Descrição de chapéu Coronavírus

Medidas do BC dão sobrevida a empresas, afirma economista

Para Werlang, testagem em massa da população daria dados também para planejar o tratamento econômico da pandemia

São Paulo

O pacote de crédito do governo vai na direção certa, embora talvez possa ter pouco dinheiro, acredita o economista Sergio Werlang, da FGV do Rio.

Para Werlang, o plano anunciado pelo governo nesta sexta (27) faz parte de um eixo essencial de providências a fim de mitigar a crise, entre elas a grande irrigação do sistema financeiro promovida pelo Banco Central e o auxílio para trabalhadores informais, autônomos e sem renda em geral.

Werlang enfatiza que o debate da crise tem de ir além. Para o economista, o isolamento é agora sem dúvida necessário, por um tempo ainda difícil de estimar. Mas é preciso um limite.

Sergio Ribeiro da Costa Werlang, ex-diretor do Banco Central
Sergio Ribeiro da Costa Werlang, ex-diretor do Banco Central - Danilo Verpa/Folhapress

“O que temos que implantar com muita rapidez é a testagem em massa, os testes de terapias alternativas.”

Para Werlang, a testagem daria informações para planejar também o tratamento econômico da pandemia.

O que achou do pacote de crédito do governo? Os recursos não poderiam ser 100% do Tesouro, mas com operação dos bancos, remunerados para conceder os empréstimos? Se fosse 100% do Tesouro, o incentivo seria pequeno para que as escolhas de repasse fossem minimamente prudentes. Como eu dizia ontem [quinta, 26], antes do anúncio do governo, sugeria que a parte do Tesouro fosse de 70% a 80%. Parte ou todo valor deve vir da União. Afinal, é um custo de todos nós.

Os empréstimos para micro e pequenas empresas deveriam ser a custo, grande parte diretamente do Tesouro. Dessa maneira, teríamos bancos emprestando sem spread por um prazo razoável, três meses. Mas o banco teria uma parte do empréstimo; 70% ou 80% deveriam ser do Tesouro.

No limite, a depender da severidade da crise, essa parte do Tesouro pode até mesmo ser perdoada [parte da entrevista foi feita antes do pacote de crédito do governo].

A linha de crédito cobre parte da folha das empresas. Mas, sem ter como cobrir outras despesas fixas, como sobreviver? Imagine uma empresa que tenha sido muito atingida, perdendo até 40% do faturamento. Sem ajuda extra, vai demitir e corre o risco de quebrar. Com essa linha, muito provavelmente sobrevive.

O exemplo de 40% do faturamento é aproximado e representa uma empresa que sofreu muito, mas não mortalmente.

Os bancos podem travar a operação, tendo de entrar com algum (com 15% e o risco de crédito correspondente)? Não acho. Os bancos vão escolher repassar para empresas que são suas clientes. Essas empresas já têm empréstimos com esse banco. Sem essa linha, é alta a probabilidade de ficarem inadimplentes e até mesmo quebrarem. Assim, os bancos terão um empréstimo pequeno (de 15% do valor) para dar fôlego à empresa.


E qual o montante desse dinheiro para pequenas e médias empresas? Os números sugeridos por você [R$ 115 bilhões] e por Vinícius Carrasco, Arminio Fraga e José Alexandre Scheinkman [R$ 120 bilhões] são próximos.

Em suma, é preciso cobrir os buracos, em particular da falta de faturamento das empresas, com carência razoável e prazos alongados, para atravessar o deserto. As outras muitas medidas do BC vão nessa linha, de fazer o crédito ajudar nessa travessia. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, já disse que o crédito não está empoçado e que haverá liquidez para os empréstimos. O sistema financeiro brasileiro é sólido e tem os recolhimentos compulsórios dos mais elevados no mundo.

De quanto tempo as empresas precisarão para pagar esses empréstimos da linha de emergência? Tudo depende do tempo de isolamento necessário. Na China foram cerca de dois meses e meio, mas a epidemia já estava muito avançada quando começou. O número de casos no Brasil está ainda muito variável, provavelmente pela disponibilidade ainda irregular de testes.

O sr. imagina um isolamento de quanto tempo? Difícil achar que dure menos de duas semanas. O isolamento por um tempo será necessário, é indiscutível. Precisamos de mais informação, para saber por quanto tempo mais vai durar. O Ministério da Saúde anunciou que vai distribuir muitos testes, talvez milhões.

A testagem em massa é a estratégia da Alemanha e mostrou-se eficaz. Em artigo no Estado de S. Paulo, Eduardo Bittencourt Andrade, da FGV/Ebape, mostrou a importância de testes em massa: saber qual a probabilidade de infecção ao redor das pessoas. As pessoas acabam por decidir ficar em isolamento, voluntário ou não, se sabem qual a probabilidade de infecção.

Assim, poderemos observar os efeitos do isolamento nas diversas localidades e decidir o que fazer, à medida que tivermos mais dados objetivos.

Como fica a discussão do efeito econômico do isolamento? A discussão do custo do isolamento versus o efeito econômico é fundamental, e até o início desta semana estava bloqueada. Proteger a saúde dos informais e autônomos a todo custo pode significar um enorme problema para essas pessoas no futuro.

O governo anunciou adiamento de impostos, suspensão de dívidas estaduais, renda mínima para informais, antecipação de seguro-desemprego e pagamento de benefícios sociais. O pacote é razoável? Essas medidas do Ministério da Economia estão na direção certa, mas depende muito da velocidade de implantação. Mas não foram todas as que foram tomadas.

O que mais foi feito? De fundamental importância e com tamanho bastante relevante são as medidas do Banco Central. Entre elas, cito:
1) liberação de liquidez de compulsório, compulsório adicional e da LCR (medida de liquidez curta);

2) empréstimo com lastro em Letra Financeira garantida, forma de o BC dar liquidez direta a um banco com garantia dos empréstimos do banco;

3) novo Depósito a Prazo com Garantia Especial; 4) empréstimo com lastro em debêntures (para comprar carteiras de fundos de crédito de gestoras independentes).

Entre outras medidas, como permitir rolagem de empréstimos sem afetar a provisão para devedores duvidosos por 60 dias e permitir que o colchão de capital requerido pela regra de Basileia 3 fosse flexibilizado, o que abre espaço para a concessão de empréstimos pelas instituições.

O volume total de liquidez que somente o BC colocaria na economia é de 16,7% do PIB, muito considerável.

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