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Todos culpam os bancos, mas somos parte da solução para crise do coronavírus, diz presidente do Bradesco

Lazari diz que sistema financeiro do país está sólido e tem condições de suportar níveis de inadimplência de empresas e pessoas físicas bastante elevados

São Paulo

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, 56, estima que a economia brasileira poderá encolher até 4% neste ano como resultado da crise causada pela epidemia da Covid-19. “Acho que isso está contratado", afirma.

Sobre as críticas de empresas e entidades aos bancos, acusados de limitar o crédito e aumentar os juros neste momento, Lazari diz que essa é uma "crise de sobrevivência”.

"Todo o mercado mundial acaba imputando culpa aos bancos. Mas nós não somos parte do problema, somos parte da solução.”

Segundo ele, um salto gigantesco nos pedidos de novas operações de crédito no início da crise causou os problemas, que já estariam solucionados.

Octavio de Lazari, presidente do Bradesco, em entrevista à Folha.
Octavio de Lazari, presidente do Bradesco, em entrevista à Folha - Victor Parolin - 15.mar.2019/Folhapress

O sistema financeiro no Brasil, afirma, está sólido e tem condições de suportar níveis de inadimplência de empresas e pessoas físicas bastante elevados, um cenário já esperado.

Sobre a condução do presidente Jair Bolsonaro na crise, Lazari diz que os problemas não podem continuar a ser tratados de “maneira conflituosa e com atritos”.

“Quando você está doente, você não vai numa agência bancária ou num pet shop pedir para o seu gerente ou o balconista te examinar. Você vai procurar um médico. Então, cada um no seu lugar."

Leia entrevista à Folha:

Tem havido muita reclamação sobre os bancos nesta crise. A Folha publicou reportagem há alguns dias com empresas que não conseguiam acessar linhas de crédito ou adiar o pagamento de dívidas. Os bancos e a Febraban contestaram. Mas, nos últimos dias, os presidentes de entidades como a Abimaq e Anfavea afirmaram que os bancos estão "atrapalhando o país” e “asfixiando o setor produtivo”. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também reclamou de dificuldades na concessão de créditos. O que o sr. tem a dizer?

Estamos passando por uma crise que não é financeira, é uma crise de sobrevivência. E todo o mercado mundial acaba imputando culpa aos bancos. Mas nós não somos parte do problema, somos parte da solução.

Logo que a crise veio, os bancos privados, nós, o Itaú e o Santander, fomos os primeiros a dizer que iríamos prorrogar por 60 dias todos os vencimentos para os clientes com a mesma taxa de juros. E assim o fizemos. Pode ter tido algum erro, mas foi pontual.

Tivemos até terça (7) 988 mil pedidos de prorrogação de parcelas por 60 dias. Prorrogamos todos. E não importa se o cliente está com restrição, se tem problemas. Estamos prorrogando todos, sem exceção e com a mesma taxa de juros que foi contratada antes.

E talvez 60 dias não seja o suficiente e a gente tenha que dar mais 60. E estamos nos preparando para fazer isso.

Em relação à linha para folha de pagamento, nós fomos rapidamente ao Banco Central e ao BNDES para ajudar nessa linha. Pré aprovamos o crédito para que o cliente pudesse fazer isso por meios digitais e aprovamos 54 mil folhas de pagamento.

Ou seja, aprovamos 92% de todas as pequenas e médias empresas que fazem folha de pagamento com o Bradesco. Já está na tela do cliente para ele tomar o crédito por 36 meses e com juros da Selic de 3,75% ao ano.

Quando o governo falou em colocar os R$ 600 por três meses para as pessoas mais carentes, fomos os primeiros a falar com o governo para ajudar. Se o cliente escolher receber pelo Bradesco ou outro banco privado, o crédito virá para a conta dele e não será debitado se ele tiver débitos ou atrasos com o banco. E não vai ter tarifa nenhuma nisso.

Somos parte da solução. Vou explicar o que aconteceu há dez dias, quando os empresários saíram falando que estavam encontrando problemas nos bancos.

Nós recebemos no banco de atacado, das médias e grandes empresas, mais ou menos de R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões ao dia de pedidos de operações de crédito. Há dez dias, em um único dia, recebemos R$ 20 bilhões. De muitas empresas que nunca pegaram crédito, e que estão há cinco anos comigo.

Veio todo mundo ao mesmo tempo. E temos todos os outros para atender também. Não posso concentrar toda a liquidez do banco em poucas empresas apenas.

Os bancos internacionais também cortaram as linhas de crédito internacionais para o Bradesco e outros bancos em 80%. E o spread quadruplicou nessas linhas que o Bank of America ou o Citibank nos repassavam. O que dissemos é que era preciso esperar as coisas voltarem ao normal, pois não dava para atender todo mundo no mesmo dia.

Nós, o Itaú e o Santander passamos quatro dias em uma loucura desenfreada porque as empresas queriam tomar crédito para se preservar, mesmo que não precisassem.

Isso passou. Voltamos à normalidade e não há mais problema de excesso de demanda agora. Agora, nós é que estamos ligando para as empresas.

Tirando o impacto do spread maior nas linhas internacionais, os juros e spreads cobrados das empresas no Brasil são compatíveis com os de antes da crise?

Absolutamente compatíveis. A única coisa é que, nas linhas de longo prazo, a taxa futura de juros já está apontando para 8%. Dependendo do prazo da operação, o juro vai ser maior porque a curva de juros está sinalizando juros maiores no futuro.

Ao contrário da crise de 2008, que atingiu o coração do sistema financeiro, esta é uma crise para as pessoas e as empresas. Os bancos estão emprestando dinheiro para elas, que vão sofrer com queda no emprego e no faturamento. Muita gente que pegará empréstimo vai ficar pelo caminho. Qual o risco de contaminação para o sistema financeiro? Ele está sólido o suficiente?

É óbvio que vamos ter uma crise maior pela frente. Algumas empresas de fato vão fica pelo caminho. Mas tiramos lições importantes da crise de 2008, que passou a exigir, em nível internacional, muito mais capital e provisões para que os bancos estivessem mais capitalizados.

Hoje, os bancos brasileiros estão muito bem capitalizados e têm provisões suficientes. Mas eles também vão se proteger para enfrentar essa inadimplência que vem aí.

Obviamente, os balanços do primeiro trimestre não serão parecidos com o que a gente viu no final de 2019. A rentabilidade será bem menor, mas temos um sistema financeiro extremamente robusto e bem provisionado.

Só o Bradesco tem ainda R$ 60 bilhões em depósitos compulsórios depositados no Banco Central. Se pegarmos só nós três [Bradesco, Itaú e Santander], temos mais de R$ 200 bilhões que ainda estão no Banco Central e que não foram liberados.

Não existe preocupação em relação à liquidez dos bancos, mas certamente estamos preocupados em olhar as operações de crédito. Mas vamos ajudar. Além de fazer a prorrogação [de pagamentos] por 60 dias, tem clientes que nos procuram dizendo que esse prazo não adianta.

E já estamos fazendo o que chamamos de reorganização financeira, vendo o prazo de que precisam e dando carência de seis meses, no mínimo. Para poder jogar isso lá para frente, para a hora que esse momento horrível que estamos vivendo acabar.

Qual o nível de inadimplência suportável para não comprometer o sistema?

Isso é muito difícil, mas não há nenhum problema maior que possa afetar o balanço dos bancos. Pode dobrar a inadimplência, como já aconteceu no passado, quando houve episódios em que ela triplicou. Só na fase mais aguda da Lava Jato, os cinco maiores bancos jogaram R$ 500 bilhões em perdas [nos balanços] e ninguém se machucou ou teve problemas.

O Brasil vinha em uma toada de crescimento frágil antes da crise, puxando principalmente pelo aumento do crédito ao consumo, com o endividamento das famílias atingindo níveis importantes. Agora, além de endividadas, as famílias terão perdas que podem ser brutais na renda. Como sr. vê o futuro da economia no médio prazo?

Os economistas, inclusive os nossos, vêm falando em uma expectativa de PIB negativo de 1%. Respeito muito os economistas, até porque eu também sou, mas eu diria que eles estão errados.

Creio que o PIB deste ano vai ficar abaixo de 3% ou 4%. Outros países do mundo vão sofrer mais do que isso.

Mas isso agora é um exercício de achismo, porque não sabemos a extensão do que estamos fazendo em termos de recolhimento social, se vamos conseguir achatar essa curva para não colapsar o sistema de saúde.

Mas dado a parada que tivemos nos últimos 30 dias e que certamente será de 60 dias, vamos ter uma queda do PIB de 3% ou 4%. Acho que isso já está contratado. Não tem muita alternativa.

Olhando para crises passadas, não acho que será uma recuperação em forma de “V”, mas acho que ela pode ser relativamente rápida.

Apesar de ter subido um pouco o endividamento das famílias, ainda somos um país pouco alavancado, e as empresas brasileiras também são pouco endividadas. A recuperação pode não ser rápida, mas ela pode ser consistente ao longo do tempo.

É uma pena, porque tínhamos sinais claros de que a economia estava decolando, para um crescimento mais robusto em 2020. Agora, vamos ter que começar a remar tudo de novo quando isso passar.

Do ponto de vista estrutural, o Brasil terá um aumento importante na relação dívida PIB e no déficit fiscal, com menos arrecadação e mais gastos com os programas de socorro.

Vamos ter um problema fiscal sem dúvida nenhuma. Diria que ele será do mesmo tamanho do benefício que obtivemos com a reforma da Previdência, algo como R$ 800 bilhões ao longo de dez anos. É torcer para que isso se resolva o mais rápido possível.

Mais ou menos nessa época, no ano passado, estive aí para outra entrevista quando o sr. disse que faltava foco ao presidente Jair Bolsonaro na questão da Previdência. A reforma só saiu no final do ano. Agora, temos novamente um impasse causado pelo presidente contra o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que vem sendo fritado em público por Bolsonaro. Qual a avaliação que o sr. faz da condução do presidente neste momento?

Temos um problema que precisa ser resolvido de forma clara. É um problema de comunicação.

Quando você está doente, você não vai numa agência bancária ou num pet shop pedir para o seu gerente ou o balconista te examinar. Você vai procurar um médico. Então, cada um no seu lugar.

Eu confio nos médicos, nos sanitaristas e cientistas porque eles estudaram a vida toda para isso.

Mas também entendo o seguinte: se pegarmos um município no norte da Bahia, com 20 mil habitantes, ninguém com coronavírus, e com leitos para atender eventualmente casos, essa cidade pode continuar funcionando normalmente, com comércio aberto e as pessoas trabalhando.

Agora, em São Paulo, no Rio, não dá. Temos que tentar continuar nosso trabalho de dentro de casa ou de uma fábrica, se possível, mas tem que fazer o isolamento social.

Isso está provado pelos médicos e pelo que aconteceu em outros países do mundo, como a Itália e a Espanha, que não fizeram o isolamento social.

Mas temos várias cidades em que não há problema, e esse equilíbrio é que pode ser comunicado de uma forma muito mais amena, empática e equilibrada. E não de uma maneira conflituosa e com atritos.


Octavio de Lazari, 56

Presidente do Bradesco, começou sua carreira no banco como office-boy em 1978, passou a integrar a diretoria em 2017, quando assumiu a Bradesco Seguros. É formado em Ciências Econômicas pela Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco e possui especializações pela FIA (Fundação Instituto de Administração), FGV e Fundação Dom Cabral

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