Apesar de Brumadinho, Vale propõe bônus de R$ 19 milhões a diretores

Empresa quer retomar ainda premiação de R$ 29,1 milhões suspensa após a tragédia, em 2019

Rio de Janeiro

A Vale propôs a seus acionistas o pagamento de R$ 19,1 milhões em bônus a seus executivos pelo desempenho em 2019, ano em que a mineradora lidou com o maior desastre de sua história, deixando 270 mortos e um rastro de destruição em Minas Gerais.

A empresa quer ainda retomar o pagamento de R$ 29,1 milhões em prêmios referentes ao ano de 2018, que foram suspensos logo após o rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em janeiro. A distribuição estará restrita a diretores que não estão envolvidos nas investigações, internas ou externas, sobre a tragédia.

Em proposta da administração para assembleia de acionistas desta quinta (30), a Vale estima gastar R$ 170,3 milhões com remuneração de sua diretoria, o dobro dos R$ 85,4 milhões verificados em 2019. O valor inclui salários, benefícios, encargos e os bônus.

Do valor previsto para 2020, R$ 130 milhões estão relacionados a remunerações variáveis, como os bônus e pagamentos de rescisão a executivos que já deixaram a companhia. Em 2019, foram R$ 47,5 milhões.

O crescimento se dá em meio a uma crise global provocada pela pandemia de coronavírus, que levou a mineradora a sacar US$ 5 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões) em empréstimos para reforçar seu caixa e paralisar algumas de suas operações ao redor do mundo.

E após um ano em que a empresa teve prejuízo de R$ 6,7 bilhões, provocado pelos gastos com a reparação de danos e melhorias de segurança de barragens após o desastre. Até o fim do ano, a empresa estimava em R$ 28,8 bilhões os custos relacionados a Brumadinho.

No primeiro trimestre de 2020, a Vale teve lucro de R$ 984 milhões, em balanço ainda sem efeitos significativos da pandemia do coronavírus. No documento divulgado nesta terça (28), porém, a mineradora alerta para riscos de cortes na produção por contaminação de empregados ou aumento das restrições à circulação.

Em nota enviada à Folha, a Vale diz que, do total previsto para a remuneração variável, R$ 19,1 milhões são referentes ao resultado de 2019. O restante será separado para pagar incentivos de longo prazo relacionados ao desempenho desde 2016 (R$ 36,7 milhões) e os bônus suspensos em 2019 (R$ 29,8 milhões).

Apesar do prejuízo no ano passado, a companhia considera que foram cumpridas metas de sustentabilidade e de reparação aos danos de Brumadinho, categoria criada após o desastre para avaliar o desempenho dos executivos que comandaram as operações.

Para a companhia, eles foram eficazes em preparar a transição para a economia de baixo carbono e, em relação a Brumadinho, evoluir na reparação, ao alcançar acordos legais efeitos atuar de forma transparente nas investigações e exercer a gestão da reputação e da comunicação, entre outros.

"A liderança da empresa demonstrou engajamento total com a construção de uma empresa melhor e compromisso com a transformação cultural no futuro da Vale", diz. "Nesse sentido, o pagamento de remuneração variável de 2019 que ocorre em 2020 é uma forma de agradecer e recompensar aqueles que contribuíram e continuam a contribuir para a Vale."

Na direção atual, quatro executivos estavam na empresa quando a barragem da mina Córrego do Feijão se rompeu, em 25 de janeiro de 2019: os diretores de Finanças, Luciano Siani, de Suporte ao Negócio, Alexandre Pereira, e de Relações Institucionais e Sustentabilidade, Luiz Eduardo Osório e o atual presidente, Eduardo Bartolomeo, que ocupava a diretoria de Metais Básicos no Canadá.

Os outros, incluindo o presidente na época do desastre, Fabio Schvartsman, foram afastados.

Em janeiro, Schvartsman e outros dez funcionários da mineradora foram denunciados pela Promotoria de Minas Gerais por homicídio doloso duplamente qualificado - quando existe a intenção de cometer crime.

A denúncia também inclui funcionários da Tüv Süd, consultoria que atestou a segurança da barragem.
As duas empresas foram denunciadas por crime ambiental. Para os procuradores, a Vale sabia da fragilidade da estrutura e "constituiu internamente verdadeira caixa-preta, consistente em estratégia corporativa de manter sigilosamente informações sobre riscos geotécnicos inaceitáveis de barragens de rejeito".

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