Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Quais as lições que podemos tirar da bolha da internet, que completa 20 anos nesta terça

Até que ponto é incomum essa demora na recuperação do índice Nasdaq?

Nova York | The Wall Street Journal

Talvez seja apropriado que o mercado de ações tenha despencado no mês do 20º aniversário do ponto de maior expansão na bolha de ações de internet.

Em 10 de março de 2000, o índice composto Nasdaq atingiu um recorde de 5.132,52 pontos. Sabemos o que aconteceu a seguir. De lá a outubro de 2002, o índice havia caído em 78,4%, para 1.108,49 pontos.

E isso representou apenas metade da agonia. A outra metade foi a recuperação anêmica que o índice registrou depois de cair a esse ponto. Só em novembro de 2014 o índice voltou às alturas que tinha ocupado em março de 2000, mesmo considerados os dividendos. Se computarmos a inflação, o índice só se recuperou em agosto de 2017, mais de 17 anos depois do pico.

Se o índice industrial médio Dow Jones seguisse o mesmo roteiro, estaria sendo negociado a cerca de 5,4 mil pontos em outubro de 2022, e só retornaria ao seu patamar atual em novembro de 2034 (ou, considerada a inflação, no terceiro trimestre de 2037). É difícil superestimar o impacto devastador que isso teria sobre os aposentados e as pessoas à beira da aposentadoria.

Fachada da Nasdaq em Nova York, Estados Unidos - Shannon Stapleton/Reuters

Até que ponto é incomum essa demora na recuperação do índice Nasdaq?

A recuperação em ritmo de caramujo do Nasdaq, depois do colapso da bolha da internet, parece ter precedentes, à primeira vista. Por exemplo, foi só em 1954 que o Dow Jones recuperou a cotação que teve antes do crash de 1929, em termos de pontos —um prazo de recuperação de 25 anos.

Mas na verdade a recuperação real das ações, depois do crash, demorou muito menos do que 25 anos, por três razões: as 30 ações que formavam o Dow mostravam desempenho abaixo da média do mercado; os dividendos, que eram substanciais nas décadas de 1920 e 1930, ajudaram a restaurar as perdas; e a inflação, que era negativa no começo da década de 1930, trabalhava em benefício das ações.

Em base ajustada por dividendos e inflação, o mercado de ações como um todo havia se recuperado da crise de 1929 em março de 1937, apenas sete anos e meio depois do crash.

Saltando para o começo do século 21, o mercado como um todo precisou de prazo semelhante, considerados inflação e dividendos, para se recuperar da crise de 2008-2009 (5,25 anos) e do estouro da bolha da internet (7,5 anos). O período de recuperação mais longo dos mercados americanos aconteceu depois da queda das bolsas em 1973-1974.

Foi só no final de 1984 que o mercado mais amplo, computados os efeitos da inflação e dividendos, voltou ao ponto que ocupava em janeiro de 1973 —quase 12 anos de demora.

Repare atentamente, além disso, que esses prazos de recuperação envolveram os piores colapsos de mercado dos últimos 100 anos. Se considerarmos todas as baixas de mercado dos Estados Unidos desde a metade da década de 1920, calculo que o prazo médio de retorno dos mercados ao ponto que ocupavam antes da crise, computados os efeitos da inflação e dos dividendos, foi de 3,1 anos.

Assim, a queda abrupta da Nasdaq em 2000 e a demora em sua recuperação subsequente são dados fora da escala. Nenhuma outra recuperação pós-baixa demorou tanto.

Diversificação continua a ser a chave

Para tornar uma carteira menos vulnerável a uma recuperação longa e complicada como a que o mercado da Nasdaq sofreu, a diversificação será tão importante quanto sempre foi.

Concentração estreita em um número relativamente baixo de companhias em geral mais jovens significou que o mercado da Nasdaq precisasse de prazo mais de duas vezes mais longo que o mercado em geral para se recuperar do estouro da bolha da internet.

E é bom deixar claro que o mercado da Nasdaq era muito mal diversificado, 20 anos atrás. A Cisco Systems, companhia de hardware e software de internet, tinha a maior capitalização de mercado da Nasdaq, em março de 2000, e respondia pelo maior quinhão do índice composto Nasdaq, que é ponderado por valor de mercado. Nos dois anos subsequentes ao estouro da bolha da internet, seu valor caiu em mais de 90%.

O mercado geral de ações, hoje, se tornou cada vez mais concentrado, o que torna difícil obter o nível de diversificação que de outra forma poderia facilitar uma acomodação dos prejuízos. Por exemplo, as cinco companhias com a maior capitalização do índice S&P 500 hoje respondem por mais de 18% do valor de mercado combinado de todas as empresas que formam o índice. Essa é a maior concentração já registrada nos Estados Unidos, de acordo com a Morgan Stanley Research —mais alta até do que a concentração que existia no momento em que a bolha da internet estourou.

Isso significa que o S&P 500 está se tornando mais vulnerável aos fracassos idiossincráticos de algumas poucas empresas de porte muito grande. Mas embora a tendência seja preocupante, o S&P 500 atual é muito mais diversificado do que o Nasdaq: ante 18% da capitalização de mercado total concentrada nas cinco maiores empresas do S&P, na Nasdaq a concentração era de mais de 40%.

As avaliações importam

A outra lição de investimento é que as avaliações importam, mesmo que não pareçam fazê-lo quando as coisas estão indo bem, e alguns investidores parecem convencidos de que as coisas mudaram.

No momento de maior expansão da bolha da internet, por exemplo, o Nasdaq tinha uma relação preço/lucro de 100, quando calculada sobre os resultados dos 12 meses precedentes —e ela continuava a ser de 75 no caso de projeções para o exercício seguinte.

Nos dois casos, os números eram ordens de magnitude mais altos que a relação preço/lucro do mercado mais amplo, em longo prazo, que ficava abaixo de 20.

Para resumir, nenhuma ferramenta de avaliação é perfeita. Mas, em retrospecto, a relação preço/lucro era um bom indicador de que o mercado estava supervalorizado, e de que o futuro traria retornos mais baixos: desde seu pico em março de 2000, o índice composto Nasdaq, ponderado pela inflação e dividendos, produziu retorno anualizado de apenas 1,3%.

O retorno anualizado comparável, no caso do S&P 500, é de 4,1%, e ele fica abaixo do retorno anualizado médio de 6,8% registrado pela bolsa nos dois últimos séculos.

Felizmente, a relação preço/lucro na Nasdaq atual é bem mais baixa do que há 20 anos: chega a 26,4, com base nos números dos 12 meses precedentes, e a 22,2, nas estimativas futuras, de acordo com a Birinyi Associates. Embora esses números sejam significativamente superiores à média, não estão tão inflados quanto os de março de 2000.

Em resumo

O mercado de ações não está tão supervalorizado quanto há 20 anos e, desde que você invista em um fundo de índices bem diversificado, sua recuperação na próxima queda será bem mais rápida do que a da Nasdaq depois da bolha da internet. Em termos mais amplos, os últimos 20 anos nos ensinaram a importância da diversificação e de prestar atenção às avaliações. Deveríamos adotar a resolução de jamais esquecer de fazê-lo.

Tradução de Paulo Migliacci

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