Descrição de chapéu Coronavírus

Trabalhador informal da periferia de São Paulo já sente queda no movimento

Doméstica divulga anúncio enfatizando que anda com álcool gel; feirante idosa já não pode nem sair de casa

Lucas Veloso
SÃO PAULO/AGÊNCIA MURAL

Um anúncio chama atenção em Pirituba, zona norte de São Paulo. Empregada doméstica há mais de dois anos, uma diarista percebeu nos últimos dias que a pandemia do coronavírus começou a atrapalhar seu trabalho. Para driblar a crise, recorreu ao perfil da mãe no Facebook. Ali, no grupo de moradores do bairro ofereceu seus serviços.

“Infelizmente o vírus está aí, e o remédio e a prevenção é não ter pânico”, assim começa a mensagem. Logo em seguida, ela conta que teve alguns pedidos de faxina cancelados e não pode ficar sem trabalho. “As contas não querem saber”, diz a doméstica que pediu para não ter no nome revelado.

Para tentar angariar clientes, o texto enfatiza alguns cuidados: em sua bolsa sempre há álcool em gel, saquinho para roupas, sabão, toalha e luvas. Avisa também que providenciará máscaras, em prol da segurança dela e das clientes.

A postagem ainda inclui os valores. A diarista passa ou lava roupas por R$ 100, não importando o número de peças. A limpeza de uma casa de até cinco cômodos sai por R$ 120, com a passagem inclusa. Residência com até 10 cômodos sai por R$ 150. “Se não trabalho, não recebo, ou seja, não tenho orçamento, o que me prejudica e muito”, afirma.

“Faço faxina, lavo e passo qualquer tipo de roupa. Só não cozinho por falta de dom. Tenho CNPJ ativo. Levo meu lanche ou marmita para a maior comodidade da cliente”, diz a diarista que pediu para não ter o nome revelado. “Ando com antecedentes, tenho referências. Sou caprichosa, detesto correr com o serviço e tenho compromisso (não tem essa de faltar, deixar a cliente na mão)”.

A história da empregada doméstica exemplifica o impacto do coronavírus nas pessoas que trabalham informalmente nas periferias de São Paulo.

Segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua), divulgada em fevereiro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 40,1% dos ocupados no país são informais –o equivalente a 38 milhões de brasileiros.

Boa parte deste público começa a sofrer os impactos com a queda do pedido de serviços e a necessidade de buscar alternativas, em meio aos cuidados para evitar a proliferação do coronavírus.

José Adriano de Souza Alves, 53, por exemplo, faz parte dos mais de 850 mil motoristas da Uber no país. Ele está receoso em relação a procura nos aplicativos. “Não imagino como vai ser, mas acredito que será difícil, porque a tendência é que as pessoas fiquem sem grana para saírem”.

Por enquanto, ele não pensou em um plano B para o caso de a crise se agravar. Ele aposta que os carros são alternativas para quem foge das aglomerações no transporte coletivo.

Morador da Vila Carmosina, em Itaquera, diz que a crise “vai estourar, como sempre, nos mais pobres”. “Nós vivemos contando moedinhas. Todos da classe trabalhadora estão endividados”, comenta.

Neste domingo (15), a Uber divulgou comunicado anunciando que vai assumir parte da remuneração dos motoristas que venham a ser infectados pelo novo coronavírus ou submetidos à quarentena por autoridades de saúde. A empresa vai bancar o valor referente a 14 dias de corridas.

Para José, não há opção de melhorias a curto prazo, pois, em sua avaliação, o país “está mergulhado numa crise sem tamanho”. “Temos milhões de desempregados, e os patrões fazem chantagem nas contratações, pagando misérias, e sem direitos trabalhistas”.

INCERTEZAS

Para pagar as contas, Renan de Lima Neto, 26, reveza o trabalho informal como entregador de produtos via aplicativos, de bicicleta, e atendente em um depósito de materiais de construção, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Com as ocupações, ganha entre R$ 1.500 e R$ 1.700 no mês.

No dia a dia, já sentiu que o vírus tem afetado o número de entregas e vendas no balcão. “Essa situação coloca em risco minha vaga”, afirma. “Meu caminho reflete o quanto o surto assustou as pessoas. As ruas e comércios estão vazios. Os preços estão subindo, como o do álcool gel”.

Segundo levantamento da Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), Renan faz parte de uma categoria em que as vagas são ocupadas majoritariamente por homens negros, com média de 24 anos e com ensino médio completo. Em geral, são pessoas que estavam desempregadas e agora trabalham todos os dias da semana, entre nove e dez horas por dia, com ganhos médios mensais de R$ 992,00.

Apesar do medo de ficar sem trabalho, Renan é favorável à dispensa dos funcionários por parte das empresas. “Estamos sendo expostos ao vírus diariamente, e com intensidade”.

Outros estão rendidos. A feirante Iolanda Aparecida Porto, 61, do Jardim Marília, na zona leste de São Paulo lamenta a situação. “Eu vou ser bem prejudicada porque eu não poder sair mais para ir na feira, por causa da minha idade”, diz. “[As autoridades] estão pedindo para ficar em casa. Não vou arriscar”.

Ela pontua que já perdeu muitas vendas dos produtos de artesanato que vendia. “Estou com o ‘zap’ das minhas amigas, mas está todo mundo de quarentena. Só por Deus mesmo.”

Pessoas que atuam como empresárias nas periferias também começam a sentir os impactos. Atilma Silva de Lira, 46, mora em Artur Alvim, na zona leste. Ela é dona de uma empresa que realiza pesquisas de mercado e de opinião pública para institutos.

Na avaliação dela, a carteira de ganhos está ficando mais reduzida. “No primeiro dia da quarentena, perdi três contratos com empresas. Os meus colaboradores recolhem dados e ganham por produção. Não são CLT e dependem disso para sustentar suas famílias”, diz.

Nas próximas semanas, 22 entrevistadores seriam recrutados pela empresa, com média de salários em R$ 2.000. Todos os afetados são moradores das periferias da capital.

Atilma argumenta que, como micro-empresária, não possui fundo de caixa ou capital de giro para conseguir manter um mês de gastos. “Se não trabalho, não ganho”, resume.

A alternativa pensada por ela é recorrer às redes sociais, com divulgação em massa, em busca de novos clientes. Ela considera a oferta de trabalho home office, mas adianta que a prática não é bem vista no mercado. De qualquer forma, admite que essa é a única alternativa que vê neste momento.

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