Mesmo com estímulos de BCs, Bolsa cai mais de 5% e dólar sobe para R$ 5,136

Investidores aguardam pacote americano de US$ 2 trilhões

São Paulo

Apesar de grandes pacotes de estímulo de bancos centrais, índices acionários fecharam em queda pelo segundo pregão seguido nesta segunda-feira (23). A Bolsa brasileira caiu 5,2%, a 63.569 pontos, menor patamar desde julho de 2017. O dólar subiu 2,3%, a R$ 5,136, maior valor desde quarta (18), quando bateu o recorde de R$ 5,20.

Segundo analistas, o mercado foi frustrado pela dificuldade do governo de Donald Trump aprovar o pacote e estímulo econômico de cerca de US$ 2 trilhões em resposta à crise do coronavírus no Senado americano.

A medida, em debate na casa, foi barrada por democratas em duas votações. Eles alegam que o pacote é desproporcional por focar em companhias e teria que dar mais assistência a famílias e prestadores de serviço de saúde.

Operadores na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse)
Bolsas fecham em queda pelo segundo pregão seguido - Michael Nagle/Xinhua

Sem um acordo entre democratas e republicanos, Dow Jones caiu 3% e S&P 500, 2,9%. Nasdaq teve leve queda de 0,3%.

Segundo James Bullard, presidente do banco central de St. Louis, nos Estados Unidos, o coronavírus pode levar a taxa de desemprego americana para o recorde de 30%.

Para o banco Morgan Stanley, o desemprego pode ir para a média de 12,8% no segundo trimestre deste ano, quando a economia americana encolheria 30% e levaria o PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA em 2020 para o menor patamar em 74 anos.

De acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), o mundo vai passar em 2020 por uma recessão no mínimo tão ruim tão grave quanto a da crise global de 2008 ou pior.

A diretora-executiva do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou que espera recuperação em 2021, mas que para isso é preciso fortalecer os sistemas de saúde e priorizar a contenção do contágio no mundo todo.

Quanto mais rápido pararmos o coronavírus, mais rapidamente e com mais força nos reergueremos”, afirmou em comunicado divulgado depois de reunião entre ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo).

Na Europa, o índice Stoxx 50, que reúne as principais empresas da região, caiu 2,5%.

Nesta segunda, bancos centrais anunciaram grandes pacotes para prover liquidez aos mercados. Nos EUA, o Fed, banco central americano, anunciou expansão dos empréstimos, a juro próximo de zero, com o objetivo de desbloquear os mercados de crédito que travaram na semana passada.

O Fed também disse que as aquisições de títulos do Tesouro e hipotecárias que aprovou nos últimos dias são ilimitadas. Apenas nesta semana, serão comprados US$ 375 bilhões em títulos do Tesouro e US$ 250 bilhões em títulos hipotecários.

O banco central também anunciou que começaria a adquirir títulos comerciais lastreados por hipotecas emitidos por entidades garantidas pelo governo, que consistem basicamente de títulos de dívida caucionados por edifícios de apartamentos.

“Embora ainda exista grande incerteza, se tornou claro que nossa economia enfrentará grandes perturbações. Esforços agressivos devem ser realizados pelos setores público e privado a fim de limitar as perdas de empregos e renda e para promover uma recuperação acelerada quando as perturbações se forem”, disse o Fed.

Em movimento semelhante, o Banco Central (BC) do Brasil e o CMN (Conselho Monetário Nacional) autorizaram que bancos captem dinheiro por depósitos a prazo usando o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) como garantia, o que permitiria uma expansão da concessão de crédito em cerca de R$ 200 bilhões.

O CMN também autorizou que o BC conceda empréstimos a instituições financeiras garantidos em debêntures adquiridas entre 23 de março e 30 de abril de 2020.

O BC reduziu novamente a alíquota de depósitos compulsórios dos bancos de 25% para 17%, o que também ajuda a elevar a liquidez dos bancos. A estimativa é que a mudança resulte numa liberação de R$ 68 bilhões a partir do dia 30 de março.

De acordo com o presidente do BC, Roberto Campos Neto, todas as ações podem ter um impacto de R$ 1,2 trilhão.

"Os bancos centrais tornam a crise mais palatável, mas não acabam com a crise. O mercado entende e vê força essa atuação, mas entende que falta mais para que a situação seja resolvida", diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Em entrevista à imprensa para comentar as medidas, Campos Neto disse ainda que o banco tem um "arsenal muito grande na parte do câmbio, um poder de intervenção muito amplo", mas ressaltou que a moeda é flutuante.

Nesta segunda, o BC vendeu US$ 739 milhões em três leilões à vista para reduzir a alta do dólar, que chegou a R$ 5,143, mas fechou a R$ 5,136. O turismo está a R$ 5,35 a venda. Em algumas casas de câmbio, é vendido acima de R$ 5,41.

No domingo (22), o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) anunciou transferência de recursos do fundo do PIS-Pasep para o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), suspensão temporária de pagamento de financiamentos e ampliação do crédito para micro, pequenas e médias empresas, via bancos parceiros. As medidas totalizam R$ 55 bilhões.

Com o aumento de gastos pelo governo brasileiro para conter o coronavírus, piora a perspectiva fiscal do país, o que se reflete na alta do contrato de CDS (Credit Defautl Swap) de cinco anos. Nesta sessão, o ativo subiu 3,9%, a 358 pontos, patamar semelhante a junho de 2016, antes do Senado aprovar o impeachment de Dilma Rousseff (PT).

O CDS é um índice acompanhado pelo mercado financeiro para avaliar a capacidade de um país honrar suas dívidas. Quanto mais alto, maior a chance de calote. Neste ano, ele acumula alta de 258,8%, a maior valorização anual da história do índice, criado em 2001.

O gasto para enfrentar a pandemia do coronavírus no Brasil pode alcançar R$ 400 bilhões e o governo vai ter que colocar dinheiro para conter os efeitos econômicos e sociais da doença, afirmou nesta segunda o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

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