mas, para aqueles de nós que têm a sorte de trabalhar de casa, com ou sem o coronavírus, algumas palavras de cautela caem bem.

Os proponentes do trabalho remoto muitas vezes citam estudos que demonstram que as pessoas que trabalham em casa são mais produtivas, como uma pesquisa liderada por Nicholas Bloom, professor da Universidade Stanford, em 2014. O estudo que ele conduziu examinou trabalhadores remotos em uma agência de viagens chinesa e constatou que eles eram 13% mais eficientes do que seus colegas que trabalhavam em escritórios.

Mas pesquisas também demonstram que aquilo que os trabalhadores remotos ganham em produtividade eles muitas vezes perdem em benefícios mais difíceis de mensurar, como a criatividade e o pensamento inovador.

Estudos constataram que pessoas que trabalham juntas em uma mesma sala tendem a resolver problemas mais rápido do que as que colaboram remotamente e que a coesão das equipes sofre nos ambientes de trabalho remotos.

Steve Jobs, por exemplo, era conhecido por sua oposição ao trabalho remoto, acreditando que os melhores esforços dos funcionários da Apple vinham de encontros casuais entre eles nos corredores da empresa, e não de ficarem sentados em casa olhando a caixa de entrada do email.

"A criatividade vem de encontros espontâneos, de discussões aleatórias", disse Jobs. "Você encontra alguém, pergunta o que a pessoa está fazendo, diz 'uau', e logo ideias novas começam a fervilhar."

Estar perto de outras pessoas também permite que expressemos nossas qualidades mais humanas, como a empatia e a colaboração. Essas são capacidades que não há como automatizar. E são elas que produzem os contatos interpessoais significativos que nos fazem falta quando ficamos confinados em casa.

"Há um elemento de interação social que é verdadeiramente importante", disse Laszlo Bock, presidente-executivo da Humu, startup de recursos humanos no Vale do Silício.

Bock, que foi vice de recursos humanos do Google, disse que, para a maioria das pessoas, o ideal é encontrar um equilíbrio entre trabalho em escritório e remoto. As pesquisas de sua empresa constataram que o prazo ideal de trabalho em casa é de 1,5 dia por semana --o bastante para participar da cultura do escritório, mas com tempo para trabalho de foco mais profundo.

"O motivo para que as empresas de tecnologia tenham pequenas cozinhas e petiscos grátis não é que elas acreditem que as pessoas passarão fome, entre as 9h e o meio-dia", disse. "Mas é porque nesses espaços surgem aqueles momentos de inspiração."

Nos últimos anos, algumas empresas com forças de trabalho remoto consideráveis experimentaram maneiras de criar uma cultura de escritório entre pessoas distantes.

A Auttomatic, a empresa 100% remota de Mullenweg, realiza um retiro anual de seu pessoal, um fim de semana conhecido como "grande reunião", no qual todos os trabalhadores se reúnem no mesmo espaço para conviver e trabalhar em projetos conjuntos.

Se o coronavírus continuar a impedir as pessoas de ir ao escritório, mais empresas terão de testar táticas como essas a fim de ajudar a manter seus trabalhadores felizes.

Mas algumas pessoas talvez jamais se contentem com um cafezinho virtual.

"É uma decisão muito pessoal, que funciona para alguns e não para outros", disse Julia Austin, ex-executiva de tecnologia e professora na escola de administração de empresas da Universidade Harvard.

Como trabalhador de escritório e membro da geração milênio, deveria torcer pela revolução do trabalho remoto. Mas compreendi que não dou o meu melhor, como ser humano, se estiver usando calça de moletom e fingindo prestar atenção a videoconferências entre visitas à geladeira.

Vou ficar em casa enquanto meus patrões e as autoridades de saúde assim determinarem. Mas, honestamente, mal posso esperar para voltar ao trabalho.

Tradução de Paulo Migliacci

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