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Ben Smith

Por que o sucesso do jornal The New York Times pode ser má notícia para o jornalismo?

Jornal se tornou como o Facebook ou o Google: um gigante digital que elimina a concorrência

Ben Smith
Nova York | The New York Times

Na primeira vez que encontrei A. G. Sulzberger, o publisher do The New York Times, tentei contratá-lo.

Foi nos tempos pioneiros da mídia digital, em 2014, e eu estava no BuzzFeed News, uma de um punhado de startups que se preparavam para varrer do campo canais históricos e agonizantes como o Times.

A ação do Times ainda vacilava, e a companhia tinha vendido tudo, menos os móveis, para continuar pagando pelo jornalismo.

Sulzberger, então provável herdeiro do comando do Times, recusou educadamente minha proposta. E hoje, depois de oito anos como editor-chefe do BuzzFeed, vejo-me empregado por ele como novo colunista de mídia.

Estou entrando no espaço aberto há uma década pelo falecido David Carr, colunista que fez a crônica de uma explosão de novos canais na internet. Meu enfoque provavelmente será o oposto: a consolidação de tudo, de cinema a notícias, enquanto a indústria de mídia é esvaziada pelas mesmas forças de ricos-ficam-mais-ricos, vencedores-levam-tudo que remodelaram os negócios, das companhias aéreas às farmacêuticas.

Retrato da fachada do The New York Times; em primeiro plano está um táxi amarelo
Fachada do escritório do The New York Times em Nova York, Estados Unidos - Carlo Allegri - 7.fev.2013/Reuters

E a história da consolidação na mídia é a história do próprio Times.

O abismo entre o Times e o resto da indústria é vasto e continua aumentando: a empresa hoje tem mais assinantes digitais que The Wall Street Journal, The Washington Post e os 250 jornais locais da Gannett juntos, segundo os dados mais recentes. E o Times emprega 1.700 jornalistas --um número enorme em uma indústria onde o emprego total em nível nacional caiu para algo entre 20 mil e 38 mil.

O Times domina tanto o negócio de notícias que absorveu muitas pessoas que antes o ameaçavam: ex-editores de Gawker, Recode e Quartz estão no Times, assim como muitos repórteres que fizeram do Politico um site essencial em Washington.

Eu passei toda a minha carreira competindo com o Times, por isso vir trabalhar aqui parece um pouco uma desistência. E temo que o sucesso do Times esteja eliminando a concorrência.

"The New York Times será basicamente um monopólio", previu Jim VandeHei, fundador do Axios, que começou em 2016 com planos de vender assinaturas digitais, mas ainda não vendeu. "O Times vai ficar maior e o nicho, mais fechado, e nada mais sobreviverá."

Janice Min, ex-editora da US Weekly que reinventou The Hollywood Reporter, disse que o mix de conteúdo cada vez mais amplo do Times representa um obstáculo formidável para outras empresas de assinatura digital.

"Como estamos falando do negócio editorial, tudo ainda é meio triste, mas neste universo paralelo as pessoas falam sobre The New York Times do modo como o pessoal de Hollywood ainda fala sobre o Netflix", disse Min. "É a cauda que anima o cachorro, e também é o cachorro."

A ascensão do Times de gigante ferido a colosso reinante foi tão incrível quanto a de qualquer startup. Ainda em 2014, a publicidade impressa estava desmoronando, e a ideia de que assinantes pagariam o suficiente para sustentar a dispendiosa obtenção de notícias globais pela companhia parecia um sonho fantástico.

"Vendemos tudo o que podíamos vender na empresa para manter nosso investimento em jornalismo tão constante quanto era humanamente possível", disse-me Sulzberger numa entrevista na semana passada.

Ele se tornou ​publisher do Times em 2018. "Todas as pessoas inteligentes na mídia acharam que era loucura, todos os nossos acionistas acharam que era irresponsabilidade financeira."

Apenas alguns anos depois, em meio a uma crise cada vez mais profunda no jornalismo americano, e um ataque constante do presidente dos Estados Unidos, a ação do Times se recuperou para quase o triplo do que valia em 2014, e a redação acrescentou 400 empregados. O salário inicial da maioria dos repórteres é de US$ 104.600 [anuais].

O jornal hoje está silenciosamente procurando dominar uma indústria adjacente: a de áudio. O Times está em negociações exclusivas para comprar a Serial Productions, o inovador estúdio de podcast que atraiu mais de 300 milhões de downloads.

A aquisição exige bolsos fundos: a Serial estava à venda por aproximadamente US$ 75 milhões, segundo duas pessoas inteiradas do negócio, mas o Times deverá pagar um valor significativamente menor. (The Wall Street Journal relatou primeiro, no mês passado, que a Serial estava à venda.)

O negócio, juntamente com The Daily, o popular podcast do Times nos dias de semana, poderá formar a base de um ambicioso novo produto pago —como os apps de Cozinha e de Palavras-cruzadas da companhia— que os executivos acreditam que poderá se tornar a HBO dos podcasts.

Quando conversei com Sulzberger na semana passada, lembrei-me de outras figuras nesta economia digital que experimentaram sucesso em escala e velocidade atordoantes, e ainda não conseguem acreditar quando você pronuncia a palavra "monopólio".

Ele vê muita concorrência para o Times —citou as notícias a cabo, embora seu futuro seja incerto. Além disso, afirmou, os americanos vão comprar mais de uma assinatura de notícias. Ele acredita que o Times não está tanto dominando o mercado, quanto criando um.

"O que eu realmente acho que você está vendo não é uma dinâmica de o-vencedor-leva-tudo —o que você está vendo realmente é um dinamismo de maré crescente que levanta todos os barcos", disse Sulzberger (que sem dúvida teria florescido naquele emprego de produto de nível médio que eu lhe ofereci).

Seu otimismo é compartilhado, pelo menos publicamente, pelo pequeno punhado de organizações noticiosas que estão se virando com assinaturas locais.

"O Times mostrou ao resto da indústria um caminho para certo sucesso", disse Brian McGrory, editor do The Boston Globe, que atraiu mais de 100 mil assinantes digitais.

Os executivos do Times dizem que também estão procurando um modo de ajudar seus primos mais fracos, já que o colapso do jornalismo local representa uma ameaça para a democracia.

"Mas, como eles dizem nos aviões, vista sua máscara de oxigênio antes de começar a ajudar os outros", disse Mark Thompson, executivo-chefe do jornal.

Como o Times hoje obscurece grande parte do setor, as batalhas culturais e ideológicas que costumavam surgir entre organizações de notícias —como se deviam dizer que o presidente Donald Trump mentiu— hoje se desenrolam dentro do Times.

E o Times engoliu tanto do que antes se chamava de nova mídia que o jornal pode parecer uma concorrência difícil de tradições em duelo: a seção Estilo é um Gawker mais polido, enquanto as páginas editoriais refletem as melhores e as piores provocações da The Atlantic. A revista publica discussões ousadas sobre raça e história americana, e a cobertura de campanha canaliza a agressão sensacionalista de Politico.

Estou orgulhoso de deixar o BuzzFeed News como uma entre um punhado de redações fortes e independentes que continuam de pé entre os destroços da consolidação. Mas sinto falta do amplo momento dez anos atrás, quando estávamos numa onda de novos atores reimaginando o significado de jornalismo.

Meu trabalho como colunista aqui será animador e desconfortável —cobrir esta nova era da mídia de dentro de um de seus titãs (mas espero que vocês me digam se eu ficar dentro demais).

E espero que aquela era anterior de inovação não tenha existido só para criar uma equipe e algumas lições para o equivalente em jornal dos New York Yankees de 1927.

"O fosso é tão largo agora que não vejo ninguém entrando nele", disse em uma entrevista Josh Tyrangiel, ex-vice-presidente sênior de notícias da Vice que hoje produz televisão e documentários. "Não há uma novidade chegando. E o editor do BuzzFeed News, que provavelmente era o principal rebelde, hoje está escrevendo esta coluna para vocês no The New York Times."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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