Descrição de chapéu The Wall Street Journal Coronavírus

Pedidos de seguro-desemprego chegam ao recorde de 3,28 mi nos EUA

Pandemia do coronavírus põe fim a 10 anos de alta no emprego

Eric Morath Jon Hilsenrath Sarah Chaney
Washington | The Wall Street Journal

Na semana passada, 3,28 milhões de trabalhadores americanos solicitaram benefícios de desemprego, um número recorde, dado o efeito do novo coronavírus sobre a economia, o que pôs fim a 10 anos de expansão no nível de emprego dos Estados Unidos.

Os pedidos iniciais de benefícios de desemprego subiram a 3,28 milhões na semana encerrada em 21 de março. O nível semanal excedeu por muito o recorde semanal anterior, de 695 mil, registrado em outubro de 1982.

O nível recorde de pedidos surgiu durante uma semana na qual muitas empresas americanas anunciaram demissões e diversas autoridades municipais e estaduais ordenaram o fechamento de negócios não essenciais, em resposta à pandemia do coronavírus.

A grande máquina americana de criação de empregos estacou, como resultado da pandemia.

Homem caminha pelas ruas do Brooklyn, em Nova York - Caitlin Ochs/Reuters

Até março, os empregadores americanos vinham aumentando o número de postos de trabalho disponíveis há 113 meses consecutivos, o que resultou em um crescimento de 22 milhões no número de pessoas empregadas nos Estados Unidos. No processo, milhões de pessoas —entre as quais trabalhadores horistas de baixa remuneração, pessoas deficientes, minorias, ex-detentos e outros— encontraram trabalho.

O índice de desemprego, que foi de 3,5% em fevereiro, era baixo como não se via desde a década de 1960. Os salários haviam começado a crescer, nos dois últimos anos, depois da inércia registrada nos anos iniciais da expansão que se seguiu à recessão de 2007-2009.

A força do mercado de trabalho manteve a economia dos Estados Unidos em expansão por uma década —apesar da crise da dívida nos países da zona do euro, do tsunami no Japão, da desaceleração na economia da China, da queda na produção industrial nacional, da instabilidade nos preços da energia e de uma guerra comercial internacional.

E de repente, em questão de dias, tudo mudou.

Milhões de americanos, já temerosos de que o novo coronavírus os infectasse, ou às suas famílias, agora têm duas novas preocupações: quando a máquina de criação de empregos recomeçará a funcionar? E eles conseguirão se aguentar até que isso aconteça?

“Não vimos uma queda livre dessa ordem no passado”, disse Keith Hall, antigo diretor do Serviço Orçamentário do Congresso e assessor do então presidente George W. Bush. “Nem mesmo durante a Grande Depressão... foi como uma Grande Recessão instantânea”.

Hall disse que o índice de desemprego pode se aproximar nos próximos meses dos 20% que alguns economistas calculam tenham sido atingidos durante a Depressão. Carl Tannenbaum, economista chefe da Northern Trust, disse que se metade dos trabalhadores nos setores mais atingidos, como restaurantes, varejo e serviços pessoais, perderem o emprego, o índice de desemprego pode subir em 10 pontos percentuais, para mais de 13%. Isso ficaria bem acima dos 10,8% que representam o maior desemprego no país depois da Segunda Guerra Mundial, atingidos no final da recessão de 1981-1982.

Jacqueline Martin, massagista que trabalha em Albuquerque, no Novo México, tipicamente atende a 16 clientes por semana, e cobra US$ 50 por uma sessão de meia hora. Ela não trabalhou durante boa parte deste mês e não tem direito a benefícios de desemprego, sob os programas existentes.

“Massagem é toque, e é pelo toque isso está se espalhando”, disse Martin. “Não posso fazer massagens via Skype”.

Se o país conseguir voltar aos negócios rapidamente, restaurantes, companhias de aviação, hotéis e outros talvez recontratem de imediato os trabalhadores que tiveram de demitir ou licenciar durante o choque.

Com ajuda de programas de apoio do governo, entre os quais o programa de resgate de US$ 2 trilhões que está sendo debatido no Congresso, o índice de desemprego poderia hipoteticamente disparar e em seguida recuar. Foi o que aconteceu na década de 1980, diferentemente dos longos períodos de desemprego alto registrados na década de 1930 e depois da crise financeira de 2007-2009.

Mas outros cenários são possíveis. Se o número de infecções e mortes associadas ao coronavírus crescer descontroladamente, o distanciamento social —o que significa combater a difusão do vírus ao manter um espaço de pelo menos dois metros com relação a outras pessoas, evitar saídas desnecessárias e não participar de ocasiões sociais com mais de 10 pessoas— poderia prolongar as dificuldades econômicas.

Mesmo que o governo federal abandone sua adesão ao distanciamento social —o que o presidente Donald Trump indicou que está considerando—, as autoridades estaduais e municipais, e os indivíduos, podem ainda assim decidir que não lhes resta escolha.

A crise de caixa que está atingindo as empresas e domicílios pode induzi-los a novos cortes de despesas, o que resultaria em um ciclo de baixa que se autoalimentaria. Tudo isso poderia abalar a confiança das empresas e dos consumidores, causando cicatrizes econômicas duradouras. Voltar ao trabalho, portanto depende da rapidez com que o vírus seja controlado.

“Isso está acontecendo em velocidade estonteante, e é essa a causa de minha preocupação”, disse Tannenbaum. “O choque e o medo que os números do emprego podem causar talvez causem danos psicológicos ao país”.

Denzel Buie, 25, foi demitido de seu emprego sindicalizado no setor de construção sexta-feira, quando as autoridades locais ordenaram que todas as obras fossem suspensas, entre as quais a do edifício que ele estava ajudando a construir no Swarthmore College, na Pensilvânia.

Ele disse que isso seria um golpe sério para sua família, que inclui uma filha de três anos de idade. A mulher dele, que é secretária, foi dispensada na semana passada, quando o consultório do alergista em que ela trabalhava suspendeu temporariamente as operações.

“Não é como se eu pudesse conseguir outro emprego”, disse Buie. “Foi uma demissão em massa – todo o setor de construção da Pensilvânia parou de funcionar. Tudo que posso fazer é ficar em casa e rezar para não adoecer, porque, se tiver de ir para o hospital, será ainda mais uma conta a pagar”.

Uma semana atrás, disse, ele tinha “um bom emprego de classe média”, que lhe pagava US$ 35,50 por hora mais plano de saúde e de aposentadoria. Agora ele está enfrentando dificuldades para descobrir como pagar a conta de luz de US$ 300 e o aluguel de US$ 1 mil da casa em que mora. E também perdeu sua cobertura de saúde.

As grandes empresas relutaram inicialmente em promover demissões numerosas, em parte porque esperavam que o vírus passasse rapidamente e em parte porque não queriam abrir mão de seu pessoal. Encontrar e manter bons trabalhadores vinha sendo difícil, em um mercado de trabalho apertado.

Agora, a pressão por demitir vem crescendo, nos setores mais expostos. A divisão de turbinas a jato da General Electric anunciou na segunda-feira que demitiria 10% de seu pessoal nos Estados Unidos, ou cerca de 2,5 mil pessoas. Consultórios médicos não envolvidos no tratamento do vírus, entre os quais os de dentistas e fisioterapeutas, estão fechando as portas e dispensando seu pessoal. As pessoas que prestam serviços pessoais, como barbeiros, massagistas e faxineiros, estão vendo a evaporação de seus negócios.

O mercado de trabalho não está completamente no escuro, em parte porque as repercussões da crise se distribuem de modo desigual. Walmart, Amazon e as drogarias CVS Health estão entre a 10 ou pouco mais grandes empresas que estão em busca de 500 mil novos empregados nas próximas semanas. As companhias estão tendo de enfrentar uma alta na demanda por comida e outros produtos domiciliares, que vem causando transtornos em suas lojas e armazéns.

“Estamos contratando”, disse Jeff Stevenson, que dirige uma companhia de comércio de vinho que se concentra em vendas remotas, a VinoPRO. “Na quarta-feira, tivemos literalmente nosso melhor dia do ano em termos de vendas”.

Ainda que esses pequenos booms sejam animadores, os economistas não antecipam que eles possam compensar plenamente as pressões que milhões de outros empregadores enfrentam para demitir trabalhadores, à medida que suas vendas e fluxos de caixa se reduzem.

Joe Olivo é presidente da Perfect Communications, uma pequena gráfica comercial de Nova Jersey, que produz material de mala direta para universidades e organizações sem fins lucrativos e material promocional para o varejo. Em fevereiro, seus negócios iam muito bem.

O faturamento tinha crescido em 28% ante o mesmo mês um ano antes, e ele previa contratar mais cinco pessoas. Sob pressão para manter seu pessoal e responder ao aumento do salário mínimo no estado, ele concedeu aumentos de entre 2,5% e 11% para seus funcionários em 2019.

Mas de repente, em questão de dias, os pedidos caíram em 70%. Ele tinha calculado um faturamento de US$ 10 milhões para este ano, mas agora baixou essa estimativa para US$ 5,8 milhões, e boa parte desse dinheiro já entrou.

Esse faturamento não basta para cobrir os custos. Ele já demitiu cinco trabalhadores de tempo parcial e reduziu a jornada de trabalho dos outros 50 a 30 horas semanais. Disse aos bancos que o atendem que não vai conseguir manter em dia os seus pagamentos, este mês.

“Por enquanto os credores estão sendo compreensivos”, ele disse. Mas sem um fluxo de caixa, em breve será necessário tomar decisões difíceis sobre demitir mais gente. “Estou trabalhando ao máximo para evitar isso”.

Para milhões de trabalhadores, muito vai depender de se os programas federais e estaduais de assistência aos desempregos poderão se adaptar rapidamente e cobrir as imensas lacunas nos fluxos de caixa domiciliares enquanto o vírus recua.

Entre muitas outras medidas, o Congresso está considerando expandir a cobertura para incluir trabalhadores autônomos, como Martin. Mas os serviços estaduais de assistência a desempregados já receberam um volume de pedidos de assistência inédito.

Hall, o antigo diretor do Serviço Orçamentário do Congresso, está entre os economistas que antecipam que a economia venha a se recuperar em ritmo mais lento do que o de sua atual contração. Mas apontou para um motivo de esperança: o mercado de trabalho desafiou as expectativas no passado recente, atraindo uma proporção de americanos maior do que muitos esperavam para a força de trabalho e derrubando os índices de desemprego a um ponto que muita gente considerava impossível.

“Enganamo-nos constantemente”, ele disse. “Imaginávamos que o mercado de trabalho não tinha como continuar melhorando, mas melhorou. Vamos esperar que a alta da participação na força de trabalho se prove permanente e que, assim que passarmos por isso, as pessoas voltem ao trabalho”.

Tradução de Paulo Migliacci

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