Investimento estrangeiro pode cair até 15% por coronavírus, diz braço da ONU

Órgão de comércio da organização aponta atraso em novos projetos e em fusões e aquisições

São Paulo

O surto e a disseminação do coronavírus pelo mundo podem reduzir em até 15% o fluxo global de investimento direto estrangeiro (IED) neste ano, de acordo com um relatório extraordinário da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

O documento divulgado neste domingo (8) analisou dois cenários de impacto nos fluxos globais de IED. O primeiro leva em consideração o controle da disseminação do vírus no primeiro semestre deste ano. Neste caso, a queda nos investimentos pode ser de 5%.

No cenário mais pessimista, caso a propagação do coronavírus continue ao longo de todo 2020, a expectativa é que o tombo seja de 15%.

Retrato de uma igreja com apenas um homem dentro. ele usa uma roupa de proteção e borrifa uma fumaça branca
Um homem desinfeta uma igreja na região central de Hubei, China - AFP

As projeções foram feitas na comparação com as previsões anteriores para 2020, que era de crescimento de até 5%, o que é considerado pela Unctad apenas uma alta marginal. Elas consideram também que o PIB (Produto Interno Bruto) global deve ser reduzido em 0,5% ou 1,5%.

Anúncios de investimentos em novos projetos devem ser atrasados, mas não cancelados em definitivo. Também devem ser adiados processos de fusões e aquisições.

 

Segundo a Unctad, dados de fevereiro já mostram uma queda significativa de aquisições de empresas por estrangeiros em todo o mundo. As operações concluídas movimentaram US$ 10 bilhões (R$ 46 bilhões), abaixo da faixa de US$ 40 bilhões (R$ 184 bilhões) a US$ 50 bilhões (R$ 230 bilhões) registrada em um fevereiro normal.

O motivo na retração dos investimentos, segundo o órgão da ONU, deve ser o choque global de demanda, que até a publicação do relatório era mais expressivo na China —o país colocou regiões inteiras em quarentena. No sábado, a Itália seguiu a medida chinesa de controle do vírus e também impôs restrições de circulação em parte de seu território.

A medida reduz o consumo e também a circulação de pessoas, com impacto direto sobre o turismo e companhias aéreas, setores que são considerados de gasto cíclico.

O documento aponta também um impacto significativo em países e indústrias que são dependentes das cadeias globais de valor, que tem como exemplo mais expressivo o setor automotivo.

Segundo o órgão, a crise causada pelo coronavírus pode acelerar uma tendência em andamento de redução de conexões nas cadeias globais de valor, em um desejo de companhias de tornar sua rede de suprimentos mais estável.

A Unctad aponta o grande número de empresas que já fizeram revisão em suas projeções de receitas e lucro por causa do coronavírus —ajustes anunciados até o momento foram considerados conservadores pelo órgão da ONU.

A revisão nas previsões de lucro foi maior entre montadoras (-44%), seguida de companhias aéreas (-42%) e pelos setores de energia e commodities (ambos preveem lucrar 13% menos).

O problema, segundo o órgão, é que a lucros menores têm efeito de longo prazo sobre investimentos.

De acordo com o relatório, na maior parte dos países mais afetados pelo coronavírus, o reinvestimento de lucros responde por 40% de toda a entrada de investimento direto estrangeiro.
 

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